Pesquisar
Folha Jundiaiense

Mercado de celulose se divide: China sofre pressão, Ocidente se estabiliza

Mercado Global de Celulose Apresenta Divergência Acirrada com China ditando Queda nos Preços

O mercado mundial de papel e celulose exibe um cenário de **descompasso de ciclos** entre as regiões, marcando uma fase onde a dinâmica global é mais segmentada do que unificada. Enquanto a Europa demonstra resiliência, e a América do Norte se mantém estável, o Brasil enfrenta um **excesso de oferta** que freia reajustes de preços. Contudo, é a China que se posiciona como o principal motor da queda, com preços em recuo acentuado devido à demanda fraca, à desvalorização no mercado secundário e ao excesso de capacidade produtiva. Esta análise é destacada em relatório recente do Santander, assinado pelos especialistas Yuri Pereira e Laura Zioli, que monitoram a complexa rede de fatores que moldam este setor crucial.

A volatilidade atual impacta diretamente as estratégias de grandes players globais. O desequilíbrio entre oferta e demanda na Ásia exerce uma pressão sistêmica, forçando produtores a recalibrar suas expectativas e estratégias de venda. A capacidade de navegar por este ambiente desafiador define a competitividade das empresas em um cenário global cada vez mais interconectado e imprevisível.

China: O Epicentro da Dinâmica Global da Celulose e Sua Pressão nos Preços

A China permanece como o **fator principal na definição do ciclo global** da celulose. Observações do Goldman Sachs indicam que os preços da **celulose de fibra curta** (hardwood) atingem um ponto de ciclo recorrente, onde historicamente perdem sustentação. Este patamar, geralmente próximo aos **US$ 600 por tonelada**, é visto como um teto estrutural que desencadeia dinâmicas competitivas intensas.

Ao se aproximar ou ultrapassar os US$ 600 por tonelada, os produtores chineses que possuem operações integradas tornam-se significativamente mais competitivos. Essa situação reduz drasticamente a demanda por celulose de mercado, ou seja, a celulose importada, exercendo uma pressão direta sobre o poder de precificação dos vendedores internacionais. Tal cenário impulsiona a queda dos preços, pois a oferta externa precisa se adequar à capacidade de produção local.

Embora os preços da fibra curta tenham mantido uma relativa estabilidade desde o fim do primeiro trimestre do ano, o Goldman Sachs alerta para a queda nos volumes de venda. Entre abril e maio, os volumes negociados ficaram **abaixo de 50% do nível considerado normal**, um indicador preocupante da fragilidade da demanda. Mesmo com paradas de manutenção que limitaram a oferta em parte do período, as vendas não acompanharam a disponibilidade, resultando na **elevação dos estoques** dos produtores.

Com o encerramento do trimestre em junho, a pressão por vendas aumenta substancialmente. Produtores buscam liquidar estoques e cumprir metas, enquanto os compradores, cientes da abundância no mercado, seguem **sem urgência para recompor seus estoques**. Esta dinâmica de “espera e vê” amplifica o desequilíbrio e a tendência de baixa nos preços.

A **RISI**, uma das principais referências para informações e análises no setor de celulose e papel, reportou cortes de **US$ 20 por tonelada** nas ofertas da Arauco e da CMPC. Os preços caíram para cerca de US$ 580 por tonelada. Contudo, a avaliação do Goldman Sachs aponta que este ajuste ainda não se mostra suficiente para reativar a demanda de forma relevante, sinalizando que o piso de preços pode ainda não ter sido alcançado.

Na visão do banco, os **preços ainda precisam cair mais** para que se atinja um novo equilíbrio entre oferta e demanda. Este comportamento é considerado um reflexo típico dos **ciclos de baixa**, nos quais os produtores frequentemente tentam restringir a oferta temporariamente. A estratégia visa suavizar as quedas e preservar as referências de preços em outras regiões, como Europa e Estados Unidos, onde as condições de mercado são mais favoráveis.

Apesar dessas tentativas, o Goldman Sachs considera inevitável a **continuidade da queda dos preços na China**. Este movimento, uma vez consolidado, pode rapidamente **contaminar outros mercados**, eliminando as diferenças de preço entre as regiões. Atualmente, os preços fora da China permanecem pelo menos **US$ 50 por tonelada acima dos níveis chineses**, uma disparidade que o banco julga insustentável a médio prazo e que tende à convergência.

A situação é agravada pela **entrada de novas capacidades produtivas** na China e na Indonésia, esperada até o fim do ano. Esse aumento da oferta deve pressionar ainda mais o mercado global. O cenário projetado é de uma convergência dos preços em direção ao **custo marginal de produção**, ou seja, o custo mínimo necessário para produzir uma unidade adicional de celulose. Somente uma significativa redução da oferta ou uma recuperação robusta da demanda, que atualmente não se mostra iminente, poderá restabelecer o equilíbrio do mercado.

Nos dados mais recentes, a **FOEX**, principal provedora de índices de preços de celulose, mostrou estabilidade da celulose importada de fibra curta em **US$ 605 por tonelada na China**. No entanto, os preços domésticos recuaram entre 22 e 70 yuans por tonelada, o que equivale a um intervalo de US$ 549 a US$ 556 por tonelada. Para a **fibra longa** (softwood), houve uma queda de US$ 12 por tonelada, atingindo US$ 641 por tonelada no mercado importado. No mercado doméstico chinês, os recuos foram ainda mais expressivos, entre 114 e 155 yuans por tonelada, situando os preços entre US$ 584 e US$ 616 por tonelada.

