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Folha Jundiaiense

Lula cobra G7 por compromisso de ricos contra desigualdade global

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou nesta terça-feira, em Évian, França, mais empenho dos países ricos para reduzir a desigualdade global. O discurso, durante a Cúpula do G7, que reúne as principais economias do mundo, focou na distância crescente entre nações desenvolvidas e o Sul Global.

“Os desafios se multiplicam, mas a solidariedade internacional encolhe”, declarou Lula. Ele enfatizou que “a distância que separa a prosperidade de Évian da realidade enfrentada por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo”.

A participação de Lula no encontro, como convidado, reforça o papel do Brasil na articulação de pautas do desenvolvimento e da cooperação internacional. “Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica”, afirmou o presidente.

Desde 2003, quando participou de sua primeira Cúpula do então G8, Lula esteve presente em outras nove edições do grupo. Em todas, disse, os líderes se defrontaram com problemas que afetam milhões, mas não conseguiram construir “respostas coletivas e duradouras”.

Gastos Militares Desviam Foco do Desenvolvimento

Lula apontou que as guerras e conflitos mundiais desviam o foco da agenda de desenvolvimento. No ano passado, alertou, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) perdeu cerca de 40% do financiamento. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e o UNICEF reduziram seus orçamentos em mais de 20%.

Os gastos militares anuais, que somam quase US$ 3 trilhões, representam uma cifra alarmante. “Não são cifras abstratas”, declarou Lula. “Elas impactam diretamente o cotidiano dos habitantes de países em desenvolvimento.”

Milhões de pessoas sem acesso a alimentação adequada, educação e saúde sofrem os efeitos desses cortes e prioridades. Para Lula, é inaceitável que recursos sejam destinados a conflitos enquanto necessidades básicas persistem sem resposta.

A questão da dívida externa agrava o quadro. O mundo em desenvolvimento, segundo o presidente, transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida. Esse valor é sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos.

Isso significa que nações mais pobres, muitas vezes sobrecarregadas com juros e amortizações, contribuem para a economia global de forma desproporcional. Os recursos que poderiam investir em infraestrutura, educação ou saúde são drenados para pagar débitos.

Crítica a Discursos e Riqueza Concentrada

O presidente criticou discursos que defenderam a desregulamentação de mercados, o Estado mínimo e a austeridade como “fins em si mesmos”. Agora, vê o ressurgimento do protecionismo e do unilateralismo como “respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”.

Essa mudança de narrativa, de uma liberalização global para um fechamento de fronteiras econômicas, mostra uma incoerência das potências mundiais na busca por soluções consistentes.

Lula ilustrou a concentração de riqueza sem citar nomes, mas referiu-se ao primeiro trilionário do mundo – uma alusão a Elon Musk. O indivíduo, pontuou, é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. Uma única pessoa detém mais fortuna que quase metade da população global.

“Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma assimétrica”, repetiu. A mensagem ressoa com a percepção de que o modelo econômico atual não serve à maioria.

A Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento apontou a direção correta, segundo Lula. O desafio não é, disse, administrar a escassez de recursos. O déficit que enfrentamos é de implementação e de vontade política.

A solução, portanto, não passaria pela criação de novos fundos ou mecanismos, mas pela aplicação efetiva das propostas já existentes e por um compromisso real dos líderes globais em combater as causas da desigualdade.

Contexto

As cúpulas do G7 (anteriormente G8) reúnem as nações mais industrializadas do mundo, sendo um fórum de debate sobre economia, segurança e política global. A participação de líderes de países em desenvolvimento, como o Brasil, ocorre por convite e busca ampliar a representatividade das discussões. A desigualdade global e a necessidade de financiamento para o desenvolvimento são temas recorrentes, especialmente diante do aumento da concentração de renda e da pressão por respostas coordenadas a crises humanitárias e ambientais. A crítica de Lula alinha-se à posição histórica do Brasil como porta-voz do Sul Global na busca por uma ordem econômica internacional mais equitativa e solidária, ecoando debates sobre a responsabilidade dos países ricos na promoção do desenvolvimento sustentável.

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