Quando os vagões da Capital, despejaram milhares de imigrantes europeus na Estação de Jundiaí no final do século XIX, a cidade ganhou muito mais do que mão de obra operária. Aquelas famílias, especialmente as de origem italiana, traziam na bagagem o amor secular pelo cultivo da terra e pela viticultura. Contudo, o que colocaria Jundiaí definitivamente no mapa agrícola nacional não seria uma videira importada da Europa, mas sim um capricho biológico extraordinário ocorrido no nosso próprio solo.
Neste quarto capítulo da série especial Jundiaí em Foco, a Folha Jundiaiense resgata a epopeia agrícola que transformou a economia local. Vamos investigar a mutação genética acidental que originou a Uva Niágara Rosada, os bastidores da primeira Festa da Uva e a grandiosa construção arquitetônica do Parque Comendador Antônio Carbonari.
A Mutação Somática e o “Milagre” de 1933
Nas primeiras décadas do século XX, os parreirais que tomavam conta dos bairros da Colônia, Caxambu, Toca e Traviú eram predominantemente da variedade Niágara Branca, uma cepa rústica de origem norte-americana que se adaptou razoavelmente bem ao clima da Serra do Japi.
Tudo mudou de forma espetacular em 1933, na propriedade do viticultor Antônio Rebello, localizada no bairro do Traviú. Durante o manejo rotineiro de sua lavoura, Rebello notou uma anomalia botânica impensável: em meio às videiras de uvas brancas, um único galho (sarmento) produziu cachos de um tom rosado vibrante.
Não se tratava de uma nova semente ou de um enxerto laboratorial, mas de uma mutação somática espontânea. Pesquisadores do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), que mais tarde estudariam o fenômeno a fundo, atestaram a raridade do evento. A nova cepa, rapidamente batizada de Niágara Rosada, apresentou características superiores à sua ancestral branca: era visualmente mais atraente, possuía um aroma mais pronunciado (foxy), maior teor de açúcar e uma casca mais resistente para o transporte.
Em artigo sobre a viticultura paulista, a engenheira agrônoma e pesquisadora do IAC pontua a relevância do achado:
“A mutação ocorrida em Jundiaí em 1933 foi um divisor de águas. A Niágara Rosada multiplicou-se rapidamente por propagação vegetativa (estaquia) entre os produtores da região, tornando-se a principal uva de mesa do Estado de São Paulo e garantindo a fixação econômica de milhares de famílias no campo.” (POMMER, 2003).
O “milagre do Traviú” espalhou-se como fogo. Em poucos anos, as propriedades vizinhas haviam substituído grande parte de suas lavouras pela nova joia cor-de-rosa.
A Primeira Festa da Uva (1934): O Centro Paralisa
Cientes do tesouro que tinham em mãos, os produtores rurais e a elite econômica de Jundiaí precisavam apresentar a Niágara Rosada ao mercado consumidor, especialmente à capital paulista. Sob a articulação de figuras como Antenor Soares Gandra e do próprio Antônio Rebello, idealizou-se uma exposição agrícola inédita.
Em 1934, apenas um ano após a descoberta da mutação, Jundiaí realizou a sua 1ª Festa da Uva. Diferente das megaestruturas atuais, o evento pioneiro ocorreu no coração da cidade, ocupando as dependências do Grupo Escolar Coronel Siqueira de Moraes e as ruas adjacentes do Largo São Bento.
O impacto logístico e turístico foi avassalador. Os jornais da época relatam que trens lotados da São Paulo Railway partiam da Estação da Luz, na capital, exclusivamente para trazer os paulistanos ao evento jundiaiense. A festa foi um ato de consagração do colono imigrante, elevando o trabalhador rural à condição de protagonista do desenvolvimento econômico municipal.
O Parque Comendador Antônio Carbonari (1953)
Ao longo das décadas de 1940 e 1950, a produção vitivinícola e a popularidade da Festa da Uva alcançaram proporções que o Centro Histórico já não conseguia comportar. Jundiaí precisava de um templo definitivo para celebrar a sua colheita.
O momento ideal chegou em 1953, ano em que o município celebrava o seu cinquentenário de elevação à categoria de comarca. O poder público inaugurou, na nascente Avenida Jundiaí — que se tornaria o novo vetor de crescimento urbano —, o Parque Comendador Antônio Carbonari, carinhosamente eternizado como Parque da Uva.
A obra é um marco da arquitetura moderna no interior paulista. O projeto original, assinado pelo arquiteto Vasco de Mello, concebeu pavilhões imensos em formato de arcos parabólicos. A estrutura de concreto armado, além de arrojada, possui uma simbologia brilhante: os pavilhões invertidos remetem visualmente ao interior de gigantescas pipas e barris de vinho, abraçando os expositores e visitantes.
O Legado do “Ouro Roxo”
Hoje, quase um século após o galho mutante despontar no Traviú, a Festa da Uva de Jundiaí recebe centenas de milhares de visitantes anualmente, movimentando a economia do turismo, da gastronomia e da rede hoteleira. A Uva Niágara Rosada é reconhecida nacionalmente por sua Indicação Geográfica (IG), garantindo a proteção e a procedência do nosso cultivo.
Mais do que um produto agrícola, a fruta tornou-se o DNA da cidade. Ela materializa a resiliência dos imigrantes e a generosidade da terra que, num acaso biológico perfeito, coroou Jundiaí para sempre como a Terra da Uva.
Referências Bibliográficas
- BELLODI, Márcio e CAMARGO, Celso. História da Uva Niágara Rosada e a Viticultura em Jundiaí. Jundiaí: Edição do Autor, 2014.
- MUSEU HISTÓRICO E CULTURAL DE JUNDIAÍ. Acervo Fotográfico e Documental da 1ª Festa da Uva (1934). Jundiaí: Fundação Casa da Cultura.
- POMMER, Celso V. (Ed.). Uva: Tecnologia de Produção, Pós-colheita e Mercado. Porto Alegre: Cinco Continentes, 2003. (Instituto Agronômico de Campinas – IAC).
- PREFEITURA DO MUNICÍPIO DE JUNDIAÍ. Dossiê de Tombamento do Parque Comendador Antônio Carbonari (Parque da Uva). Departamento de Patrimônio Histórico, 2010.