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Folha Jundiaiense

Qualidade da assistência médica fragiliza com excesso e pejotização

A Crise da Qualidade na Medicina Brasileira: Formação e Assistência em Xeque

A confiança automática depositada em profissionais de saúde enfrenta um período de profunda instabilidade no Brasil. Pacientes que buscam atendimento em Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) ou hospitais convivem com a crescente preocupação sobre a qualificação dos médicos que chegam ao mercado. Um cenário complexo emerge, onde o aumento de profissionais não garante a excelência esperada, impactando diretamente a qualidade da assistência e a segurança do cidadão.

A medicina brasileira atravessa um momento crítico. Enquanto o número de formados cresce exponencialmente, questionamentos severos surgem sobre a qualidade de parte das escolas médicas. Ao mesmo tempo, a oferta de pós-graduações *lato sensu* avança como alternativa à tradicional residência, e a multiplicação de formas de contratação flexíveis, muitas vezes sem vínculos duradouros, redefine o perfil profissional.

Mário Scheffer, renomado pesquisador da área de Força de Trabalho em Saúde e Profissão Médica da Universidade de São Paulo (USP), sintetiza a preocupação. “Há muitos médicos malformados hoje atendendo a população. Ficamos cerca de 10 anos expandindo e com um apagão de avaliações”, afirma o especialista. Scheffer projeta que este cenário terá um impacto direto “na relação com o paciente, mas principalmente na qualidade do atendimento e dos desfechos”, gerando consequências severas para a saúde pública.

A presunção de uma formação equivalente entre todos os médicos recém-chegados ao mercado torna-se cada vez mais difícil. Anteriormente, a trajetória profissional seguia um caminho mais padronizado, com graduação, residência médica e estabilidade institucional. Atualmente, os percursos são fragmentados e desiguais, exigindo um filtro adicional que assegure a competência dos novos profissionais.

O pesquisador da USP reforça a urgência: “Os médicos recém-formados saem do sexto ano e já estão atuando. É preciso ter algum filtro adicional para que a gente não permita que médicos malformados imediatamente passem a atender uma criança de três anos em um pronto atendimento”. Essa lacuna na avaliação final acende um alerta sobre a segurança dos pacientes.

Expansão Desordenada e a Fragilidade das Escolas Médicas

A raiz da preocupação com a qualidade da formação médica reside, em grande parte, na proliferação de instituições de ensino. O país assistiu a um boom no número de faculdades de medicina, muitas das quais sem a estrutura ou o corpo docente necessários para garantir um ensino de excelência. Este crescimento desordenado alimenta a heterogeneidade e a fragilidade do sistema educacional.

“Hoje temos cerca de 500 escolas médicas completamente heterogêneas. Algumas são muito novas, algumas são caça-níquel, totalmente privadas, de esquina, enquanto outras são tradicionais”, destaca Mário Scheffer. Esta diversidade extrema implica em uma vasta diferença na infraestrutura de ensino, na qualificação dos professores e na oferta de campos de prática essenciais para a formação médica.

O Impacto da Heterogeneidade na Qualificação Profissional

A existência de faculdades de medicina que podem ser caracterizadas como “caça-níquel” ou “de esquina” sugere uma priorização do lucro em detrimento da qualidade educacional. Estas instituições, por vezes, carecem de hospitais-escola próprios, laboratórios bem equipados, bibliotecas atualizadas e, principalmente, de um corpo docente experiente e dedicado. O resultado direto é a formação de profissionais com lacunas significativas em conhecimentos teóricos e práticos.

Para o cidadão, esta heterogeneidade se traduz em um risco real. O paciente que busca atendimento não consegue discernir se o médico à sua frente provém de uma instituição com rigoroso padrão de ensino ou de uma que comprometeu a qualidade em nome da expansão. A fragilidade na base da formação impacta diretamente a capacidade de diagnóstico, tratamento e o manejo de situações de emergência, colocando vidas em risco e sobrecarregando ainda mais o já pressionado sistema de saúde.

Pós-Graduações *Lato Sensu* Versus Residência Médica: Um Dilema na Especialização

A preocupação com a qualidade da formação não se encerra na graduação; ela se estende criticamente ao processo de especialização. Após o diploma, o caminho tradicional e mais qualificado para se tornar um especialista é a residência médica, considerada o padrão-ouro da formação pós-graduada.