O que está em jogo: Impactos de um mercado em rebalanceamento

O cenário de **desequilíbrio nos preços da celulose** na China, com a iminente convergência de preços globais, representa um ponto de inflexão para o setor. As **margens de lucro** das grandes produtoras, especialmente aquelas com alta exposição ao mercado asiático, estão sob intensa pressão. Decisões estratégicas sobre investimentos em novas plantas ou expansões são reavaliadas, com cautela predominando diante da incerteza sobre o piso de preços. Para países exportadores como o Brasil, a queda dos preços da commodity impacta diretamente a **balança comercial** e a **geração de divisas**, com consequências para a economia macro e a capacidade de investimento das empresas nacionais.

Além disso, a dinâmica da celulose funciona como um termômetro da **atividade industrial global**, em particular da economia chinesa. A **demanda fraca** por celulose na China reflete um arrefecimento em setores como embalagens e papéis gráficos, sinalizando desafios mais amplos na cadeia de suprimentos e consumo. A busca por um novo equilíbrio determinará a sustentabilidade do crescimento para os próximos anos, exigindo flexibilidade e inovação dos players do setor.

Europa Mantém Resiliência, Brasil Lida com Excesso de Oferta Local

Em contraste com a Ásia, o mercado europeu de celulose apresenta uma dinâmica mais equilibrada. Segundo avaliação do Banco Safra, a **fibra curta** na Europa mostra um avanço nos preços, indicando um ambiente mais favorável para este segmento. A **fibra longa**, por sua vez, mantém estabilidade em torno de **US$ 1.655 por tonelada**, consolidando a Europa como uma região de menor volatilidade no ciclo atual.

Este movimento sugere um ambiente mais saudável para a fibra curta, onde a demanda e a oferta estão mais alinhadas. Contudo, parte da alta acumulada no ano na Europa reflete também um **aumento do desconto entre o preço de lista e o preço efetivamente realizado**. Isso significa que, embora os preços de tabela subam, os valores transacionados podem ser ligeiramente menores devido a negociações específicas, uma tática para manter o volume de vendas em um mercado ainda cauteloso.

Na América do Norte, o cenário permanece de estabilidade. Esta constância indica um mercado com demanda relativamente consistente e oferta controlada, sem os picos ou quedas abruptas observados em outras regiões. A estabilidade na região sugere uma menor sensibilidade a choques externos de oferta e demanda, permitindo uma precificação mais previsível para os produtadores locais.

No Brasil, a realidade é distinta e desafiadora. O **excesso de oferta interna** continua a gerar uma forte **resistência dos compradores aos reajustes de preços**. Produtores nacionais enfrentam dificuldades para repassar o aumento de custos ou para elevar os valores de venda, limitando a expansão das margens. Esta situação é um reflexo direto da elevada capacidade produtiva do país, que muitas vezes excede a demanda doméstica, direcionando o excedente para exportação e colocando o Brasil em concorrência direta com outros grandes fornecedores globais em um momento de baixa demanda.

Gigantes Brasileiras Enfrentam Cenário Complexo: Suzano e Klabin em Destaque

Neste contexto de mercado global multifacetado, as gigantes brasileiras do setor de papel e celulose ajustam suas estratégias. O Banco Safra mantém a **Suzano (SUZB3)** como sua principal preferência, ou a “top pick”, no setor. A empresa demonstra um melhor posicionamento para atravessar o atual ciclo de baixa nos preços da celulose, pautado pela sua robustez financeira.

A preferência pelo Safra é justificada pela maior **geração de caixa livre** da Suzano, um indicativo da capacidade da companhia de gerar recursos financeiros após cobrir suas despesas operacionais e investimentos. Além disso, a empresa apresenta um ritmo mais acelerado de **desalavancagem**, ou seja, de redução de sua dívida. Essa solidez financeira permite à Suzano maior flexibilidade para gerenciar períodos de baixa e até mesmo para aproveitar oportunidades de mercado quando surgem.

Para a **Klabin (KLBN11)**, o banco avalia que os preços de suas ações já refletem um cenário mais negativo tanto para a celulose quanto para o câmbio. Esta precificação, que já incorpora os riscos, cria uma **assimetria positiva de risco e retorno**. Em termos práticos, significa que o potencial de valorização da Klabin é maior que o risco de queda, visto que as expectativas negativas já estão amplamente embutidas no valor atual do ativo. Isso a torna uma opção interessante para investidores que buscam ativos com potencial de recuperação quando o ciclo virar.

Por outro lado, a **CMPC**, concorrente chilena com significativa atuação global, é vista como a menos atrativa no momento. A avaliação do Safra destaca uma **menor atratividade relativa** em comparação com as empresas brasileiras, além de **riscos ligados a novos ciclos de investimento**. Projetos de expansão de capacidade em um momento de excesso de oferta global podem pressionar ainda mais as finanças da empresa e a percepção de mercado sobre sua gestão de capital.

Contexto

O setor global de celulose e papel é estratégico para a economia mundial, movimentando bilhões de dólares e impactando cadeias produtivas diversas. O Brasil, como um dos maiores produtores e exportadores de celulose do mundo, tem sua balança comercial significativamente influenciada pelos ciclos de preços da commodity. A atual fase de descompasso, com a China ditando um ciclo de baixa, força uma reavaliação de estratégias e investimentos por parte das grandes empresas do setor, moldando o futuro da indústria global e as perspectivas de crescimento para os próximos anos.

Leia mais

Destaques

plugins premium WordPress