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Folha Jundiaiense

Juro alto sufoca indústria e impede inovação, afirmam economistas.

Juros Altos Estrangulam Indústria de Transformação Brasileira e Freiam Inovação

Com a taxa Selic fixada em 14,25% ao ano, o Brasil solidifica sua posição no ranking global dos países com os mais altos juros reais. O índice de 9,67% reflete diretamente no encarecimento do crédito, impõe um freio rigoroso ao impulso produtivo e representa um gargalo significativo para a indústria de transformação, setor vital para a inovação e competitividade nacional. Esta política monetária restritiva, em vigor há um período considerável, desestimula investimentos e compromete o futuro da manufatura brasileira.

O custo elevado do dinheiro afeta a capacidade das empresas de se modernizarem, expandirem e competirem no cenário internacional. A indústria, que já enfrenta desafios estruturais crônicos, vê sua margem de lucro corroída, enquanto o capital parado em aplicações financeiras se mostra mais atrativo que o risco inerente à produção. Este cenário agrava a tendência de desindustrialização, comprometendo a geração de empregos qualificados e o desenvolvimento tecnológico do país.

Desindustrialização Acelerada: O Declínio da Participação no PIB

Os números recentes revelam uma perda estrutural contínua da importância da indústria de transformação na economia brasileira. De acordo com dados setoriais da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a participação deste setor no Produto Interno Bruto (PIB) despencou drasticamente. Em 1985, a indústria de transformação respondia por 35,9% do PIB, um patamar que indicava uma economia robusta e diversificada.

Entretanto, essa relevância diminuiu progressivamente. Em 2023, a participação já havia caído para 15,2% do PIB, e os dados mais recentes da CNI apontam para um patamar ainda mais baixo em 2024, chegando a apenas 10,8%. Essa queda superior a 25 pontos percentuais em menos de quatro décadas sinaliza uma desindustrialização acelerada, com impactos profundos na capacidade de geração de riqueza, no mercado de trabalho e na autonomia tecnológica do país.

No panorama global, a presença industrial do Brasil também encolhe ano após ano. Atualmente, o país ocupa o 15º lugar entre as maiores indústrias de transformação, sendo responsável por apenas 1,28% da produção mundial. Este índice está distante do pico de 2,77% alcançado em 1995, um período em que o Brasil detinha uma posição mais expressiva. Para contextualizar, o topo do ranking global é dominado pela China, que concentra 30,45% da produção mundial, seguida pelos Estados Unidos (16,76%) e pelo Japão (4,76%). A distância para os líderes evidencia a perda de competitividade e a urgência de políticas de fomento.

Investimento Produtivo Trava com Custo do Crédito Elevado

A política de juros altos não apenas eleva o custo da dívida pública, mas também afasta o investimento privado no setor produtivo, minando a confiança empresarial. Especialistas do setor apontam que essa equação dificulta a expansão de empresas e a captação de recursos, cruciais para a modernização e a competitividade.

Beny Fard, economista e sócio da B8 Partners, sublinha a dificuldade de atrair investimentos quando a rentabilidade da operação fabril se torna inferior ou similar ao rendimento do mercado financeiro. “Se você fizer uma análise de uma indústria que tem um Ebitda na casa dos 15% e você tem o dinheiro jogando parado a 14%, o índice de confiança do industrial fica irrisório. Ele prefere não reinvestir”, afirma Fard, referindo-se aos Lucros antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização.

A consequência direta dessa asfixia financeira reflete-se no aumento dos pedidos de recuperação judicial. Empresas buscam renegociar e alongar suas dívidas em um ambiente onde as instituições financeiras intensificaram o rigor para conceder crédito. O acesso ao capital, que já era um desafio, torna-se ainda mais complicado para a indústria.

