Pesquisar

Pepinho Macia concilia Led Zeppelin e taça da Copinha no Santos.

“Não, não tenho paciência nenhuma para ser treinador. Meu negócio vai ser jogar golfe.” A frase, dita por um jovem Pep Guardiola ao ser questionado sobre seu futuro nos gramados, hoje soa como uma anedota curiosa para Alexandre Serrano Macia, mais conhecido como Pepinho.

Filho do lendário Pepe, o “Canhão da Vila”, segundo maior artilheiro da história do Santos FC, Pepinho viu de perto a origem do técnico mais vitorioso da atualidade. Ele próprio costurou uma trajetória ímpar: de produtor de discos de rock pesado a lapidador de talentos do futebol mundial no Santos FC.

Aos 60 anos, sua vida é um mosaico de paixões que se complementam, nascida entre os acordes distorcidos da guitarra e o brilho dos campos de futebol.

Tudo começou na infância, revirando a vasta coleção de vinis do pai. “Meu pai tinha uma coleção de vinis variada. No meio daquilo tudo, encontrei Elvis Presley e The Beatles. Eu era garoto, com uns 10 ou 11 anos, e comecei a garimpar tudo”, recorda Pepinho.

Aos 11 anos, em 1976, a paixão se solidificou com a compra de seu primeiro disco: um compacto do Led Zeppelin, encartado na revista Rock Espetacular. Pouco tempo depois, nomes como Rolling Stones, AC/DC, Judas Priest e Manowar já povoavam sua vitrola.

As Caravanas que Chacoalharam o País

Nos efervescentes anos 1980, a paixão pela música transcendeu a audição e se transformou em empreendimento. Em 1983, ao lado de um amigo radialista da Guarujá FM, Pepinho organizou sua primeira grande caravana, levando fãs para o show do Van Halen no Ibirapuera.

Meses depois, o sucesso se repetiria com a histórica turnê de estreia do Kiss no Brasil, consolidando um movimento que levaria centenas de entusiastas da Baixada Santista e de outras cidades do estado aos grandes espetáculos de rock.

Pepinho Macia e o amigo Uruka na antiga Metal Rock, no Gonzaga (Crédito: Acervo pessoal)

O empreendimento cresceu e deu origem à lendária loja Metal Rock, na Rua Tolentino Filgueiras, em Santos. Em um período onde encontrar álbuns importados era quase uma epopeia, exigindo viagens constantes à Galeria do Rock em São Paulo, o espaço se tornou um verdadeiro santuário do rock pesado.

“Ter um LP importado nos anos 80 era surreal de difícil. A gente viajava a São Paulo, combinava quem ia comprar qual disco para não repetir e poder trocar depois”, relata. A dedicação de Pepinho ia além: “Eu não vendia os meus: passava madrugadas gravando centenas de fitas K7 para abastecer a galera.”

Impacto na região

A efervescência cultural gerada pela Metal Rock e pelas caravanas de Pepinho reverberou muito além dos limites da Baixada Santista. O movimento de acesso a álbuns raros e a grandes shows internacionais inspirou jovens em cidades do interior paulista, como Jundiaí e sua região, que também ansiavam por novidades no cenário do rock nacional e internacional.

A loja e as excursões não apenas proviam acesso a um nicho musical, mas também fomentavam uma subcultura que moldou identidades e criou laços, mostrando que a paixão pela música e pelo futebol podia nascer e crescer em qualquer parte do estado, impulsionada por figuras como Pepinho.

No final da década, Pepinho assumiu a produção executiva, bancando a demo da banda santista Mr. Green e viabilizando o lançamento em vinil do primeiro álbum do grupo. Ele também lançou o Last Joker, ambos projetos revelando talentos que fariam história no cenário musical brasileiro.

“Eles eram frequentadores da loja e eram bons músicos, jovens ainda. Começamos a ter um envolvimento maior com produção, produzimos a demo deles e o negócio começou a ficar mais sério. Acabei lançando o primeiro álbum do Mr. Green em vinil na época”, explica.

Entre os músicos lapidados, nomes que viriam a integrar o Charlie Brown Jr, como Renato Pelado, Marcão Britto e Champignon, além de Cristopher Clark, vencedor do X-Factor Brasil em 2016, demonstrando a capacidade de Pepinho em identificar e alavancar novas estrelas.

Last Joker, uma das duas bandas lançadas por Pepinho Macia (Crédito: Acervo pessoal)

A Sombra do Canhão e o Brilho Próprio nos Gramados

Em 1996, com o encerramento das atividades da Metal Rock, a balança pendeu para o futebol. Apesar de carregar um dos sobrenomes mais respeitados na Vila Belmiro, Pepinho teve que trilhar seu próprio caminho, sem atalhos.

Seu pai, o “Canhão da Vila”, fez questão de que a jornada fosse por mérito. “Ele disse: ‘Você tem que ralar, sentir a dificuldade de trabalhar com futebol’. Ser filho de quem sou abre portas, mas a cobrança é dobrada. Se você não demonstrar competência técnica, dizem na hora que você só está ali por causa do pai”, recorda Pepinho.

O caminho incluiu estágios com técnicos renomados como Vanderlei Luxemburgo e Cabralzinho, além de licenças para comandar equipes. Sua primeira experiência foi como auxiliar técnico profissional e treinador do sub-17 no Independente de Limeira.

