Justiça do Ceará aceita denúncia contra acusados de campanha de ódio contra Maria da Penha
A Justiça do Ceará aceita nesta segunda-feira (9) a denúncia do Ministério Público (MP) do estado e torna réus quatro indivíduos suspeitos de participação em uma campanha de ódio direcionada à farmacêutica Maria da Penha, figura emblemática na luta contra a violência doméstica no Brasil.
A decisão judicial representa um marco no combate à desinformação e aos ataques virtuais contra defensores dos direitos humanos, em especial, mulheres.
Quem são os réus no caso de ataque à Maria da Penha?
Os acusados de orquestrar a campanha difamatória contra Maria da Penha são:
- Marco Antônio Heredia Viveiros, ex-marido da ativista.
- Alexandre Gonçalves de Paiva, influenciador digital.
- Marcus Vinícius Mantovanelli, produtor do documentário A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha.
- Henrique Barros Lesina Zingano, editor e apresentador do mesmo documentário.
O envolvimento de cada um na campanha de ódio é agora objeto de análise judicial. As próximas etapas do processo legal buscam determinar a extensão da responsabilidade de cada réu.
Quais as acusações contra os envolvidos?
O MP denuncia os quatro réus por atuação coordenada com o objetivo de difamar a ativista Maria da Penha e desacreditar a lei que leva seu nome, a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006). Essa legislação é um marco no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil.
As acusações incluem a disseminação de notícias falsas e a utilização de um laudo de exame de corpo de delito forjado para tentar inocentar Marco Heredia, já condenado por tentativa de homicídio contra Maria da Penha.
Detalhes da campanha de difamação e ataques virtuais
Segundo as investigações, os acusados promoveram perseguições virtuais (cyberbullying), disseminaram conteúdo misógino e deturparam informações sobre Maria da Penha em sites e redes sociais. O conteúdo buscava desqualificar a ativista e a Lei Maria da Penha perante a opinião pública.
O MP destaca que Alexandre Paiva chegou a se deslocar até a antiga residência de Maria da Penha em Fortaleza, onde gravou vídeos com conteúdo difamatório e os divulgou nas redes sociais. Essa ação amplifica o alcance da campanha de ódio, extrapolando o ambiente virtual.
Entenda as denúncias específicas contra cada réu
Marco Heredia responde por falsificação de documento público. Alexandre Paiva enfrenta acusações de stalking (perseguição) e cyberstalking (perseguição virtual).
Zingano e Mantovanelli são acusados de usar documento falso, o laudo adulterado, no documentário A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha, produzido pela Brasil Paralelo S/A.
O laudo adulterado e sua utilização no documentário
O MP argumenta que o documentário difundiu informações sobre uma suposta fraude processual no caso que condenou Heredia, apresentando um laudo adulterado do exame de corpo de delito do ex-marido de Maria da Penha. O laudo original foi manipulado para inserir informações falsas.
No laudo adulterado, constam informações sobre lesões no pescoço e braço de Marco Heredia que não estavam presentes no documento original. Além disso, a perícia identificou diferenças nas assinaturas dos peritos e marcas de carimbos, numerais e rubricas que indicam montagem.
O laudo forjado foi usado no documentário com o objetivo de sustentar a tese de que Marco Heredia seria vítima e não o autor da tentativa de assassinato contra sua ex-esposa.
Lucro com a desinformação: a motivação por trás dos ataques
O MP aponta que o grupo buscava obter lucro com a disseminação de desinformação. Extratos bancários de Alexandre Paiva, obtidos com autorização judicial, revelam depósitos da Google LLC e da Meta Platforms Ireland Limited, além de ganhos com publicidade.
A exploração financeira da desinformação agrava a conduta dos acusados, demonstrando um interesse econômico por trás da campanha de ódio.
Tramitação do caso e a busca por Justiça
O caso será julgado pela 9ª Vara Criminal de Fortaleza. Atualmente, não há um prazo definido para o julgamento. A complexidade das acusações e a necessidade de análise minuciosa das provas podem influenciar a duração do processo.
A Agência Brasil tenta contato com a defesa de Marco Antonio. O espaço permanece aberto para manifestação.
A Operação Echo Chamber e suas fases
A investigação, iniciada em 2024 pelo Núcleo de Investigação Criminal (Nuinc), resultou na operação “Echo Chamber”, que se desenvolve em duas fases. A investigação busca identificar e responsabilizar os envolvidos na campanha de difamação contra Maria da Penha.
Em dezembro de 2024, buscas realizadas no Espírito Santo e no Rio de Janeiro levaram à suspensão do perfil de Paiva e à proibição de contato e aproximação com Maria da Penha e suas filhas. As medidas visam proteger a integridade física e psicológica da ativista e sua família.
Em julho de 2025, buscas em Natal apreendem documentos e eletrônicos, incluindo um pen drive com o laudo adulterado, e suspendem a veiculação do documentário. A apreensão do laudo adulterado representa um elemento crucial para comprovar a falsificação documental.
Diante da gravidade dos ataques, Maria da Penha é incluída no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos pelo Núcleo de Acolhimento às Vítimas de Violência (Nuavv) do MP do Ceará. A medida demonstra a preocupação das autoridades com a segurança da ativista.
O ataque que mudou a vida de Maria da Penha
A ativista Maria da Penha é vítima de dupla tentativa de homicídio em 1983, por parte de seu então esposo, Marco Heredia. O caso de violência doméstica sofrido por Maria da Penha a impulsionou a lutar pelos direitos das mulheres.
Primeiro, Heredia a fere com um tiro nas costas enquanto ela dorme, causando lesões na coluna e medula que a deixam paraplégica. Em seguida, ele alega à polícia que o ataque teria sido uma tentativa de assalto, versão desmentida pela perícia.
Quatro meses depois, quando Maria da Penha retorna para casa após duas cirurgias, internações e tratamentos, ele a mantém em cárcere privado durante 15 dias e tenta eletrocutá-la durante o banho.
Contexto
A Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006) representa um marco legal no combate à violência doméstica e familiar contra a mulher no Brasil. A lei cria mecanismos para prevenir e punir atos de violência, além de proteger as vítimas. O caso de Maria da Penha, vítima de violência doméstica por anos, culminou em sua luta para criação da lei, que hoje protege milhares de mulheres em todo o país.