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Folha Jundiaiense

Pink money impulsiona diversidade e valoriza inclusão no mercado.

O poder de consumo da população LGBTQIA+, conhecido como pink money, movimenta bilhões de reais na economia brasileira, consolidando-se como um mercado de impacto crescente. Termo surgido nos Estados Unidos na década de 1980, o dinheiro rosa representa um potencial econômico ainda subexplorado e com desafios significativos no país.

Consultorias especializadas, como a Out Now, estimam que esse consumo pode alcançar R$ 420 bilhões por ano no Brasil. Empresas e instituições buscam agora entender melhor o setor, mas esbarram em práticas de exploração simbólica e na persistência do preconceito, que impede o pleno desenvolvimento do mercado.

Historicamente, a associação do pink money a nichos específicos de consumo prevaleceu. Ricardo Sales, presidente do Instituto Mais Diversidade, lembra: “Nos anos 80 e 90, a gente associava a noção de pink money muito à viagem, lazer, entretenimento e muitas vezes o fazia isso de uma forma até bastante estereotipada.”

O mercado brasileiro, naquela época, estava fortemente ligado a espaços considerados seguros para a comunidade. Bares e casas noturnas moldaram a cena, especialmente a noite paulistana, que viu surgir figuras icônicas como a drag queen e apresentadora Silvetty Montilla. Ela declarou: “Quando eu comecei, eu falei: ‘eu não quero ser artista de um lugar só’. […] Quando eu vi que o dinheiro estava entrando, aí eu decidi ficar só na noite.”

O cenário mudou a partir dos anos 2000. O mercado voltado às pessoas LGBT+ começou a ganhar corpo no país.

Clovis Casemiro, gerente de membros da Associação Mundial de Turismo LGBT+ (IGLTA), afirmou que o período marcou o crescimento da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo. “Foi quando a gente sentiu, por exemplo, que a Parada de São Paulo teve um grande crescimento. Por quê? As pessoas estavam mais tranquilas em ficar fora do armário”, disse Casemiro.

O evento já movimentou centenas de milhões de reais. Dados da Associação Comercial de São Paulo (ACSP) mostram que uma edição da Parada chegou a injetar cerca de R$ 550 milhões na economia paulistana.

Apesar do impacto financeiro comprovado, a captação de patrocínios ainda é um ponto crítico. Nelson Matias Pereira, presidente da Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo (APOLGBT-SP), enfatiza: “As empresas aqui no Brasil investem pouco em relação ao que elas investem em outros eventos.”

Combate ao Pink Washing e o Papel das Empresas

A crítica ao pink washing se intensifica à medida que muitas empresas lucram com símbolos e pautas LGBT+, especialmente durante o Mês do Orgulho em junho, sem promover direitos concretos para a comunidade. A prática de explorar o pink money sem real compromisso social gera ceticismo e busca por marcas que demonstrem ações efetivas.

Para combater essa superficialidade, o Fórum de Empresas e Direitos LGBTI+ reúne organizações que assinam a carta “Dez Compromissos da Empresa com a Promoção dos Direitos LGBTI+”.

O Grupo Heineken está entre elas. A multinacional investe no empoderamento de funcionários LGBT+ e na formação de bares parceiros, visando o desenvolvimento de seus negócios. Vetusa Pereira, gerente de diversidade, equidade e inclusão do Grupo Heineken, explicou a iniciativa: “A gente apadrinhou esses bares que eram de proprietários LGBT para que a gente fizesse essa jornada, uma trilha de desenvolvimento mesmo, para que esse dinheiro volte e prospere para a comunidade de maneira saudável e segura”.

Grandes eventos impulsionam o consumo da comunidade LGBT+. O projeto “Todo Mundo no Rio” trouxe shows de artistas globais como Madonna (2024), Lady Gaga (2025) e Shakira (2026) para a praia de Copacabana, atraindo milhões de pessoas.

A Prefeitura do Rio de Janeiro divulgou que o show de Madonna, em 2024, movimentou cerca de R$ 800 milhões na economia carioca, um retorno financeiro quarenta vezes maior que o investimento inicial.

O impacto reverberou no comércio e na rede hoteleira.

Siluana Bezerra, dona de uma loja no Saara, centro comercial popular do Rio, especializada em roupas e acessórios para fãs de divas pop, declara: “90% do público que frequenta a loja nessas datas são LGBT”.

No setor hoteleiro, Pedro Barroso, gerente geral de um hostel próximo a Copacabana, afirma: “A gente acabou de passar por uma expansão que fez com que a gente dobrasse a capacidade até para conseguir pegar mais esse público agora nesse momento”.

Apesar dos avanços e do bilionário potencial do pink money, o preconceito ainda impõe prejuízos econômicos. Um estudo do Banco Mundial aponta que o Brasil perde anualmente mais de R$ 94 bilhões devido à exclusão de pessoas LGBT+ do mercado de trabalho.

População Trans: Barreira e Superação no Mercado de Trabalho

A população trans sofre as consequências mais severas do desemprego e da discriminação. Em 2023, dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) revelaram que apenas 25% das pessoas trans tinham emprego formal, e seus salários eram 32% menores que a média nacional.

Essa realidade reflete-se em histórias como a de Andréa Brazil, assessora parlamentar. Ela enfrentou dificuldades para se manter no mercado formal: “Eu fui operadora de telemarketing por mais de três anos na minha vida. Eu tomava bronca por causa da minha voz”, explicou Andréa.

Ter o próprio negócio foi a saída para Andréa buscar dignidade. Ela abriu um salão de beleza e, na sequência, realizou o sonho de se tornar estilista. “Eu comecei a pensar nos looks que tivessem as bandeiras para que as pessoas se sentissem vestindo, abraçando a causa”, disse.

O empreendimento de Andréa evoluiu e se tornou o Capacitrans, um projeto social que capacita a população LGBT+, com foco em pessoas trans e travestis, em ofícios como maquiagem, corte de cabelo e design de roupas.

A sociedade, de maneira geral, mostra-se mais atenta à forma como empresas e instituições lidam com as pautas LGBT+. Francisco Borges, pai solo de seis filhos adotivos, observa essa transformação. “Quando eu vou colocar um filho na escola, eu não quero só saber se eles têm Dia da Família, porque isso é o mínimo. Eu quero entender como eles se colocam frente aos personagens históricos, de livros infantis, por exemplo, que tipo de histórias, que tipo de autores eles têm ali?”, pondera.

Contexto

O pink money representa o poder de compra da comunidade LGBTQIA+ e tem se consolidado como um vetor econômico relevante no Brasil. Sua trajetória, marcada por um inicial nicho de consumo, evoluiu para uma força que movimenta bilhões anualmente. Apesar do crescimento e do reconhecimento do mercado, desafios persistem, como a insuficiência de investimentos corporativos e a prática do pink washing, onde o engajamento é apenas simbólico. A exclusão social, especialmente da população trans, gera perdas econômicas significativas para o país, evidenciando que a plena inclusão da comunidade LGBTQIA+ não é apenas uma questão de direitos humanos, mas um imperativo para o desenvolvimento econômico e social a longo prazo.

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