Ato em Brasília Clama por Fim do Feminicídio e Políticas Públicas Efetivas no Dia Internacional da Mulher
Em um protesto marcante no Dia Internacional da Mulher, centenas de pessoas se reúnem em Brasília para denunciar os recorrentes casos de feminicídio no Brasil. Com cartazes onde se lê “Parem de Nos Matar”, manifestantes expressam sua indignação contra a violência de gênero no Distrito Federal (DF). A manifestação, realizada neste domingo, dia 8, busca alertar para a urgência de medidas efetivas para proteger a vida das mulheres.
O ato, que teve lugar próximo à Torre de TV, no coração de Brasília, agrega diversos grupos musicais, partidos políticos, sindicatos e coletivos feministas. Além do combate ao feminicídio, a manifestação também levanta a bandeira pelo fim da escala de seis dias de trabalho por um de descanso (6×1), considerada particularmente exaustiva para as mulheres. A pauta demonstra a complexidade dos desafios enfrentados pelas mulheres, que acumulam funções e lutam por melhores condições de trabalho.
Protesto Alerta Para a Falta de Recursos em Políticas Públicas Para Mulheres no DF
O governo do DF, liderado por Ibaneis Rocha, torna-se um dos focos do protesto, especialmente devido à polêmica envolvendo a tentativa de compra do Banco Master pelo Banco Regional de Brasília (BRB), o banco estatal do DF. Manifestantes alegam que a situação compromete o financiamento de políticas públicas essenciais para a proteção das mulheres. A questão financeira surge como um obstáculo crucial na efetivação de medidas de amparo e prevenção à violência.
Outras pautas importantes ganham destaque na manifestação, incluindo a denúncia do imperialismo e as ações dos Estados Unidos (EUA) em países como Irã, Cuba e Venezuela. A ação israelense na Palestina também é mencionada em falas e cartazes, demonstrando a interconexão das lutas feministas com questões geopolíticas globais. A diversidade de temas abordados reflete a abrangência do movimento feminista e sua preocupação com a justiça social em diversas esferas.
A Arte Como Denúncia: “Medo” Retrata a Realidade da Mulher Brasileira
A artista plástica Daniela Iguizzi, de 55 anos, presente no ato, apresenta sua obra “Medo”, que retrata um revólver apontado para uma mulher. A obra impactante materializa a sensação de vulnerabilidade e insegurança vivenciada por muitas mulheres no Brasil. A arte serve como uma poderosa ferramenta de denúncia e sensibilização para a questão da violência de gênero.
“A mulher não tem um minuto de paz. Ela não tem sossego no seu lar. Ela não tem sossego no seu trabalho. Em todos os lugares nós podemos ser assediadas, podemos ser assassinadas. Por isso, o nome dessa obra é medo. Medo é o que toda mulher brasileira sente”, declara Daniela Iguizzi à Agência Brasil. Sua fala ecoa a angústia de muitas mulheres que se sentem constantemente ameaçadas pela violência.
Dados alarmantes revelam que, em 2025, 1.568 mulheres foram vítimas de feminicídio no Brasil. O número representa um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior, de acordo com dados compilados pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública. A estatística chocante reforça a urgência de medidas eficazes para combater o feminicídio e proteger a vida das mulheres.
Pacto Nacional Contra o Feminicídio: Uma Esperança de Ação Efetiva?
Raquel Braga Rodríguez, coordenadora do grupo de maracatu Baque Mulher Brasília, enfatiza que os feminicídios são uma grande preocupação das mulheres brasileiras e que o ato representa uma luta contra esse tipo de crime. A voz de Raquel ressoa com a de muitas outras mulheres que exigem justiça e segurança.
“O governo lançou esse Pacto Nacional contra o Feminicídio e a gente gostaria muito que essa política pública fosse realmente colocada em prática, que a gente visse resultado na redução desses números”, afirma Raquel. A coordenadora expressa a esperança de que o pacto se traduza em ações concretas e resultados mensuráveis na luta contra o feminicídio.
No início de fevereiro, um pacto entre Executivo, Legislativo e Judiciário é firmado para adoção de medidas contra a violência de gênero no Brasil. O acordo sinaliza um esforço conjunto dos três poderes para enfrentar o problema, mas a efetividade das medidas ainda precisa ser comprovada na prática.
A Experiência de Luta de Lydia Garcia Inspira a Nova Geração
Lydia Garcia, militante histórica do movimento de mulheres negras do Distrito Federal, comparece à manifestação aos 88 anos de idade, demonstrando sua incansável dedicação à causa. Professora de música aposentada do Coletivo Mulheres Negras Baobá, mãe de cinco filhos, 11 netos e três bisnetos, Lydia é uma pioneira da capital federal e um exemplo de resistência e luta.
