Uma apresentação do espetáculo “Fim de Partida”, estrelado por Marco Nanini, culminou em forte polêmica e vaias na noite do último domingo, 18 de outubro, no Teatro Simões Lopes Neto, localizado no Multipalco Eva Sopher, em Porto Alegre. O ator tornou-se o centro de um impasse envolvendo a iluminação destinada à intérprete de Língua Brasileira de Sinais (Libras), levando à remoção do recurso de acessibilidade. A situação provocou protestos veementes na plateia e a retomada da peça sem o serviço de tradução essencial para o público surdo. A Fundação Theatro São Pedro confirmou os fatos e lamentou o ocorrido.
O incidente levanta questões críticas sobre a garantia da acessibilidade cultural e a preparação técnica de grandes produções para eventos inclusivos. A interrupção e posterior continuidade do espetáculo sem Libras geraram indignação, especialmente entre os espectadores que dependiam diretamente do recurso.
Reclamação de Iluminação Causa Paralisação Imediata do Espetáculo
O desentendimento começou logo no início da peça. Segundo relato detalhado do jornalista Roger Lerina, que acompanhava a apresentação, Marco Nanini pediu o fechamento das cortinas. O motivo, conforme Lerina, seria a sombra projetada pela iluminação direcionada à intérprete de Libras, que estaria, na visão do ator, atrapalhando sua atuação em palco. Esta situação técnica complexa expõe um desafio comum: a integração da acessibilidade sem comprometer o projeto artístico original.
A paralisação da apresentação desencadeou uma série de tentativas para resolver o problema. Profissionais do teatro, técnicos de iluminação, intérpretes e membros da produção buscaram uma solução conjunta. Contudo, a espera no palco se prolongou excessivamente, e a impaciência da plateia começou a se manifestar com as primeiras vaias. O tempo decorrido sem uma resolução palpável transformava a frustração em um protesto audível e crescente.
A dificuldade em compatibilizar a iluminação cênica com a necessidade de visibilidade clara para a intérprete de Libras revelou uma falha de planejamento que impactou diretamente a experiência do público. O equilíbrio técnico entre a arte e a inclusão tornou-se o ponto central da discórdia.
Interrupção e Decisão de Retomada Sem Intérprete Agravam Crise
Diante do impasse técnico e da impossibilidade de um acordo imediato, a equipe responsável pela interpretação em Libras decidiu se retirar do palco. Este momento marca um ponto de inflexão na noite, sinalizando a inviabilidade de continuar a sessão com o recurso de acessibilidade. Uma representante do teatro então informou aos espectadores que a apresentação continuaria. A peça seria retomada, mas sem a tradução simultânea.
Essa decisão, atribuída pelo jornalista Roger Lerina à produção do espetáculo, contrariava, segundo ele, a posição inicial da equipe do Multipalco Eva Sopher, complexo cultural que abriga o teatro. Tal dissonância interna aponta para uma possível falta de alinhamento ou comunicação entre os responsáveis pelo evento e a infraestrutura local, intensificando a crise de percepção pública.
Reação da Plateia e Impacto na Acessibilidade Cultural
A notícia de que o espetáculo continuaria sem intérpretes de Libras provocou uma reação ainda mais intensa do público. Pessoas surdas, que dependiam diretamente da interpretação para compreender e desfrutar da peça, começaram a deixar o local. Eles foram acompanhados por diversos espectadores ouvintes que, em um ato de solidariedade e protesto, também se recusaram a permanecer na apresentação. Mesmo em meio a um coro de vaias e à visível insatisfação de parte da plateia, o espetáculo foi retomado sem o recurso essencial.
Este episódio não apenas frustra as expectativas de um público específico, mas também sublinha a fragilidade da garantia de acessibilidade em eventos culturais. A retirada do serviço de Libras implica diretamente na exclusão de cidadãos com deficiência auditiva, privando-os do direito fundamental ao acesso à cultura, assegurado por diversas legislações brasileiras. A experiência daquele domingo se tornou um símbolo dos desafios persistentes que a comunidade surda enfrenta.
Posicionamentos Oficiais: Instituições e Produtora Se Manifestam
A Fundação Theatro São Pedro, instituição que administra o local, confirmou oficialmente o ocorrido. Em posicionamento enviado ao portal LeoDias, a Fundação afirmou que houve, de fato, um problema técnico relacionado à iluminação destinada à interpretação em Libras. A equipe da instituição buscou ativamente alternativas para garantir a continuidade da apresentação, visando preservar as condições de acessibilidade, mas sem sucesso naquele momento.
A Fundação detalhou os esforços: “Diante da situação, a equipe da Fundação atuou diretamente na mediação entre os envolvidos, buscando alternativas técnicas que permitissem a continuidade do espetáculo e a manutenção das condições adequadas de acessibilidade. Apesar das possibilidades avaliadas e dos esforços empreendidos, não foi possível encontrar uma solução que contemplasse todas as necessidades envolvidas naquele momento, e a peça voltou a ser apresentada sem a interpretação de Libras”. A instituição lamentou profundamente os prejuízos causados aos espectadores que dependiam do serviço de interpretação e reforçou seu compromisso com a inclusão de todos.
Produtora Reconhece Falha no Planejamento de Acessibilidade
Após a repercussão negativa do caso, a Pequena Central de Produções Artísticas, empresa responsável pelo espetáculo “Fim de Partida”, também divulgou um comunicado. Nele, a produtora reconheceu falhas no planejamento e execução da sessão com acessibilidade. A empresa admitiu que houve um problema de compatibilidade entre o posicionamento da intérprete de Libras e o projeto de iluminação da peça.
O ponto mais crítico da declaração da produtora é a admissão de que “não verificou previamente se o espaço oferecia as condições técnicas necessárias para a realização da sessão com interpretação em Libras”. Esta falha na verificação pré-produção destaca uma lacuna processual significativa que deveria ser padrão em qualquer evento que vise a inclusão. A ausência de um ensaio técnico ou vistoria adequada para a acessibilidade comprometeu a viabilidade do serviço e gerou a polêmica.
A Ironia da Obra e a Busca por Respostas
A confusão ganha contornos ainda mais irônicos quando se observa um detalhe crucial da própria montagem de “Fim de Partida”. Na clássica obra do dramaturgo irlandês Samuel Beckett, Marco Nanini interpreta Hamm, um personagem cego que utiliza cadeira de rodas. A peça, dirigida por Rodrigo Portella, aborda intensas relações de dependência e conflitos humanos em um cenário pós-apocalíptico. A contradição entre o tema da peça – a dependência e a vulnerabilidade – e a falha em prover acessibilidade para um público dependente de Libras adiciona uma camada de complexidade e crítica ao evento.
O portal LeoDias informou que buscou contato com a produção de “Fim de Partida” e com a equipe de Marco Nanini para obter esclarecimentos adicionais sobre a interrupção do espetáculo e a decisão de retomar a apresentação sem intérpretes de Libras. Até o fechamento desta matéria, não houve retorno. O espaço permanece aberto para eventuais manifestações e posicionamentos dos envolvidos.



