Apenas 49% dos estudantes brasileiros de 15 anos possuem as habilidades essenciais para a interpretação de texto. Este dado alarmante é um dos principais resultados do Programa Internacional de Avaliação de Estudantes (Pisa) 2025, divulgado nesta terça-feira (8) pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O percentual coloca o Brasil em uma posição crítica no cenário educacional global, indicando que mais da metade dos adolescentes na faixa dos 15 anos – etapa crucial de transição para o ensino médio ou para o mercado de trabalho – não domina competências fundamentais para compreender informações escritas de forma eficaz.
Os resultados, obtidos através de uma prova aplicada globalmente a cada três anos, avaliam os conhecimentos de estudantes em disciplinas como matemática, leitura e ciências. Para o Brasil, o cenário é de desempenho abaixo da média dos países-membros da OCDE, fixada em 69% para a interpretação de texto, e aponta para a maior queda global na performance dos alunos nos últimos dez anos.
O Cenário da Avaliação Global: O Que é o Pisa e Por Que Ele Importa?
O Programa Internacional de Avaliação de Estudantes, conhecido como Pisa, representa um dos mais relevantes barômetros da qualidade da educação mundial. Coordenado pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), ele não apenas mede o conhecimento de estudantes de 15 anos, mas também avalia a aplicação desses conhecimentos em situações do dia a dia.
Realizado trienalmente, o Pisa oferece uma fotografia comparativa do nível de proficiência em matemática, leitura e ciências entre jovens em dezenas de países e economias. Seus resultados são cruciais para que governos e formuladores de políticas educacionais identifiquem pontos fortes e fracos em seus sistemas de ensino, comparando-se a padrões internacionais e estabelecendo metas de melhoria.
A participação em uma avaliação de tamanha escala permite ao Brasil, e a outras nações, contextualizar seu desempenho, entender lacunas e buscar estratégias eficazes baseadas em evidências. Para o cidadão, esses dados refletem a capacidade da futura força de trabalho e a qualidade da base educacional que sustentará o desenvolvimento do país.
Desempenho Abaixo da Média e Queda Histórica: A Trajetória Brasileira
A performance brasileira no Pisa 2025 contrasta drasticamente com a média dos 38 países-membros da OCDE. Enquanto nesses países a média de proficiência em leitura alcança 69%, o Brasil estaciona em 49%. Essa diferença de 20 pontos percentuais sublinha um atraso educacional significativo em relação às nações mais desenvolvidas.
Mais preocupante ainda é a constatação da OCDE de que o Brasil registrou a maior queda global no desempenho dos alunos dessa faixa etária nos últimos dez anos. Uma década de declínio aponta para problemas estruturais persistentes e a necessidade urgente de revisão de políticas educacionais. Este declínio implica que gerações consecutivas de estudantes estão recebendo uma educação menos eficaz, com consequências de longo prazo para a sociedade e a economia.
A desaceleração na aprendizagem, capturada pelo Pisa, levanta questionamentos sobre a resiliência do sistema educacional brasileiro diante de desafios contemporâneos e a eficácia de investimentos e reformas implementadas no período. Para o mercado de trabalho, essa queda significa menos profissionais com as habilidades cognitivas e analíticas exigidas por uma economia cada vez mais complexa e digital.
A Luta pela Interpretação de Texto: Detalhes dos Indicadores
A OCDE define a interpretação de texto como a capacidade de um aluno de “identificar a ideia principal em um texto de extensão moderada, localizar informações com base em critérios explícitos e refletir sobre o propósito e a forma dos textos quando solicitados a fazê-lo”. Apenas metade dos estudantes brasileiros de 15 anos atinge este patamar.
Essa deficiência em habilidades de leitura vai além da mera compreensão literal; ela afeta a capacidade crítica e analítica. Um jovem com dificuldades de interpretação terá maior dificuldade em compreender bulas de remédio, contratos de trabalho, notícias complexas, ou mesmo as entrelinhas de um debate público, limitando sua participação plena na cidadania e no mercado.
Ainda mais alarmante é o indicador de “alta performance” em leitura. Em média, 6% dos estudantes dos países da OCDE são classificados nesse nível, o que significa serem capazes de compreender textos longos e abstratos, interpretar conceitos complexos e distinguir com clareza entre fatos e opiniões. No Brasil, esse índice é de apenas 1%. Essa lacuna de talentos altamente qualificados impacta diretamente a capacidade do país de inovar, desenvolver pesquisa e competir em setores de alta tecnologia.
Matemática e Ciências: O Atraso Custa Anos de Aprendizagem
A educação brasileira também demonstra um desempenho inferior nas áreas de matemática e ciências, complementando o quadro de desafios. O país pontuou 408 em leitura, 377 em matemática e 409 em ciências. Embora leitura seja a pontuação mais alta, todas as disciplinas estão abaixo da média global.
Em matemática, a situação é particularmente grave. Apenas 28% dos alunos brasileiros que participaram do estudo demonstraram proficiência, enquanto a média entre os países-membros da OCDE foi de 65%. Esse abismo de 37 pontos percentuais revela uma fragilidade profunda no ensino de uma disciplina fundamental para o raciocínio lógico e o avanço tecnológico.
O Pisa estima que 20 pontos na nota equivalem a um ano de aprendizado em qualquer uma das disciplinas avaliadas. Com isso, o Brasil está atrasado em cerca de 4,6 anos em matemática em relação aos membros da OCDE. Isso significa que um estudante brasileiro de 15 anos tem, em média, o nível de conhecimento matemático que um estudante de 10 ou 11 anos em países com educação superior. Essa defasagem compromete o acesso a cursos universitários exigentes e a carreiras em áreas STEM (Ciência, Tecnologia, Engenharia e Matemática).
O Perfil dos Avaliados e a Amostra do Estudo
O levantamento de 2025 envolveu um universo massivo de 760 mil estudantes de 91 países e economias, garantindo uma base de dados robusta e representativa. A participação do Brasil se deu com 30.140 estudantes, uma amostra significativa que reflete a realidade educacional do país.
O perfil dos participantes brasileiros avaliados revela uma predominância de alunos da rede pública: 72,4% dos estudantes eram oriundos de escolas estaduais, e 96,9% delas estavam localizadas em áreas urbanas. Essa composição da amostra indica que os resultados são um retrato fiel, em grande parte, dos desafios enfrentados pelo ensino público urbano no Brasil, que atende à maioria da população estudantil.