Beny Fard detalha que os bancos exigem hoje garantias reais equivalentes a até 110% do valor dos empréstimos. Essa prática praticamente aboliu as operações baseadas apenas no clássico “aval”, quando bancos concediam crédito às indústrias pautados na confiança e no relacionamento, sem demandar ativos físicos como imóveis ou maquinários. Com o aumento do risco de inadimplência, essa flexibilidade desapareceu, limitando ainda mais o financiamento para as empresas.

Como reflexo da escassez de liquidez no mercado de crédito tradicional, Fard observa uma explosão dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil. Esses veículos são amplamente utilizados pelas empresas para antecipar recebíveis, transformando vendas a prazo em dinheiro imediato. “Você realiza caixa daquilo que seria sustentar o seu futuro”, explica o economista, ressaltando o nível de estrangulamento do setor produtivo, que recorre a essa ferramenta mesmo sabendo que compromete o fluxo de caixa futuro.

O Freio no Consumo e na Modernização da Produção

A política monetária restritiva atinge a indústria em duas frentes simultâneas e igualmente prejudiciais. Stefano Pacini, economista da Fundação Getulio Vargas – Instituto Brasileiro de Economia (FGV Ibre), explica que, de um lado, ela desestimula o consumidor, que adia compras a prazo de bens duráveis devido ao alto custo do financiamento. De outro, paralisa o produtor, que opta por postergar a substituição de maquinários, a renovação de frotas e a modernização tecnológica, essenciais para manter a competitividade.

Pacini detalha que as categorias de bens de consumo duráveis, semiduráveis e não duráveis são as mais impactadas, por serem altamente sensíveis ao encarecimento do crédito. Além de perder vendas, o cenário obriga a indústria a acumular produtos parados, gerando excesso de estoque. “Se a empresa tem dificuldade de produzir e vender, ela vai acabar com maior estoque”, alerta o economista, o que imobiliza capital e pode levar a demissões ou redução da produção.

“O investimento produtivo é muito afetado pela taxa de juros mais alta”, pontua Pacini. Ele lembra que a indústria nacional atua majoritariamente para atender à demanda interna e possui baixa competitividade externa, com raras exceções como a Embraer, o agronegócio e o setor de celulose e embalagens, que conseguem se destacar. Mesmo em cadeias fortes no mercado interno, como a farmacêutica, a dependência estrangeira é considerável, chegando o setor a importar mais de 80% dos insumos necessários para a produção local, o que demonstra a fragilidade da cadeia produtiva.

Inovação e P&D Asfixiados pela Falta de Recursos

A paralisação dos investimentos corporativos tem uma consequência direta e severa sobre a pesquisa tecnológica e o desenvolvimento (P&D) do país. Historicamente, a indústria de transformação atua como o principal motor da tecnologia aplicada no Brasil, concentrando 62,4% de todo o investimento empresarial em pesquisa e desenvolvimento, conforme dados da CNI. Setores como o de veículos automotores (18%) e o químico (16,5%) lideram esse esforço nacional, mas também sentem o impacto do crédito caro.

Contudo, a taxa de investimento do país, travada em meros 16,8% do PIB, fica muito aquém de potências emergentes como China e Índia, que superam os 30%. Essa disparidade indica que o Brasil não destina recursos suficientes para áreas vitais, e a inovação não encontra o ambiente propício para florescer, gerando um atraso tecnológico que compromete o futuro da economia.

A disparidade nas prioridades macroeconômicas brasileiras agrava o quadro, como ressalta o empresário e educador Tiago Zanolla. O país destina quase R$ 1 trilhão para pagar juros da dívida pública, o equivalente a cerca de 8% do PIB. Em contrapartida, apenas 1,19% do PIB é investido no desenvolvimento de pesquisa científica. Essa discrepância colossal representa um custo de oportunidade gigantesco para o avanço tecnológico e social.

“Juro alto não encarece só o crédito. Ele é o imposto invisível sobre a inovação. Quem lidera a economia do conhecimento tratou a universidade como motor de desenvolvimento, não como despesa”, afirma Zanolla, criticando a falta de prioridade para áreas essenciais ao progresso.

