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Folha Jundiaiense

Parada LGBTQIA+ no Rio exige maior voz no Legislativo por direitos

A 4ª Parada LGBTQIA+ da Lapa, no Rio de Janeiro, mobilizou milhares neste domingo, 28 de junho de 2026, com um alerta direto às urnas: “Nosso Orgulho Também se Defende nas Urnas”. O evento nos Arcos da Lapa transformou a tradicional celebração em um ato político claro, pedindo mais representação e direitos para a comunidade LGBTQIA+ em ano eleitoral, combatendo a crescente violência e a falta de legislação específica.

A escolha do tema resumiu o tom do encontro. Não bastava celebrar. A Parada de 2026 foi uma plataforma para pressionar por mudanças legislativas. Um manifesto, lançado durante o ato, reivindicou a eleição de parlamentares que entendam e defendam as pautas da população no Congresso Nacional.

A fundadora da Casa Nem, Indianarae Siqueira, reforçou o discurso. Ela disse que o país precisa de “parlamentares comprometidos com a democracia, os direitos sociais, a vida do povo”, em contraposição a “parlamentares inimigos do povo e amigos de banqueiros”. A declaração espelha a frustração da comunidade com a representação política atual, vista como insuficiente ou mesmo hostil.

A luta por direitos se estendeu à pauta econômica. Siqueira citou a necessidade de uma vida digna para a classe trabalhadora, onde muitos LGBTQIA+ enfrentam condições precárias de emprego. O manifesto defendeu o fim da escala de trabalho 6×1 e um salário mínimo de R$ 2 mil ainda este ano, além de condições justas para autônomos e informais. Isso toca diretamente a realidade de travestis e transexuais, por exemplo, que frequentemente são marginalizadas no mercado formal e dependem da informalidade para sobreviver.

A informalidade, muitas vezes, leva à vulnerabilidade.

Empregabilidade trans, educação e saúde pública de qualidade, e políticas públicas humanizadas são outras bandeiras do documento, demandando acesso universal a direitos básicos. Os eleitores LGBTQIA+, garantiu Indianarae Siqueira, irão às urnas para defender a democracia e se posicionar contra golpistas. “Nossos corpos são políticos, nosso voto é resistência”, declarou.

Ausência de Leis Amplifica Vulnerabilidade

Ainda que decisões judiciais tenham garantido avanços, a ausência de leis específicas, aprovadas pelo Legislativo, mantém a comunidade em um limbo jurídico. Marcio Villard, coordenador do Grupo Pela Vidda do Rio de Janeiro, destacou este ponto. Ele afirmou que as garantias atuais vêm do Supremo Tribunal Federal (STF) e de decisões isoladas de juízes, e não de um arcabouço legal sólido.

Villard citou Argentina e Colômbia como exemplos de países com legislação mais abrangente. A equiparação da LGBTfobia ao crime de racismo pelo STF, em 2019, serve como ilustração. Segundo Villard, a medida “na prática, não funciona” como deveria, pois a falta de detalhamento legislativo e a resistência institucional impedem sua aplicação plena. Muitos casos são subnotificados, reforçando a invisibilidade e impunidade dos agressores.

A violência contra a população LGBTQIA+ continua em alta. Villard alertou para o aumento anual de assassinatos e casos de agressão, frequentemente subnotificados pelas autoridades. A invisibilidade estatística agrava o problema, criando uma sensação de que “não acontece, quando, na verdade, acontece todos os dias”.

Os coletivos que organizaram a Parada também clamam por segurança. Eles buscam que mulheres, pessoas negras, periféricas e LGBTQIA+ “sejam vistas dentro dessa segurança e não como problema”, confrontando a narrativa histórica que os coloca como alvos ou mesmo criminosos. Esta visão é essencial para romper ciclos de violência e estigma.

Tentativas recentes de retrocesso preocupam. Villard mencionou a proibição de terapia hormonal para menores de 21 anos e o esforço para impedir a realização de paradas em vias públicas, especialmente com a participação de crianças e adolescentes. Ele rebateu: “Nós somos uma democracia. Existem famílias de LGBTs que têm filhos”. Estas famílias, muitas vezes, são silenciadas nessas discussões, e sua visibilidade é um pilar da aceitação social.

A participação infantil nas paradas é um símbolo da aceitação familiar e da construção de um futuro mais inclusivo.

Comunidade em Ação

Além das reivindicações políticas, a Parada celebrou a vida e a resistência. A organização, resultado da união de movimentos sociais como CasaNem, Grupo Transrevolução, Fórum Estadual de Travestis e Transexuais do Rio de Janeiro (Fórum TT RJ), Marcha Trans RJ, Liga Transmasculina Carioca João W. Nery, coletivos trans das universidades Federal Fluminense (UFF), Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Associação de Gays e Amigos de Nova Iguaçu e Mesquita (AGANIM), Artgay, BrCidades-Rio, Fórum LGBT de Maricá, Frente LGBTIA+, Grupo Pela Vidda e o Coletivo LGBTI+ do Movimento Negro Unificado (MNU LGBT), demonstrou a força da comunidade.

Um festival de pipas abriu o evento no Aterro do Flamengo. Seguiu-se um piquenique na Praça Paris, atividades coordenadas pelo Grupo Arco Íris.

A saúde pública esteve presente. Testes rápidos de HIV e outras infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), além da distribuição de camisinhas e gel lubrificante, marcaram o cuidado com o bem-estar dos participantes. Uma feira com trinta empreendedores LGBTQIA+ exibiu produtos e serviços, oferecendo uma plataforma para o desenvolvimento econômico interno da comunidade e a valorização de talentos.

Contexto

A Parada LGBTQIA+ da Lapa integra um movimento maior, assemelhando-se a eventos semelhantes que ocorrem anualmente em diversas cidades brasileiras e globais. Embora tenha um caráter festivo, sua função primária é política, ecoando a luta por direitos civis, reconhecimento e o combate à discriminação. No Brasil, o avanço dos direitos LGBTQIA+ tem sido, em grande parte, impulsionado por decisões judiciais do STF, em vez de aprovações legislativas. Este cenário destaca a fragilidade de conquistas que podem ser revertidas por interpretações ou composições diferentes nos tribunais, e sublinha a urgência de uma representação política engajada no Congresso Nacional que traduza as demandas sociais em leis perenes e protetivas.

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