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Liquidez: Banco Central age e SINAL acende no mercado HOJE

Mercado Financeiro Global Monitora Turbulência em Fundos de Crédito Privado nos EUA

O mercado financeiro internacional observa atentamente a crescente preocupação em torno de uma possível crise nos fundos de crédito privado direto nos Estados Unidos. Manchetes recentes sugerem que grandes fundos enfrentam dificuldades para realizar resgates e que suas carteiras podem estar à beira do colapso, especialmente devido à exposição ao setor de tecnologia. A principal questão que se levanta é se essa situação representa uma crise sistêmica e se ela pode afetar o mercado brasileiro de alguma forma.

Para Ian Caó, CIO (Chief Investment Officer) da Gama Investimentos, que faz parte do Grupo HMC Capital, o atual estresse no mercado é resultado de uma correção técnica e de fluxo, sem que haja um comprometimento dos fundamentos. Portanto, para ele, não se configura uma crise propriamente dita.

Em entrevista ao InfoMoney, o especialista detalha a complexa dinâmica desse mercado, demonstrando como a mudança na composição dos investidores, o excesso de liquidez e os avanços da inteligência artificial (IA) criaram o cenário propício para as atuais incertezas.

Entenda o Papel Crucial dos BDCs no Mercado Americano

Para compreender a situação atual, é fundamental entender a terminologia utilizada. O conceito de private debt nos Estados Unidos difere do que conhecemos como crédito privado no Brasil. Refere-se a empréstimos concedidos diretamente por gestoras a empresas de médio e grande porte, fora dos balanços dos bancos tradicionais.

Uma parcela significativa desse mercado nos EUA opera por meio de veículos chamados BDCs (Business Development Companies). É crucial entender o que são esses BDCs. Ian Caó explica: “Os BDCs foram criados pelo governo americano com o objetivo de incentivar o financiamento de pequenas e médias empresas. Eles oferecem diversos benefícios fiscais, como a distribuição de 90% dos lucros, mas, em contrapartida, estão sujeitos a um rigoroso escrutínio de governança. Muitos deles são listados em bolsa”.

É neste ponto que reside a origem do ruído recente: os BDCs possuem um valor patrimonial, conhecido como NAV – Net Asset Value (que avalia o valor da carteira de empréstimos), e um preço de tela, que corresponde ao valor pelo qual as cotas são negociadas na Bolsa. Assim como ocorre com os fundos imobiliários no Brasil, esses dois valores podem divergir significativamente quando o mercado entra em pânico.

A Narrativa de um Potencial Colapso do Crédito Privado

O segmento de private debt experimentou um crescimento acelerado na última década, atraindo trilhões de dólares. Antes mesmo do surgimento da atual preocupação, o mercado já operava com spreads (o prêmio de risco) em patamares historicamente baixos. “O mercado já indicava que os spreads estavam comprimidos, refletindo uma intensa competição pelos ativos”, observa Caó.

O gatilho para o recente estresse foi uma narrativa centrada no Vale do Silício. “Esse segmento de private debt possui uma exposição considerável à indústria de software, que varia de 5% a 20% nas carteiras dos grandes fundos. O mercado, ao observar o avanço da inteligência artificial, levantou a seguinte questão: se essas empresas de software, cujos serviços podem ser facilmente substituídos por IA, entrarem em colapso, esses fundos sofrerão perdas significativas”, resume o especialista.

O temor de que a IA pudesse prejudicar as empresas de software que haviam contraído empréstimos desencadeou uma onda de vendas. “Assim, a profecia se torna autorrealizável. O mercado, principalmente o varejo, ao tomar conhecimento dessa história, iniciou uma venda em massa”, relata Caó. A liquidez do mercado foi testada.

Como resultado, as cotas dos BDCs listados sofreram quedas de até 30% na Bolsa. No entanto, o gestor enfatiza que essa queda nos preços reflete um desequilíbrio entre oferta e demanda, e não necessariamente a realidade dos balanços. “No fundo, o fator crucial no crédito é se o devedor irá ou não honrar seus compromissos. Os dados recentes dos fundos indicam que a inadimplência não aumentou. O NAV (valor real da carteira) registrou uma queda de cerca de 1% a 1,5%, enquanto o preço na tela despencou muito mais”, pondera.

Gate não Significa Calote: Entenda a Limitação de Saques

A confusão aumentou quando os fundos Evergreen, fundos fechados que permitem resgates periódicos, começaram a impor limitações aos saques. Muitos investidores, recordando as crises de liquidez ocorridas no Brasil em 2020, interpretaram essa limitação (conhecida como gate) como um sinal de que os fundos estavam à beira da falência. A situação gerou apreensão no mercado.

Caó se mostra enfático ao refutar essa interpretação. O private debt surgiu como um produto institucional, semelhante ao private equity, onde o capital permanece investido por anos para se adequar ao prazo dos empréstimos. Para democratizar o acesso, foram criados os fundos Evergreen, que oferecem liquidez limitada, geralmente em torno de 5% por trimestre.

“O regulamento já estabelece que a liquidez é de 5%. Se um fundo possui uma carteira com duração de dois anos, ele não pode oferecer liquidez diária. Essa limitação existe para proteger o investidor. Caso abram mão dessa limitação, os fundos perdem sua própria identidade”, explica o CIO da Gama.

Quando o receio em relação à indústria de software se intensificou, os pedidos de resgate chegaram a atingir 11%. Em cumprimento à regra preexistente, os fundos ratearam o limite. Por exemplo, um investidor que solicitou o resgate de 100% de seus recursos recebeu 50% no momento e o restante ficou para a próxima janela. “Não se trata de um problema de liquidez ou de preço. Tudo está funcionando adequadamente, mas o mercado se mostra sensível, em especial com a situação dos softwares”, completa.

A Discrepância Entre os Fundamentos e o Preço na Tela

Na avaliação de Ian Caó, a potencial deterioração das métricas devido à Inteligência Artificial “parece bastante exagerada”, e o cenário atual “não configura uma crise sistêmica”. O estresse observado nos preços é, na realidade, uma consequência de se oferecer liquidez a um mercado que historicamente não a possuía.

“Nesse tipo de ativo, não havia acesso a qualquer tipo de liquidez. No momento em que se oferece algum tipo de liquidez, pelo fato de serem ativos listados, o preço desse ativo passa a se comportar de acordo com as narrativas do mercado”, explica o CIO.

Ele conclui ressaltando que “quanto maior a liquidez e a transparência, maior será a reação às narrativas”, mas a regra de ouro do crédito permanece inalterada, independentemente do pânico na Bolsa: no final, o que importa é se os devedores irão ou não honrar seus compromissos. Para o especialista, não há sinais de deterioração significativa que justifiquem os descontos observados no momento.

Contexto

A volatilidade nos mercados de crédito privado, especialmente nos Estados Unidos, gera preocupações globais devido à interconexão dos sistemas financeiros. Mudanças nas taxas de juros, avanços tecnológicos como a Inteligência Artificial e a percepção de risco dos investidores podem desencadear movimentos bruscos, impactando desde pequenas empresas até grandes corporações e, potencialmente, afetando a estabilidade econômica de diferentes países, incluindo o Brasil.

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