Satélites da Nasa revelam uma escala devastadora nos terremotos que atingiram a Venezuela: 58,8 mil edifícios foram provavelmente danificados ou destruídos na região afetada. A estimativa, apresentada por pesquisadores da Universidade Estadual de Oregon, nos Estados Unidos, aponta para uma catástrofe habitacional e de infraestrutura muito maior do que os números iniciais do governo venezuelano, que contabilizou o colapso de 774 edificações até o momento.
A análise da Universidade de Oregon utiliza dados do satélite Sentinel-1, da Nasa, que compara imagens da área antes e depois dos tremores. Os pontos vermelhos nos mapas científicos indicam estruturas com 75% de probabilidade de terem sofrido danos significativos.
Os geógrafos Corey Scher e Jamon Van Den Hoek assinam o estudo preliminar. Eles advertem que o produto é inicial e não foi validado em campo.
Mesmo assim, a metodologia oferece um panorama crítico. O processo já é conhecido para mapear destruição em zonas de conflito, onde mudanças abruptas na superfície de um edifício, comparadas a imagens pré-desastre, são indicadores de impacto.
Um edifício é considerado danificado, pelos critérios da pesquisa, quando ao menos 50% de sua área de implantação apresenta perda de coerência nas imagens de satélite.
A concentração dos danos coincide com as áreas de maior intensidade sísmica: a costa central da Venezuela e o corredor densamente populoso de Caracas.
Impacto dos Terremotos na Venezuela
Os tremores, de magnitudes 7,2 e 7,5 na escala Richter, ocorreram na quarta-feira passada. Abalaram a capital Caracas e diversas outras cidades, com foco na província de La Guaira.
A tragédia humanitária acompanha a destruição material. As últimas atualizações apontam para 1,9 mil mortos e 10,5 mil feridos. A Organização das Nações Unidas (ONU) estima que quase 50 mil pessoas estejam desaparecidas no país.
Estes números elevam o evento a uma das maiores catástrofes naturais recentes na América Latina, gerando uma crise habitacional e humanitária de proporções alarmantes.
Milhares de famílias perderam suas casas em poucos segundos. A reconstrução se anuncia como um desafio gigantesco para o governo venezuelano, já sob pressão econômica e social.
Resposta Governamental e Desafios
Até o domingo seguinte aos terremotos, o governo da Venezuela confirmou o colapso de 774 edifícios. Destes, 189 foram completamente destruídos e 585 sofreram danos parciais. Este balanço, no entanto, é quase 70 vezes menor que a projeção da Nasa e da Universidade de Oregon.
Diante da extensão dos estragos, o governo venezuelano anunciou a criação de uma comissão para avaliar as condições de infraestrutura e habitação. O grupo técnico classificará os riscos de cada estrutura.
Um sistema de cores guiará a classificação: vermelho para alto risco de desabamento, amarelo para risco médio e verde para estruturas sem risco aparente.
A expectativa é que a comissão ofereça um panorama mais detalhado, mas a disparidade entre os dados oficiais e as estimativas de satélite levanta questões sobre a velocidade e a capacidade de avaliação em solo.
A reconstrução exigirá recursos financeiros vultosos e mobilização de engenheiros, arquitetos e trabalhadores. Será preciso abrigar os deslocados, garantir segurança e recuperar a infraestrutura básica.
Contexto
A Venezuela, localizada em uma região de alta atividade sísmica devido à convergência das placas tectônicas do Caribe e Sul-Americana, frequentemente enfrenta terremotos de variadas intensidades. A infraestrutura urbana, especialmente em áreas densamente povoadas como Caracas, possui muitas edificações construídas sob diferentes padrões ao longo das décadas, algumas sem as rigorosas normas antissísmicas que seriam ideais para uma região de alto risco. Historicamente, grandes tremores já causaram destruição e perdas humanas no país, evidenciando a vulnerabilidade das construções e a necessidade de planejamento urbano e políticas de engenharia mais robustas. O impacto a longo prazo de eventos como este inclui a necessidade de realocação de populações, reconstrução de cidades, e um severo teste à capacidade de resposta e recuperação do Estado.