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Folha Jundiaiense

Pioneiras do futebol revelam histórias que marcaram no Sem Censura

Três atletas que desafiaram a proibição histórica do futebol feminino no Brasil e abriram caminho para a modalidade foram homenageadas em programa da TV Brasil. Marilza Martins da Silva (Pelezinha), Marisa Pires (Caju), e Márcia Matos (Russa) detalharam a luta e a paixão pelo esporte, banido por décadas no país e só regularizado em 1980.

A aparição das ex-jogadoras no programa Sem Censura, na última sexta-feira (26), acontece em meio a um momento de crescente reconhecimento, impulsionado por uma recente lei que prevê indenização às atletas pioneiras.

A Proibição e a Resistência do Futebol Feminino

O futebol feminino enfrentou barreiras severas no Brasil. Um decreto presidencial de 1941, assinado por Getúlio Vargas, proibiu explicitamente a prática do esporte por mulheres.

O argumento oficial da época: era “incompatível com a natureza feminina”.

Essa proibição, estendida por quase 40 anos, moldou uma geração. Muitas jogadoras praticavam o esporte clandestinamente, desafiando normas sociais e legais de um período conservador.

A regulamentação oficial só veio em 1980, permitindo que a modalidade começasse sua árdua reconstrução em um cenário ainda desfavorável.

O Esporte Clube Radar, fundado em 1932 em Copacabana, Rio de Janeiro, tornou-se um pilar dessa retomada. Sob a liderança do empresário Eurico Lyra, o clube abraçou o futebol feminino em 1981, apenas um ano após a liberação.

O Radar não apenas formou equipes. Serviu de base para a própria Seleção Brasileira Feminina de Futebol ao longo da década de 1980, montando um elenco que representaria o país.

Pelezinha, cujo apelido foi dado por Eurico Lyra, recorda a surpresa ao ser convocada para representar o Brasil. “É uma emoção você ir pra a China”, disse sobre a viagem de 1988.

A então jovem atleta não tinha a dimensão de jogar pela seleção, mas alimentava um sonho maior: “A gente tinha um sonho de jogar o primeiro mundial feminino. A gente não sabia se isso seria possível, porque o futebol ainda não existia”.

Em 1988, Eurico Lyra comunicou às jogadoras do Radar que elas vestiriam a camisa amarela da Seleção para representar o Brasil na China. Naquela ocasião, as atletas receberam camisas com o emblema da CBF e, ao lado, o escudo do Radar, um símbolo da união e do reconhecimento inicial.

Estádios Cheios e a Luta por Reconhecimento

A visão de estádios cheios para jogos de futebol feminino é frequentemente associada aos tempos atuais, com a popularização da modalidade. No entanto, Marisa Pires (Caju), primeira capitã da seleção brasileira, contrariou essa percepção.

Ela afirmou que a paixão do público já se fazia presente. “Os estádios sempre foram lotados. Os jovens pensam que os estádios ficavam vazios, mas não ficavam”, declarou Caju.

A capitã lembrou o 1º Campeonato Sul-Americano de 1995, em Uberlândia (MG), com arquibancadas repletas. “Todos queriam ir assistir aos jogos, para ver se as mulheres jogavam bem. Os homens se surpreenderam e diziam que futebol também é para mulher”.

Apesar da audiência, a dedicação das atletas vinha sem o respaldo financeiro adequado. Naquela época, salários eram inexistentes.

As jogadoras recebiam apenas “bicho”, um valor por partida, condicionado à vitória. Se perdessem, não levavam nada para casa.

“A nossa persistência, o amor, a paixão é que levaram o futebol ao patamar em que está hoje”, acrescentou Caju, ressaltando o sacrifício de uma geração que jogava por amor.

Indenização Histórica e o Papel de Michel Jackson

Quase quatro décadas após a regulamentação do esporte, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que prevê o pagamento de 500 mil reais para as atletas do futebol feminino que defenderam o Brasil entre 1988 e 1991.

A medida busca compensar anos de ostracismo e falta de apoio. “Ele veio tarde, mas veio muito bem. Só Deus sabe a emoção que a gente está tendo”, afirmou Caju.

A lei estende a premiação também aos familiares de atletas já falecidas, um reconhecimento póstumo àqueles que não puderam testemunhar a virada.

Pelezinha, aos 62 anos, vê na indenização a concretização de parte de seus antigos sonhos. “Eu não pude realizar todos os planos quando jogava. Mas Deus me deu essa força, de chegar aos 62 anos e realizar metade dos planos que sonhei”, agradeceu.

A emoção tomou conta de Caju, que celebrou: “Deus me permitiu, aos 59 anos, ter essa vitória. A vitória de hoje vai ajudar muito no nosso futuro. A gente vai poder viver e descansar um pouquinho. O meu choro é por toda uma geração que conseguiu essa conquista”.

A concretização da lei tem um nome por trás: Marileia dos Santos, conhecida como Michel Jackson. Atualmente no Ministério do Esporte, ela agiu em silêncio por oito anos para que a reparação se tornasse realidade.

Márcia Matos (Russa) fez questão de agradecer Michel publicamente. “Nós temos que ter essa gratidão a Michel. Ela foi incansável. Correu atrás e conseguiu que as atletas pioneiras do futebol feminino fossem beneficiadas”.

Contexto

O futebol feminino no Brasil superou décadas de proibição e marginalização, com a luta de gerações de atletas abrindo caminho para a profissionalização e o reconhecimento. A recente lei de indenização para as pioneiras de 1988 a 1991, somada ao crescente interesse da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e ao avanço das discussões sobre igualdade de gênero no esporte, marca uma nova fase para a modalidade. O país, que busca sediar a Copa do Mundo Feminina de 2027, tem no legado dessas atletas um argumento forte para a valorização contínua do esporte e o desenvolvimento de futuras gerações.

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