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Folha Jundiaiense

No agro, alarme do Super El Niño excede impacto real na produção

El Niño Eleva Alerta de Inflação e Freia Expectativa de Cortes na Selic

O fenômeno climático El Niño integra oficialmente o rol de riscos altistas para a inflação, colocando em xeque o futuro da política monetária no Brasil. A percepção do Comitê de Política Monetária (Copom) e do mercado aponta para uma redução no ritmo de cortes da taxa Selic, a taxa básica de juros do país. Projeções indicam uma probabilidade superior a 80% para a formação de um “Super El Niño” entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, conforme dados da National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA). A consultoria meteorológica Nottus estima que essa intensidade pode superar 2,5 graus de anomalia, padrão semelhante ao registrado nos anos de 2015 e 2016, que tiveram repercussões significativas na economia global e brasileira.

Impacto Macroeconômico: Pressão sobre Preços e Juros

A perspectiva de um El Niño de grande magnitude já provoca revisões nas expectativas econômicas. O banco Goldman Sachs projeta que o aumento extremo de temperatura pode gerar uma alta acumulada de 15,8% nos preços das commodities alimentícias até 2028. Este cenário de pressão inflacionária global reverberaria diretamente na economia brasileira. “O risco climático migrou da periferia do debate para o centro das preocupações com preços, com implicações diretas para o ritmo do ciclo de cortes da Selic”, afirma Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, destacando a centralidade do tema para a definição da política monetária.

O professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, reforça este alerta. Ele estima que o fenômeno pode adicionar 0,55 ponto percentual ao Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) em 2026 e 0,2 ponto percentual em 2027. Essas projeções indicam um processo de desinflação mais lento do que o inicialmente esperado, impactando o poder de compra do consumidor e as decisões do Banco Central sobre a taxa de juros. O IPCA mede a inflação oficial do país e seu avanço corroi o poder aquisitivo das famílias.

Agronegócio Resiliente sob Alerta Climático

Apesar das projeções macroeconômicas desafiadoras, o agronegócio brasileiro demonstra um patamar de resiliência superior em comparação com ciclos anteriores do El Niño. No entanto, os impactos reais sobre o setor ainda são incertos, variando significativamente conforme a região e a cultura. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) aponta para uma safra brasileira recorde de 358,6 milhões de toneladas em 2025/26, impulsionada principalmente pelo aumento da área e da produtividade da soja.

Leonardo Alencar, head de Agro, Alimentos e Bebidas da XP, avalia que o setor está mais preparado. “Mesmo que haja quebra de produtividade, o patamar produtivo atual ainda é muito superior ao de 2015 e 2016”, explica Alencar. Ele cita como fatores de robustez o contínuo aumento de nutrientes no solo, os investimentos em irrigação e o maior nível de mecanização das lavouras. Essa capacidade de adaptação e investimento tecnológico é crucial para mitigar os efeitos de um evento climático severo.

A análise da XP detalha que, mesmo em um cenário de super El Niño, a produtividade da soja pode recuar apenas 5% no agregado nacional. Os impactos negativos tendem a se concentrar no Matopiba, região que engloba partes do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Em contrapartida, o Sul do país, um dos principais cinturões produtivos, tende a ser beneficiado. O fenômeno costuma elevar as chuvas na região, favorecendo a produtividade. Ana Luiza Lodi, analista de inteligência de mercado da StoneX, corrobora essa visão. Ela afirma que “historicamente, a produção de soja no Brasil tende a ser beneficiada pelo El Niño, por trazer mais chuvas para o sul do país”, ressalvando prejuízos apenas se o volume de chuvas for excessivo.

O Equilíbrio Frágil das Culturas Essenciais

O impacto do El Niño varia drasticamente entre as diferentes culturas, revelando vulnerabilidades específicas que podem afetar a oferta e os preços no mercado global.

O milho emerge como uma das culturas mais sensíveis ao fenômeno. A principal vulnerabilidade reside na safrinha, que depende intensamente das chuvas e pode ser severamente afetada por atrasos no plantio. Este risco se torna mais relevante a partir do fim de 2026. O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) já projeta um déficit global de 22 milhões de toneladas na próxima safra de milho e de 5 milhões de toneladas no balanço de trigo. Ana Luiza Lodi, da StoneX, adiciona que as condições climáticas adversas no Norte e Nordeste do Brasil encarecem a cadeia produtiva como um todo. Isso inclui reflexos diretos no custo da ração para a criação de carnes e na produção de leite, impactando o consumidor final.

A XP aponta o açúcar como a commodity mais sensível ao El Niño. O fenômeno pode, simultaneamente, pressionar a produtividade da cana-de-açúcar no Brasil e reduzir o excedente exportável da Índia e da Tailândia, os outros grandes fornecedores globais. Essa conjunção de fatores apertaria o balanço global de oferta e demanda. No entanto, o ponto de partida é confortável: a moagem brasileira de cana caminha para um recorde de 640 milhões a 650 milhões de toneladas na safra 2026/27, o que pode amortecer parte dos choques.

Para o café, o cenário exige cautela redobrada. Leonardo Rossetti, especialista em inteligência de mercado da StoneX, ressalta que o padrão climático do El Niño é historicamente agressivo para as áreas cafeeiras. A temporalidade do clima é determinante para o café arábica. “O período coincide com as fases de expansão e enchimento dos frutos, quando temperaturas elevadas e baixa umidade aumentam a evapotranspiração e podem comprometer o desenvolvimento da safra. Nesse caso, o impacto tende a ser altista para os preços”, detalha Rossetti. A preocupação se estende à Ásia, com expectativas de tempo quente e seco no Vietnã e na Indonésia, dois dos maiores produtores mundiais de café robusta.

O que Está em Jogo: Inflação, Juros e Poder de Compra

Apesar do alarme emitido por economistas e especialistas, o prêmio de risco associado ao El Niño ainda não foi precificado integralmente nos mercados. Leonardo Alencar, da XP, observa que nenhuma das grandes commodities negociadas em bolsa – como soja, milho, algodão, açúcar, etanol e proteínas – tem esse prêmio embutido em seus contratos futuros. A XP, inclusive, mantém um viés baixista para boa parte delas, justificado por um cenário global confortável de oferta e demanda, independentemente do fenômeno climático imediato.

O avanço da intensidade do El Niño nos próximos meses será crucial para definir o potencial das safras de 2027 e, consequentemente, os preços internacionais. A primeira repercussão tangível para o consumidor brasileiro deve ser na energia elétrica. As regiões Sudeste e Centro-Oeste, que concentram cerca de dois terços da capacidade de armazenamento do sistema elétrico nacional, podem enfrentar o retorno da bandeira vermelha patamar 2 já no segundo semestre de 2026, conforme projeção da GO Associados. O impacto nos alimentos, embora potencialmente mais severo e generalizado, tende a se concentrar em 2027, quando a quebra de produtividade nas lavouras se reflete de forma mais acentuada nas gôndolas do varejo.

Contexto

O El Niño, fenômeno climático caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, possui um histórico de impactar significativamente a economia brasileira, especialmente o setor de agronegócio e, por consequência, a inflação. Sua ocorrência altera padrões de chuva e temperatura globalmente, afetando safras e cadeias de suprimentos. Historicamente, períodos de El Niño intenso no Brasil foram associados a pressões inflacionárias, levando o Comitê de Política Monetária (Copom) a recalibrar suas decisões sobre a taxa Selic para controlar os preços e estabilizar a economia.

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