O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), está sob investigação da Polícia Federal (PF) desde julho. A apuração foca em seu suposto envolvimento no financiamento de “Dark Horse”, cinebiografia sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A autorização para a abertura do procedimento investigatório partiu do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), atendendo a um pedido da própria corporação. O caso aponta para possíveis crimes graves, como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção, conforme os autos processuais.
A revelação de que Flávio Bolsonaro se tornou alvo da Polícia Federal veio a público nesta sexta-feira (11). A informação consta em documentos da investigação do Banco Master, tornados públicos pelo ministro Mendonça na véspera. O inquérito busca desvendar a origem e o destino de recursos que teriam financiado o projeto cinematográfico, bem como o papel exato do senador nessas articulações financeiras.
Detalhes da Investigação e Acusações Finais
A decisão de André Mendonça, formalizando a apuração, declara: “Autorizo […] a instauração de procedimento investigatório vinculado ao INQ 5026 para apuração da hipótese criminal delineada pela autoridade policial”. Este procedimento, agora em curso, visa aprofundar as suspeitas que recaem sobre o parlamentar. A natureza dos crimes imputados – lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção – indica a gravidade das infrações que a PF tenta comprovar, envolvendo movimentações financeiras complexas e potencialmente ilegais.
A lavagem de dinheiro, um dos focos da investigação, consiste em ocultar a origem ilícita de bens e valores, incorporando-os ao sistema econômico de forma aparentemente legal. A evasão de divisas se configura quando há a remessa ilegal de dinheiro para o exterior, sem declaração às autoridades competentes. Já a corrupção envolve o uso indevido do cargo ou influência para obter vantagens. A soma desses delitos sugere um esquema intrincado de irregularidades envolvendo o financiamento do filme “Dark Horse”, colocando o senador em uma posição de grande vulnerabilidade jurídica e política.
O Financiamento Milionário e a Ligação com Vorcaro
O processo de autorização da investigação seguiu um trâmite rigoroso. A Polícia Federal encaminhou o pedido inicialmente à Procuradoria-Geral da República (PGR), que, após análise, não se opôs à abertura do inquérito. A PGR, atuando como fiscal da lei, então repassou a solicitação ao ministro Mendonça, a quem compete decidir sobre investigações que envolvem parlamentares federais. A aprovação pelo STF confere legitimidade e respaldo jurídico para o avanço das apurações.
Em meados de maio, áudios vazados à imprensa já haviam acendido o alerta para o caso. As conversas revelavam que Flávio Bolsonaro teria negociado com o banqueiro Nelson Tanure Vorcaro, de quem cobrou R$ 134 milhões para a produção do filme. Deste montante, R$ 61 milhões teriam sido efetivamente pagos. A vultosa quantia levanta questionamentos sobre a transparência e a legalidade da operação, especialmente considerando o perfil da produção cinematográfica e o envolvimento de uma figura política de destaque.
Flávio Bolsonaro, ao comentar o caso, reconheceu a cobrança e defendeu-se, alegando que se tratava de um financiamento privado para uma produção também privada, negando veementemente qualquer irregularidade. No entanto, sua argumentação é confrontada por um fato revelado dias depois: o senador visitou Vorcaro logo após o empresário ser liberado da prisão pela primeira vez, em novembro do ano anterior. Esse encontro, ocorrido em um momento sensível, adiciona uma camada de suspeita à natureza do relacionamento e das transações entre os dois.
Investigação em Andamento: Sigilo e Próximos Passos
Fontes a par da investigação, consultadas pela Gazeta do Povo, indicam que o conteúdo mais detalhado do inquérito permanece sob sigilo judicial. Este nível de confidencialidade é comum em investigações sensíveis, visando preservar a coleta de provas e evitar a contaminação do processo. A expectativa é que novas fases de operações relacionadas ao “Dark Horse” possam ser deflagradas em breve, sinalizando a intensidade e o aprofundamento das diligências da Polícia Federal.
A PF, segundo apurações, encontrou em maio mais conversas de Flávio Bolsonaro com Vorcaro, o que reforça a linha investigativa. Uma das frentes de apuração se concentra em elucidar a origem dos recursos financeiros, a destinação precisa de cada valor e a eventual existência de irregularidades nas operações financeiras relacionadas ao filme. Além disso, a investigação busca determinar qual foi o papel exato do senador Flávio Bolsonaro nessa complexa articulação, procurando definir seu grau de envolvimento e responsabilidade.
O Caso Mário Frias: Conexão com Verbas Públicas
Em um desdobramento paralelo, mas interligado, o ministro Flávio Dino, também do STF, autorizou na véspera uma operação da Polícia Federal que investiga o suposto uso irregular de recursos de emendas parlamentares do deputado federal Mário Frias (PL-SP). Esta operação mira o direcionamento de verbas públicas para entidades ligadas à produtora de “Dark Horse”. As emendas parlamentares são instrumentos que permitem a congressistas indicarem recursos do orçamento da União para projetos específicos, e seu uso indevido constitui grave infração.
Pelo menos R$ 2 milhões teriam sido destinados a duas entidades: o Instituto Conhecer Brasil (ICB) e a Academia Nacional de Cultura (ANC). Ambas são presididas por Karina Ferreira da Gama, que também é proprietária da produtora Go Up, responsável pela filmagem de “Dark Horse”. A ligação direta entre as entidades beneficiadas por verbas públicas e a produtora do filme intensifica as suspeitas de um esquema de desvio e uso irregular de dinheiro público, conectando de forma preocupante o financiamento privado do filme com o uso de dinheiro de emendas parlamentares.
Reações e Contrapontos Políticos
O deputado Mário Frias reagiu à operação da PF, classificando-a como uma “cortina de fumaça” e alegando um viés político, especialmente por ter sido autorizada a menos de um mês da eleição. Em um vídeo divulgado nas redes sociais, o parlamentar defendeu-se: “Se há alguma nota que a CGU quer ver, isso se resolve com documento, não com operação em ano de eleição, cortina de fumaça”. Sua fala sugere que a fiscalização deveria ser administrativa, e não criminal, em um período tão sensível do calendário eleitoral.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, considerou a operação como uma “armação”, reiterando que não há “absolutamente nada de errado” com o filme. No entanto, após a revelação dos diálogos com Vorcaro, o senador havia prometido apresentar uma prestação de contas detalhada sobre o financiamento de “Dark Horse”, mas até o momento, nenhum documento foi tornado público. Esta falta de transparência contrasta com sua defesa pública da legalidade das operações.
Em declarações mais recentes, o senador voltou a negar qualquer irregularidade, afirmando que tudo já foi esclarecido e que o assunto está “encerrado”. Ele acusou o ministro Flávio Dino de uma “tentativa de interferência política” nas investigações, elevando o tom da retórica em meio às acusações. “Pode revirar do avesso, de cima para baixo, de trás para frente, de um lado para o outro, de ponta-cabeça, que não vai ter nada”, completou Flávio Bolsonaro, desafiando a continuidade das investigações e demonstrando sua convicção na ausência de provas contra ele.



