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Pesquisadores definem propostas de gestão pública antirracista

Um novo material busca reorientar a administração pública brasileira. Sete pesquisadores lançaram nesta sexta-feira, 24, em São Paulo, o livro “Guia da Gestão Pública Antirracista“. A obra traz fundamentos, análises e um roteiro prático de ações para fortalecer o enfrentamento do racismo institucional e das desigualdades raciais. O objetivo é oferecer um caminho claro para gestores e lideranças públicas. O lançamento ocorreu no Instituto de Ensino e Pesquisa (Insper).

A iniciativa surge da ausência de um documento objetivo. A pesquisadora Clara Marinho, uma das autoras, declarou que faltava um guia prático sobre políticas antirracistas no setor público. Ela aponta desafios e possibilidades de avanço, sublinhando a necessidade de ferramentas para que servidores atuem em questões complexas como o racismo.

Marinho destacou que o guia atua como uma introdução essencial. Ajuda na identificação de repertórios de enfrentamento que podem ser acionados no dia a dia da gestão.

Apesar de o concurso público ser um instrumento “aparentemente neutro”, as pessoas negras ocupam postos de menor qualificação na administração. Esta é uma constatação presente no livro.

Tais posições, segundo a pesquisadora, se distanciam das áreas consideradas estratégicas do governo. Reflete uma persistente desigualdade estrutural.

O problema não se restringe à entrada no serviço público. Estende-se à progressão de carreira e à representatividade em cargos de decisão. Isso compromete a efetividade das políticas públicas para toda a população.

Desafios da Representatividade na Gestão Pública

A concentração de profissionais negros em cargos de menor visibilidade ou remuneração no serviço público não é um acaso. Ela reflete processos seletivos e culturas organizacionais que, mesmo sem intenção explícita, reproduzem barreiras históricas.

O guia aborda a forma como o racismo institucional se manifesta em sistemas de avaliação, promoção e na própria concepção de quem se encaixa em “áreas estratégicas”. A falta de diversidade nesses espaços impacta diretamente a formulação de políticas que deveriam atender a uma sociedade plural.

Quando a estrutura de um governo não espelha a diversidade da nação, suas decisões podem falhar em abordar as necessidades específicas de grupos marginalizados.

Um exemplo prático é a concepção de serviços públicos. Sem vozes diversas na mesa, políticas habitacionais, de saúde ou educação podem não contemplar as realidades de populações negras, perpetuando ciclos de exclusão.

A obra, portanto, não apenas diagnostica, mas propõe uma mudança de paradigma. Ela sugere que a equidade racial na gestão pública não é apenas uma questão de justiça social. É também um imperativo para a eficiência e legitimidade do Estado.

O Roteiro para a Ação Antirracista

O Guia da Gestão Pública Antirracista detalha como romper com essas desigualdades. Sugere que a implementação de políticas públicas antirracistas deve ser baseada em dados.

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) já levanta dados raciais. Estes são insumos valiosos para monitorar a situação e desenhar intervenções eficazes. A aplicação sistemática dessas informações permite que os gestores identifiquem gargalos e meçam o impacto de suas ações.

Para os autores, o Estado possui um papel incontornável na promoção da igualdade racial. Deve validar as demandas sociais historicamente negligenciadas. A publicação se configura como uma ferramenta para que líderes públicos assumam essa responsabilidade de forma proativa.

O livro está voltado a gestores e lideranças. Apresenta-se com uma linguagem acessível, “como uma conversa”, segundo Clara Marinho, facilitando a compreensão e a aplicação dos conceitos.

Além de Marinho, assinam o trabalho Michael França, Giovani Rocha, Ellen da Silva, João Pedro Caleiro, Lia Pessoa e Karoline Belo. A equipe multidisciplinar reforça a profundidade do estudo.

Após o lançamento no Insper, em São Paulo, a obra será apresentada em Brasília na segunda-feira, 25. O primeiro evento será às 9h, na sede do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Mais tarde, às 19h, os autores conversarão com o público na Livraria Circulares.

Contexto

A discussão sobre racismo institucional no Brasil ganhou fôlego nas últimas décadas, embora o país conviva com as consequências da escravidão por séculos. A administração pública, por sua própria natureza, deveria ser um motor de equidade, mas frequentemente replica as estruturas sociais vigentes. Iniciativas como o Estatuto da Igualdade Racial, de 2010, e a Lei de Cotas Raciais para universidades e concursos públicos, a partir de 2012 e 2014, respectivamente, marcaram avanços legais. No entanto, a implementação prática e a internalização de uma cultura antirracista ainda enfrentam resistência e demandam ferramentas como o “Guia da Gestão Pública Antirracista“. A sociedade civil e movimentos negros historicamente pressionam por mudanças estruturais que vão além da legislação, buscando transformar a cultura e as práticas cotidianas das instituições.

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