A abertura do mercado livre de energia gera efeitos concretos e positivos sobre os custos de produção da indústria no Brasil. Dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgados em sua “Sondagem Especial Indústria e Energia 2026” nesta quinta-feira (30), revelam que impressionantes 73% das empresas que migraram do mercado cativo para o ambiente de livre contratação registraram uma redução direta em suas contas de energia elétrica. Este resultado reforça a busca das indústrias por alternativas eficazes para mitigar um dos principais encargos operacionais.
A pesquisa da CNI sublinha a rapidez com que a mudança ocorre. Desde 2024, quando uma nova regulamentação do Ministério de Minas e Energia (MME) ampliou o acesso a este modelo, 41% das indústrias brasileiras já aderiram ao mercado livre. Este ambiente permite que as empresas escolham seus fornecedores de energia, negociando condições e preços diretamente, ao contrário do mercado cativo, onde a compra é feita de uma única distribuidora local com tarifas fixadas pela agência reguladora.
Mesmo com o avanço significativo na adesão, o potencial de expansão permanece elevado. A sondagem aponta que, entre as empresas de baixa tensão que ainda operam no mercado regulado, 37% já manifestam interesse em migrar. Esse contingente indica que a abertura progressiva do setor elétrico brasileiro continuará a impulsionar um fluxo constante de novas adesões e transformações no panorama energético industrial nos próximos anos.
O Impulso do Ministério de Minas e Energia
A migração massiva para o mercado livre foi catalisada pela entrada em vigor, em janeiro de 2024, de uma nova regra do Ministério de Minas e Energia. Essa medida permitiu que todos os consumidores de energia elétrica conectados em alta tensão pudessem optar pela livre contratação, independentemente do volume de demanda. Anteriormente, a opção era restrita a grandes consumidores com demanda acima de 500 kW, limitando os benefícios a um grupo menor de indústrias de grande porte.
A flexibilização regulatória permitiu que um maior número de pequenas e médias indústrias, antes cativas, pudessem acessar o mercado livre, democratizando o acesso a potenciais reduções de custos. A capacidade de negociar com diferentes geradores e comercializadores de energia gera maior transparência e competitividade, impactando diretamente a planilha de despesas das empresas.
Para Roberto Wagner Pereira, gerente de Energia da CNI, os resultados da sondagem confirmam a relevância estratégica da energia. “A pesquisa mostra a importância desse custo para a competitividade da indústria e que o caminho escolhido pelas empresas para diminuir as tarifas passa pela migração ao mercado livre”, afirma o especialista, ressaltando a urgência do tema para o setor produtivo.
Estratégias Diversificadas para o Consumo de Energia
A pesquisa da CNI detalha as múltiplas abordagens adotadas pelo setor industrial para gerenciar e reduzir seus gastos com energia. Um total de 64% das indústrias já implementaram alguma medida com este propósito. A migração para o mercado livre figura como a principal estratégia, sendo a escolha de 30% das empresas que buscaram otimizar seus custos.
Além da mudança de ambiente de contratação, outras estratégias energéticas ganham força. Cerca de 13% das indústrias investiram em projetos de autogeração, produzindo sua própria energia, ou em iniciativas de eficiência energética, visando reduzir o consumo sem comprometer a produção. Em contraste, 28% das indústrias afirmaram não ter realizado nenhuma ação para otimizar o consumo, indicando um potencial ainda não explorado ou a existência de barreiras para a adoção dessas medidas.
A autogeração tipicamente envolve a instalação de sistemas fotovoltaicos (energia solar), pequenas centrais hidrelétricas (PCH) ou outras fontes renováveis na própria planta industrial. Já a eficiência energética abrange desde a substituição de equipamentos antigos por modelos mais modernos e econômicos até a implementação de sistemas de gestão de energia inteligentes, que monitoram e otimizam o consumo em tempo real.
Crescimento Segmentado e Desafios Regulatórios
A adesão ao mercado livre de energia não ocorre de forma homogênea em toda a indústria. A pesquisa da CNI revela uma clara disparidade conforme o porte da empresa. Entre as grandes indústrias, aquelas atendidas em alta tensão e com maior volume de consumo, 63% já compram energia nesse ambiente de contratação livre. Este número reflete a maior capacidade dessas empresas em lidar com a complexidade regulatória e contratual do mercado.
Em contrapartida, nas pequenas empresas, o percentual de adesão ao mercado livre cai significativamente para 22%. A maioria delas, 45%, ainda permanece no **mercado cativo**, sujeitas às tarifas reguladas pelas distribuidoras locais. Essa diferença expõe os desafios enfrentados por empresas de menor porte, que muitas vezes carecem de equipes especializadas ou volume de consumo para atrair fornecedores do mercado livre em condições mais vantajosas.
A CNI interpreta esses dados como um indicativo de que ainda há um espaço significativo para expansão da modalidade, especialmente à medida que mais consumidores, principalmente os de menor porte, passem a atender aos critérios regulatórios de elegibilidade ou que novas regras simplifiquem seu acesso. A abertura gradual do mercado elétrico, que se espera atingir consumidores de baixa tensão no futuro, é crucial para democratizar ainda mais os benefícios.
Adesão Setorial e Inovação Energética
Além da migração para o mercado livre, a indústria brasileira diversifica seus investimentos em energia. O setor de produtos de borracha se destaca, liderando em autogeração com 25% das empresas adotando essa prática e figurando entre os que mais migraram para o mercado livre, com 38% de suas companhias. A intensidade energética na produção de borracha justifica a busca por maior controle e redução de custos.
A indústria calçadista apresenta a maior adesão ao ambiente de livre contratação, alcançando 47% das empresas. Este segmento, sensível à flutuação de custos, busca na liberdade de negociação uma forma de otimizar suas margens. Já o setor de equipamentos de informática e produtos eletrônicos se diferencia pelos investimentos em eficiência energética, realizados por 25% de suas companhias, evidenciando a busca por tecnologias que minimizem o consumo sem prejudicar a alta demanda tecnológica.



