O Centro Cultural Grajaú, na zona sul de São Paulo, recebe no próximo domingo (28) a apresentação gratuita de Ferida$ Política$. A peça teatral, criada pelo Coletivo Contágio, confronta o estigma e a desinformação sobre o HIV e a Aids, tema ainda envolto em preconceitos sociais e discriminação.
A montagem faz parte da 3ª Mostra Transmissão Contágio e vem acompanhada do bate-papo “(Com)verso Positivo”, antes e depois do espetáculo. A mediação fica a cargo de Diogo Emanuel, coordenador da Travas da Sul Rede Sociocultural, artista visual e agente de cuidado.
Sete artistas, entre brasileiros e outros latino-americanos, encenam suas próprias experiências e as de outras pessoas que convivem com o vírus. As cenas, baseadas em vivências pessoais, buscam desmistificar a associação exclusiva do HIV à comunidade LGBTQIA+, mostrando a amplitude da epidemia.
O público é convidado a participar ativamente do debate, com técnicas que misturam teatro, performance e dramaturgia. O coletivo acredita no poder da arte para romper barreiras e gerar empatia.
Discriminação e Desinformação
Desde sua fundação em 2019, o Coletivo Contágio aposta em residências artísticas e mostras, transformando relatos individuais em criações coletivas. Ará Silva, coordenador e produtor executivo, fundou o coletivo após ser diagnosticado com HIV em 2018.
Silva conta que, mesmo com o diagnóstico, sua postura foi de humildade. Já convivia com amigos soropositivos e atuava em comunidades periféricas e favelizadas, engajado em ações voltadas a esse grupo.
Ele percebeu, no entanto, que parte considerável da população ainda ignora a realidade do vírus. Isso inclui até mesmo a classe médica, que muitas vezes reproduz o estigma e falha em oferecer tratamento adequado, sobretudo para indivíduos LGBTQIA+.
“É muito provável que a gente tenha sido o primeiro coletivo com essa pauta”, afirma Silva. Ele lamenta as portas fechadas de espaços culturais relevantes em São Paulo, que resistem em abraçar o projeto.
O nome Ferida$ Política$ tem uma explicação direta. “A epidemia de Aids é também econômica”, declara Silva, relacionando a doença a uma questão de desigualdade e acesso a direitos.
O coletivo atrai muitos nordestinos migrantes para suas residências. O projeto 3ª Mostra Transmissão Contágio tem o apoio da Coordenadoria de Infecções Sexualmente Transmissíveis/Aids (IST/Aids) da prefeitura de São Paulo, via edital Coletivos 2025.
O Impacto da Epidemia em Números
Dados do Ministério da Saúde mostram um panorama preocupante da epidemia no Brasil. Entre 1991 e setembro de 2025, foram contabilizados 683.930 casos de infecção pelo HIV.
Sudeste e Nordeste concentram a maior parte dos registros. Em 2024, o país notificou 39.216 novos casos.
A disparidade entre gêneros cresceu de forma acentuada. Até 2003, a proporção de homens com HIV/Aids para cada 10 mulheres era de 13. Em 2024, essa razão explodiu para 28 homens para cada 10 mulheres.
O Boletim Epidemiológico HIV e Aids 2025, do Ministério da Saúde, detalha os perfis de exposição. Entre homens de até 39 anos, a categoria “homens que fazem sexo com homens” (HSH) predomina.
Em adolescentes (13 a 19 anos), o percentual nessa categoria se manteve estável em 61,7% entre 2018 e 2024. Na faixa de 20 a 29 anos, houve leve redução (59,9% para 58,2%), enquanto entre 30 e 39 anos, registrou-se aumento (40,8% para 42,5%).
Para homens com 40 anos ou mais, a prática heterossexual segue como a principal categoria de exposição. Esse cenário revela uma epidemia heterogênea, com diferentes dinâmicas por idade e orientação sexual.
Brasil Sedia Conferência Global sobre Aids
Em julho de 2026, o Brasil sediará a 26ª Conferência Internacional sobre Aids (AIDS 2026). O Rio de Janeiro receberá o evento, sendo a primeira vez que um país sul-americano é anfitrião.
O encontro é organizado em parceria com o Ministério da Saúde, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia). O tema desta edição é “Repensar. Reconstruir. Avançar”.
A conferência permitirá participação remota e presencial. Um dos pontos de destaque será a discussão sobre a crise de financiamento de programas, aspecto diretamente ligado à dimensão econômica das “feridas políticas” da epidemia.
Serviço
Espetáculo Ferida$ Política$
28 de junho (domingo), 16h
Centro Cultural Grajaú | Rua Professor Oscar Barreto Filho, 252, Parque América – São Paulo (SP)
15h30 – (Com)verso Positivo, parte 1
Após a peça – (Com)verso Positivo, parte 2
Entrada gratuita – retirada de ingressos no local, uma hora antes do início
Contexto
A luta contra o HIV e a Aids no Brasil é um desafio contínuo, marcado por avanços científicos no tratamento e, ao mesmo tempo, pela persistência da desinformação e do preconceito. Apesar de uma rede de atendimento público consolidada, a estigmatização ainda impede que muitos busquem diagnóstico e tratamento precoces, perpetuando o ciclo da doença e suas consequências sociais. A arte e o debate público emergem como ferramentas para humanizar o tema, dar voz às pessoas vivendo com HIV e, assim, impulsionar uma resposta mais eficaz e solidária da sociedade.