“Nós mulheres, principalmente as mulheres negras, estamos impondo a este mundo e a este Brasil a nossa força, as nossas lutas e vitórias por dias melhores contra a violência dos jovens negros, contra o feminicídio”, declara Lydia Garcia. Sua mensagem inspiradora ressalta a importância da união e da perseverança na luta por um futuro mais justo e igualitário.
Críticas ao Governo do DF e a Busca por Orçamento Para Políticas Públicas
Jolúzia Batista, representante da Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB), expressa sua preocupação com a falta de recursos destinados às políticas públicas de proteção às mulheres no DF. A ativista critica a gestão financeira do governo local e questiona a prioridade dada à proteção das mulheres.
“Estamos vivendo um escândalo financeiro no Brasil com o banco do GDF [o BRB] sendo rifado e faltando dinheiro para a política pública”, afirma Jolúzia à Agência Brasil. Sua fala evidencia a necessidade de uma gestão transparente e responsável dos recursos públicos, com prioridade para áreas essenciais como a proteção das mulheres.
A Polícia Federal (PF) investiga a tentativa de compra do Master pelo BRB. O Banco de Brasília estuda dar 12 imóveis públicos do DF como garantia de empréstimos para reforçar o caixa da instituição após perdas estimadas em R$ 2,6 bilhões com a aquisição de créditos do Master. A situação levanta sérias dúvidas sobre a saúde financeira do banco e a capacidade do governo local de investir em políticas públicas.
A ativista do AMB defende que a luta das mulheres deve incluir a busca por um orçamento que financie as políticas públicas que melhorem a vida das meninas e mulheres. A questão orçamentária é fundamental para garantir a efetividade das ações de proteção e promoção dos direitos das mulheres.
“A gente precisa falar de orçamento. Com as emendas parlamentares, as emendas Pix, elas levaram o dinheiro da política pública. Perdemos qualidade de serviço, perdemos capacitação de profissionais, perdemos em campanhas educativas”, comenta Jolúzia. A ativista alerta para os impactos negativos da má gestão dos recursos públicos e da falta de prioridade para as políticas públicas.
O Legado da Luta Feminista: Avanços e Desafios Persistentes
Thammy Frisselly, uma das organizadoras do ato e representante da Assembleia Popular pela Vida de Todas as Mulheres, destaca os dez anos da Marcha Unificada do 8 de Março em Brasília e os avanços conquistados pelo movimento de mulheres na cidade. A ativista reconhece os progressos alcançados, mas ressalta que ainda há muito a ser feito para garantir a igualdade e a segurança das mulheres.
“O 8M [8 de março] é o maior ato político feminista da capital federal. A gente teve muitos avanços, não só nas leis, mas também no aumento no número de delegacias para mulheres”, detalha Thammy. A expansão da rede de proteção e o fortalecimento da legislação são importantes conquistas do movimento feminista, mas a implementação efetiva das leis e o acesso aos serviços ainda representam desafios.
Thammy ressalta que a violência contra a mulher é hoje debatida na sociedade devido à pressão dos movimentos ao longo dos anos. A conscientização e a mudança de mentalidade são processos importantes para combater a cultura machista e a violência de gênero.
“Podemos falar hoje abertamente que é violência o seu ‘psiu’ no meio da rua, que é violência você falar da minha roupa. Essa é uma educação bem na base que é resultado da luta das mulheres”, completa Thammy. A ativista destaca a importância da educação e da desconstrução de estereótipos para promover uma cultura de respeito e igualdade.
A Luta Pelo Fim da Escala 6×1 e a Denúncia do Imperialismo
A ativista do DF acrescenta que a pauta do fim da escala 6×1 é central na luta das mulheres, que já são submetidas a jornadas duplas ou triplas, cuidando da casa, dos idosos, das crianças e ainda tendo que trabalhar. A sobrecarga de trabalho afeta a saúde física e mental das mulheres e impede seu pleno desenvolvimento.
“As mulheres precisam de tempo para tratar da sua saúde mental, para o lazer, para fazer outras coisas, para estudar”, explica Thammy. A ativista defende a importância de políticas que promovam a conciliação entre trabalho e vida pessoal e garantam o bem-estar das mulheres.
Contexto
O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, é uma data de reflexão e luta pelos direitos das mulheres em todo o mundo. A manifestação em Brasília reflete a crescente preocupação com a violência de gênero no Brasil e a necessidade de políticas públicas efetivas para proteger a vida das mulheres. O feminicídio, a desigualdade salarial e a sobrecarga de trabalho são alguns dos desafios que ainda precisam ser superados para garantir a igualdade e o bem-estar das mulheres na sociedade brasileira.