No entanto, observa-se um crescimento alarmante de profissionais que recorrem a cursos de pós-graduação *lato sensu* como forma de atuar em áreas específicas da medicina. Essa tendência gera um intenso debate sobre qualificação profissional, certificação e, mais crucialmente, a segurança assistencial oferecida à população. Os cursos *lato sensu* focam em especializações mais amplas, sem o mesmo rigor prático e a carga horária intensiva da residência.

A Distinção Crucial para a Segurança do Paciente

A **residência médica** representa um programa de treinamento em serviço, caracterizado por alta carga horária, supervisão direta por preceptores experientes e vivência prática exaustiva em ambiente hospitalar. Este modelo garante a aquisição de habilidades e competências clínicas essenciais sob acompanhamento contínuo. Em contraste, as **pós-graduações *lato sensu***, que incluem mestrados profissionais e cursos de especialização, geralmente possuem um perfil mais teórico e uma menor exigência de prática supervisionada.

Mário Scheffer é categórico ao afirmar que as pós-graduações devem ter um papel apenas complementar, voltadas à educação continuada do profissional. “Eles jamais serão substitutivos, por exemplo, de uma formação em uma residência médica”, destaca o pesquisador. Ele aponta que muitas das instituições que oferecem cursos de graduação também abriram programas de pós-graduação, uma área ainda pouco regulada, marcada por grandes diferenças de qualidade, carga horária e exigências práticas.

A ausência de uma regulamentação rigorosa para os cursos de pós-graduação *lato sensu* cria uma zona cinzenta, onde a linha entre a educação continuada e a especialização se torna difusa. Essa falta de controle permite que profissionais sem a formação prática adequada atuem em áreas complexas da medicina, comprometendo a eficácia dos tratamentos e elevando os riscos para os pacientes. A defesa de Scheffer por uma regulamentação mais severa visa “separar o joio do trigo”, garantindo maior transparência e segurança na qualificação dos especialistas.

O Debate Nacional: Avaliação de Médicos e o Papel do Congresso

Diante da complexidade da formação médica e da proliferação de vias de especialização, a necessidade de garantir que os profissionais que chegam ao mercado possuam a qualificação essencial para atender a população tornou-se uma pauta central. Mecanismos de avaliação robustos e eficazes emergem como ponto chave para a proteção da saúde pública e a valorização da profissão médica.

Em junho, o presidente Lula editou uma Medida Provisória (MP) que representa um marco nesta discussão. A MP transforma o **Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (Enamed)** em um requisito obrigatório para a obtenção do registro profissional. Pela proposta, estudantes que ingressarem no curso de Medicina após a publicação da medida precisarão atingir um desempenho mínimo no Enamed para exercer a profissão, introduzindo um filtro essencial na entrada dos novos médicos no mercado.

A medida governamental se insere em um debate mais amplo que já ocorria no Congresso Nacional e no Judiciário sobre a implementação de mecanismos consistentes de avaliação. De um lado, o Conselho Federal de Medicina (CFM) defende a criação de uma “OAB da Medicina”, nos moldes do exame obrigatório para advogados. De outro, há quem considere o Enamed um instrumento suficiente para aferir a qualidade dos futuros profissionais, gerando um impasse sobre qual modelo seria mais adequado e abrangente.

A Proposta da “OAB da Medicina” pelo CFM

Alcindo Cerci Neto, conselheiro federal de Medicina, reforçou recentemente a importância de uma prova capaz de avaliar adequadamente os médicos, defendendo publicamente a implementação da “OAB da Medicina”. A proposta, atualmente em discussão no Congresso Nacional, prevê um exame obrigatório para médicos recém-formados, que incluiria não apenas provas teóricas, mas também avaliações práticas de habilidades e competências clínicas. Esta abordagem busca uma análise mais holística e completa do profissional.

A iniciativa do CFM atribui à própria entidade a responsabilidade pela coordenação, regulamentação e aplicação da prova. Neto argumenta que “Nós já sabemos quais faculdades não formam médicos adequados, e ao invés de fechar as faculdades, são abertas novas faculdades. Então, houve um desgaste. E aí, o CFM está usando a sua prerrogativa legal de avaliar médicos, e não estudantes”. A prerrogativa legal mencionada pelo CFM busca avalizar o médico já formado, funcionando como um atestado de qualificação mínima para o exercício da profissão, independentemente da instituição de ensino de origem.