O enfraquecimento contínuo do parque fabril e a falta de investimento em P&D afetam até mesmo o ecossistema acadêmico. O Brasil registrou um dos piores desempenhos entre os grandes sistemas de ensino superior do mundo no ranking Global 2000 de 2026, divulgado pelo Centro para Rankings Universitários Mundiais (CWUR). Das 52 universidades brasileiras avaliadas, 45 perderam posições em relação ao ano anterior, o que equivale a 87% das instituições do país presentes na lista. Apenas cinco avançaram e duas permaneceram estáveis, revelando a fragilidade da pesquisa nacional.

Esse quadro gera um ciclo vicioso: as universidades sofrem com orçamentos apertados, a indústria retraída compra menos soluções inovadoras, e os talentos ficam sem espaço para produzir e pesquisar. “Hoje existe uma concorrência mundial por cérebros. Universidades e centros de pesquisa de diversos países oferecem infraestrutura, remuneração e condições de trabalho muito superiores. Quando o pesquisador brasileiro encontra mais oportunidades fora do país, o sistema inteiro perde capacidade de produzir conhecimento”, afirma Zanolla, destacando a preocupante “fuga de cérebros”.

Gargalos Crônicos e o Preço do Protecionismo

Além da conjuntura econômica atual, a indústria brasileira enfrenta gargalos históricos que prejudicam cronicamente sua operação produtiva. Beny Fard ressalta que problemas como a infraestrutura logística e portuária deficitária, a complexidade e o alto custo do acesso à energia, a baixa produtividade da mão de obra e um forte protecionismo estatal, contribuem para um ambiente de negócios desafiador e limitam o crescimento.

“O Brasil é um dos países que mais tem barreiras de entrada em termos de proteção à sua indústria, o que nos faz perder competitividade”, pondera Fard. Embora o protecionismo busque resguardar o mercado interno, ele acaba por isolar a indústria nacional, dificultando sua modernização e a capacidade de enfrentar a concorrência global, perpetuando o ciclo de baixa eficiência.

Mercado Externo: A Rota para a Sobrevivência e o Crescimento

Diante do cenário de sufocamento do mercado doméstico e dos entraves estruturais, a saída para a sobrevivência e o crescimento do parque industrial brasileiro, segundo os especialistas, reside no mercado externo. Adotar uma visão de longo prazo para aproveitar o atual rearranjo global, especialmente o fenômeno do nearshoring (relocalização de cadeias de produção para países próximos), pode ser estratégico.

O foco nas exportações de itens com valor agregado permitiria à indústria de transformação diminuir a dependência de um mercado interno asfixiado pelas taxas restritivas e pela baixa demanda. Essa estratégia envolve investimentos em modernização e inovação para que os produtos brasileiros sejam competitivos internacionalmente.

Beny Fard avalia que as disputas geopolíticas e o fim da globalização pacífica abriram uma janela de oportunidade fantástica para o Brasil. “Nós não somos alinhados a conflitos, nós somos uma democracia e nós temos recursos naturais e indústria manufatureira pronta para atender o mundo”, afirma o sócio da B8 Partners. Ele ressalta que, com acordos recentes como o do Mercosul com a União Europeia, o país precisa decidir se será um protagonista global ou se continuará sufocado pelas próprias regras e taxas, perdendo uma chance única de reposicionar sua indústria.

Contexto

A discussão sobre a desindustrialização brasileira e seus impactos na economia e na inovação não é nova, mas ganha urgência com a elevação dos juros e a perda contínua de participação da indústria no PIB. Historicamente, a manufatura desempenhou um papel crucial no desenvolvimento socioeconômico do país, impulsionando a geração de empregos, a formação de capital humano e o avanço tecnológico. Contudo, a persistência de altas taxas de juros, somada a problemas estruturais, tem colocado o setor em um ciclo de retração, ameaçando a capacidade do Brasil de competir em uma economia global cada vez mais baseada no conhecimento e na tecnologia.

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