“Não cheguei de paraquedas. Ser filho do pai que eu tenho abre as portas, é claro, mas, por outro lado, a cobrança é muito grande. Senão não ia ser muito fácil. O pessoal ia falar: ‘Só está lá por causa disso’. Então eu estudei bastante e tenho certeza de que foi o caminho mais correto”, afirma, reiterando a importância da dedicação.

A persistência rendeu frutos e um convite para retornar ao Santos FC, onde permaneceu por cerca de sete anos e meio, marcando uma das fases mais vitoriosas das categorias de base do clube.

Pepinho Macia durante o tempo que treinou o Santos Sub-20 (Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo / Santos FC)

Os talentos que Pepinho revelou

Em sua passagem pelo Peixe, o treinador acumulou conquistas significativas.

Ele foi Bicampeão da Copinha: em 2013, como auxiliar técnico de Claudinei Oliveira, e em 2014, já como treinador principal do Sub-20, levantou a taça após uma final emocionante contra o rival Corinthians.

Adicionou ao currículo a Copa do Brasil Sub-20, superando o Criciúma, e o Torneio Internacional na África do Sul, onde equipes como Benfica, Roma e Boca Juniors foram vencidas sob seu comando.

Muitos dos nomes que hoje brilham no cenário mundial foram moldados por ele, incluindo Gabigol, Lucas Veríssimo e Igor Vinícius.

“Muitos dizem que base serve só para formar e não para vencer. Discordo: aprender a decidir clássicos, bater pênalti na final e levantar taças faz parte do amadurecimento mental de um atleta profissional”, defende Pepinho, reforçando sua visão sobre a formação integral de jovens atletas.

O Técnico que não queria treinar (e virou gênio)

A experiência de Pepinho não se limitou ao solo brasileiro. Por duas temporadas, ele viveu o futebol do Catar, um período que o colocou lado a lado com um futuro gigante dos gramados: Pep Guardiola, então em sua fase final como jogador.

“Deram uma lista para a gente escolher veteranos. Tinha Caniggia, Batistuta… Os clubes com maior investimento pegaram os atacantes. O Guardiola era um meio-campista fantástico, mas o status de estrela global veio como técnico. Levamos ele para o nosso time, que era mediano. Com ele em campo, entramos no G4 pela primeira vez na história e nos classificamos para a Copa Árabe”, rememora Pepinho.

Pepinho, Pepe e Pep Guardiola no Catar (Crédito: Acervo pessoal)

Durante as conversas nos bastidores, Guardiola frequentemente demonstrava fascínio pelo futebol brasileiro. Ele pedia a Pepe, o pai de Pepinho, que contasse causos da época áurea do Santos de Pelé, absorvendo cada detalhe da mística alvinegra.

Foi em um desses diálogos que Pepinho, percebendo o perfil tático do espanhol, o questionou sobre uma possível carreira como treinador. A resposta, hoje, é um capítulo à parte na história do futebol.

“Perguntei se ele pretendia virar treinador, pois tinha total perfil tático para isso. Ele respondeu na hora: ‘Não, não tenho paciência nenhuma para ser treinador. Meu negócio vai ser jogar golfe’. Hoje a gente olha para a história e dá risada lembrando disso”, diverte-se Pepinho, diante da reviravolta na carreira do colega.

A Sinergia entre Arte, Esporte e Memória Cultural

A história de Pepinho Macia, entre discos de vinil e taças de campeão, espelha uma realidade que transcende o individual: a forte conexão entre a cultura pop, a paixão esportiva e a construção de memórias coletivas no Brasil. Nos anos 80, a busca por música importada e a formação de subculturas musicais como a do rock pesado eram movimentos globais, mas que no país ganharam contornos únicos pela dificuldade de acesso e pelo fervor dos fãs.

Paralelamente, o futebol de base, como o que Pepinho ajudou a desenvolver no Santos, se tornou a espinha dorsal de um esporte que, no Brasil, é mais que uma paixão; é um celeiro de talentos exportados para o mundo. A exigência de “ralar” imposta por Pepe ao filho reflete a mentalidade de um tempo onde o mérito e o esforço eram vistos como pilares inegociáveis para o sucesso, uma lição que ecoa até hoje na formação de atletas.

A longevidade do interesse por vinis, evidenciada pela nova loja de Pepinho, a Iron Fist, demonstra um ciclo cultural que se renova. Assim como a base de futebol continua a revelar craques, a música analógica ressurge, não apenas como nostalgia, mas como uma experiência tátil e auditiva valorizada por novas gerações.

É por isso que a trajetória de Pepinho Macia importa hoje: ela celebra a versatilidade, a paixão e a resiliência em dois campos que definem boa parte da identidade cultural brasileira. Ela nos lembra que, seja nos riffs de guitarra ou nos dribles desconcertantes, a busca pela excelência e o impacto na vida das pessoas são legados que permanecem, construindo pontes entre o passado glorioso e o presente dinâmico.

Ao encerrar sua trajetória técnica nos gramados em 2017, Pepinho voltou ao seu primeiro amor: inaugurou em 2018 a Iron Fist, loja de discos e artigos de rock, na Galeria Ipiranga, em Santos, onde continua a atender colecionadores e a organizar excursões para os maiores festivais e shows do país. Aos 60 anos, sua rotina segue dividida entre as canções gravadas no vinil e as histórias eternizadas nos campos de futebol, um legado que continua a inspirar.

Leia mais

Destaques

plugins premium WordPress