O que está em jogo neste debate é a **segurança do paciente** e a credibilidade da profissão. A implementação de um filtro rigoroso, seja via Enamed com requisitos mínimos ou uma “OAB da Medicina” abrangente, define o futuro da assistência à saúde no Brasil. A decisão sobre qual mecanismo prevalecerá impactará a formação de milhares de profissionais e, consequentemente, a qualidade do atendimento disponível para milhões de brasileiros.

A “Pejotização” e a Fragilização dos Vínculos no Mercado de Trabalho Médico

As transformações na medicina brasileira não se limitam à formação e certificação; elas também alteraram profundamente a forma como os médicos se inserem no mercado de trabalho. Um fenômeno crescente de flexibilização dos vínculos empregatícios, conhecido como “pejotização”, marca a atual realidade profissional, gerando impactos significativos para os médicos e o sistema de saúde.

Dados da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) revelam que apenas 30% dos médicos mantêm vínculos formais de emprego, como contratos celetistas ou estatutários. A vasta maioria atua por meio de pessoas jurídicas (PJ) próprias, cooperativas ou outras modalidades de contratação flexível. Este modelo de trabalho, embora possa oferecer aparente autonomia, fragiliza a segurança trabalhista e os direitos previdenciários dos profissionais.

Consequências da Flexibilização Trabalhista na Assistência

A **”pejotização”** refere-se à contratação de profissionais como pessoas jurídicas, em vez de empregados com carteira assinada. Este modelo, frequentemente motivado pela busca por menores encargos trabalhistas por parte dos empregadores, impacta diretamente a estabilidade financeira e os benefícios sociais do médico. Além disso, a precarização dos vínculos dificulta a construção de uma carreira sólida dentro de uma única instituição, promovendo uma alta rotatividade.

O fenômeno é acompanhado por uma crescente mobilidade profissional. Cerca de 40% dos médicos trabalham em um município diferente daquele em que residem, circulando entre hospitais, clínicas e unidades de saúde para cumprir múltiplos plantões e otimizar a renda. Esta realidade contrasta drasticamente com a de décadas atrás, quando predominavam vínculos mais estáveis e carreiras construídas ao longo dos anos em uma mesma instituição, fomentando um maior senso de pertencimento e responsabilidade.

Para Mário Scheffer, esse modelo fragmentado impacta diretamente a organização do **sistema de saúde**, que se torna uma “colcha de retalhos”. “Hoje os médicos têm muito pouco vínculo com o local onde trabalham. Fazem o seu plantão e vão embora, atuando em vários hospitais”, aponta. Essa dinâmica reduz o engajamento do profissional com a instituição e a equipe, dificultando a continuidade do cuidado ao paciente e a construção de equipes coesas e integradas. A falta de vínculos estáveis pode levar a uma menor adesão a protocolos institucionais e a uma menor participação em processos de melhoria contínua da qualidade.

Responsabilidade Compartilhada: O Papel dos Empregadores na Contratação Médica

Frente à ausência de um sistema robusto e universal de avaliação da formação médica no Brasil, a responsabilidade pela verificação da qualificação dos profissionais transferese, em grande parte, para os empregadores. Tanto instituições públicas quanto privadas que contratam médicos assumem um papel central e crítico neste processo.

Empregadores passam a ter um papel decisivo. É imperativo que verifiquem com rigor a formação acadêmica, os registros profissionais nos conselhos regionais de medicina e a qualificação dos médicos que integram suas equipes. Esta checagem minuciosa não é apenas uma formalidade administrativa, mas uma das principais barreiras contra a atuação de profissionais inadequados ou, em casos extremos, de falsos especialistas, como alerta Scheffer. A diligência na contratação protege a instituição, a equipe e, sobretudo, os pacientes que buscam atendimento.

Contexto

A proliferação desregulada de escolas médicas, a flexibilização dos modelos de pós-graduação e a precarização dos vínculos trabalhistas refletem um cenário de profundas transformações no setor da saúde brasileiro. Estes fatores convergem para uma preocupante fragilização da assistência médica, com reflexos diretos na segurança e na qualidade do atendimento oferecido à população, exigindo respostas urgentes das esferas regulatórias e empregadoras.

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