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Munição de polícia e Exército abastece facção criminosa no Rio

Guarda Municipal de Jundiaí

Munição de Polícias e Exército Abastece Tráfico no Rio de Janeiro

Investigações revelam que munição adquirida por diversas polícias no Brasil e pelo Exército está sendo desviada para abastecer traficantes que dominam os complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro. As apurações tiveram início após apreensões de cargas de cartuchos com destino aos conjuntos de favelas da Zona Norte, apontados como base do Comando Vermelho (CV).

Rota da Munição: De Viagens Interestaduais a Churrasqueiras

Os projéteis chegavam ao Rio de Janeiro de diversas formas: em porta-malas de carros, na bagagem de passageiros de ônibus interestaduais e até escondidos dentro de uma churrasqueira elétrica.

O jornal O GLOBO divulgou que um fuzil desviado da Polícia Militar do Rio (PMERJ) estava entre as armas apreendidas com traficantes durante a ação mais letal da história do Rio, ocorrida em outubro do ano anterior na Penha e no Alemão. Cartuchos desviados da PMERJ e do Exército também foram encontrados em poder dos criminosos.

Apreensão no Distrito Federal e a Ligação com o Tráfico

Em 18 de junho de 2019, uma carga de munição com destino ao Complexo da Penha foi interceptada em Santa Maria, no Distrito Federal. Policiais Militares de Goiás abordaram um Fiat Linea vermelho que vinha de Cuiabá, no Mato Grosso, e encontraram, no porta-malas, mil projéteis calibre 7,62 e 800 de 5,56, ambos utilizados em fuzis.

O “Irmão Doca” e os Lotes Identificados

O motorista preso declarou ter sido contratado por um desconhecido para levar a munição ao Rio de Janeiro, com ponto de encontro na Rodoviária Novo Rio. Caso não encontrasse ninguém, deveria procurar por “irmão Doca” no Morro da Penha, referência a Edgar Alves de Andrade, chefe do tráfico do Complexo da Penha, que permanece foragido.

Peritos identificaram 41 lotes diferentes fornecidos pela Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) a órgãos públicos na munição apreendida. A identificação do lote no corpo do artefato é obrigatória para projéteis vendidos a forças de segurança, conforme o Estatuto do Desarmamento.

Foi constatado que havia munição adquirida por forças de segurança do Rio de Janeiro, Mato Grosso, Distrito Federal, Bahia e pelo Exército.

Lotes de Munição e Casos de Violência

A maior parte da munição apreendida pertencia ao lote BRR52, adquirido pelo Fundo de Segurança Pública de Mato Grosso. Foram identificados 459 projéteis com essa marcação, sendo 427 de calibre 5,56 e 32 de 7,62.

Outros 47 cartuchos faziam parte do lote BJK88, destinado à Polícia Militar do Rio de Janeiro. Quatro projéteis integravam o lote BIZ91, comprado pelo Exército em 2007, que já havia aparecido em cenas da maior chacina do estado de São Paulo, em 2015, quando 23 pessoas foram assassinadas em Osasco, Barueri, Itapevi e Carapicuíba.

Os 63 cartuchos marcados com a sequência AND18 haviam sido adquiridos pelo Fundo Constitucional do Distrito Federal (DF).

Outros Casos Envolvendo o Lote AND18

Em 2 de junho de 2018, um homem e uma mulher foram presos ao chegarem ao Rio de Janeiro com 1.390 cartuchos para fuzis, dos quais 500 traziam a marcação AND18. A munição restante integrava três lotes adquiridos pelo Exército. Os cartuchos seriam entregues a um homem conhecido como Juninho, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha.

A Polícia Civil do Distrito Federal abriu um inquérito e identificou um sargento do Corpo de Bombeiros do DF, cedido ao Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República, como o fornecedor dos cartuchos ao grupo criminoso. Ele admitiu ter “cedido gratuitamente” munição 9mm a outro envolvido.

O bombeiro foi absolvido na Justiça, e a apuração do Exército também terminou com a absolvição dos réus na Justiça Militar. Apenas o homem e a mulher presos em flagrante foram condenados.

Desvio Facilitado pelo Controle Frágil

Segundo Bruno Langeani, especialista em controle de armas, o controle frágil das forças de segurança facilita os desvios. Ele afirma que algumas polícias têm controle precário da munição, especialmente na distribuição e no consumo, permitindo justificar gastos sem verificação efetiva.

Munição Escondida em Churrasqueira Elétrica

Em fevereiro de 2019, uma operação da Polícia Federal interceptou 2.746 cartuchos ocultos em uma churrasqueira elétrica em Cascavel, no Paraná. A entrega foi monitorada e o destinatário foi preso no Rio de Janeiro após retirar a mercadoria.

O preso relatou que havia sido contratado para buscar a churrasqueira e levá-la até a favela Nova Brasília, no Alemão, e que o intermediário integraria a quadrilha de Fhillip da Silva Gregório, o Professor, então chefe do tráfico local. A perícia revelou que 740 dos cartuchos pertenciam ao lote ASQ01, mas a investigação não identificou o órgão de segurança de onde os projéteis foram desviados.

Rede de Mulheres e Subtenente do Exército

Uma investigação da Polícia Civil de São Paulo identificou um subtenente reformado do Exército que fornecia cartuchos a uma quadrilha de mulheres que os levava de ônibus para o Rio de Janeiro, para serem entregues na Penha.

Duas irmãs foram presas pela Polícia Rodoviária Federal (PRF) com mais de mil projéteis calibre 7,62 cada uma ao deixarem a capital paulista em um coletivo. Elas relataram ter recebido mil reais cada uma para buscar a munição. A análise de seus celulares revelou que faziam parte de uma rede de mulheres cooptadas por uma pessoa identificada como “Tia Renata” para buscar munição em São Paulo de ônibus. O fornecedor dos cartuchos foi identificado como o subtenente do Exército Edilson de Oliveira Rett, em cuja casa foram apreendidas 12 armas.

Em setembro passado, Rett foi condenado a 22 anos de prisão pela Justiça paulista, que considerou que o fornecimento de munições de uso restrito para fuzis contribui para o fortalecimento das facções e para o aumento da violência armada no Rio de Janeiro.

As secretarias de segurança do Distrito Federal, do Mato Grosso e da Bahia não responderam aos questionamentos sobre a munição apreendida. A Secretaria de Polícia Militar do Rio informou desconhecer qualquer desvio de munição relacionado ao caso.

Contexto

A notícia revela um grave problema de segurança pública no Brasil, com o desvio de munição de órgãos oficiais para o crime organizado, contribuindo para o aumento da violência e fortalecimento de facções criminosas, especialmente no Rio de Janeiro.

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