O Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (Into) registrou um aumento de quase 50% nas transferências de pacientes após quedas. De janeiro a maio deste ano, 258 pessoas foram encaminhadas à unidade por esse motivo. O número representa mais da metade dos pacientes de trauma recebidos no período.
Esses dados colocam as quedas como um dos principais acidentes a causar lesões ortopédicas graves no país. O alerta surge no Dia Mundial de Prevenção de Quedas, uma data chancelada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) e integrada ao calendário do Ministério da Saúde.
O Into, hospital federal de alta complexidade, recebe apenas casos que demandam avaliação especializada. A grande maioria dos 258 pacientes precisou de cirurgia.
O envelhecimento da população desponta como fator central para o salto nas estatísticas. Mais de 70% dos pacientes atendidos tinham 60 anos ou mais.
Tito Rocha, chefe do Centro de Trauma do Into, analisa o cenário: “A falta do equilíbrio, a diminuição da força, a perda da acuidade visual, tudo isso vem com a idade. Nos últimos 20 anos, a gente teve aumento fantástico da longevidade. Quando você aumenta o número de pessoas idosas, você aumenta também o número de problemas relacionados à idade.”
A maioria dos idosos que chega ao Into caiu da própria altura. Um tropeço, um desequilíbrio na rotina. Algo simples, mas com consequências severas.
Para um jovem, uma queda assim geralmente significa apenas um susto. Para o idoso, a realidade é outra.
“O idoso não consegue nem se levantar e normalmente faz uma fratura que precisa de algum tratamento cirúrgico ou que ele fique acamado”, explica Rocha.
As intervenções cirúrgicas, embora necessárias, não eliminam os riscos. O processo de internação e recuperação pode desencadear uma série de complicações.
Quadros de pneumonia e infecções urinárias são comuns. “A mortalidade associada a uma fratura em idosos é muito grande nos primeiros 30 dias, e em até 1 ano depois da queda fica em torno de 20% a 30%.”
Esse panorama pressiona diretamente o sistema de saúde. Hospitais como o Into precisam lidar com um volume crescente de casos complexos, exigindo recursos e leitos de forma contínua.
Prevenção de Quedas: Um Desafio Coletivo
A prevenção se mostra a estratégia mais eficiente para mitigar esses riscos. Tito Rocha aponta duas frentes essenciais.
A primeira foca no cuidado individual com o corpo. Exercícios físicos regulares para fortalecer a musculatura e combater a perda óssea são imperativos. A prevenção da osteoporose, por exemplo, reduz a fragilidade dos ossos.
“Uma pessoa que já não consegue levantar sozinha de uma cadeira, se ela cai e quebra um osso, ela vai ter uma recuperação bem mais difícil, porque ela já não tinha força óssea e muscular antes”, afirma o chefe do Centro de Trauma.
A segunda frente atua na adaptação do ambiente doméstico. Pequenas mudanças podem evitar grandes acidentes.
Instalar barras de apoio no banheiro, remover tapetes soltos, usar calçados antiderrapantes e redobrar a atenção com animais domésticos são medidas práticas.
O envelhecimento da população, ressalta Rocha, não é um fenômeno negativo. Pessoas se mantêm ativas por mais tempo hoje.
Aumentar a longevidade é uma vitória. No entanto, ela carrega consigo um ônus: “Chegar aos 90 anos é ótimo, mas tem um preço. Ainda são pessoas com mais comorbidades, mais frágeis, com algum déficit cognitivo.”
A demanda por cuidado especializado e o foco em prevenção crescerão à medida que a faixa etária acima dos 60 anos se expande, exigindo uma resposta coordenada da sociedade e das políticas públicas de saúde.
Contexto
O Brasil passa por uma acelerada transição demográfica, com o número de idosos crescendo de forma expressiva. Este fenômeno impõe novos desafios ao sistema de saúde pública, que precisa se adaptar para atender a demandas específicas como as lesões por quedas. A prevenção e o tratamento dessas ocorrências impactam não só a qualidade de vida do idoso, mas também a sustentabilidade dos recursos hospitalares e a carga sobre as famílias, configurando um tema central para as políticas de saúde a longo prazo.



