A uva que adoça a mesa, as hortaliças que garantem uma refeição nutritiva, as flores que enfeitam lares e celebrações. Tudo isso, em Jundiaí, começa bem antes do sol nascer, impulsionado por mãos calejadas e uma dedicação que desafia o tempo.
Neste 28 de julho, Dia do Agricultor, o trabalho árduo no campo revela muito mais que produção: ele tece a história, sustenta a economia local e preserva um legado cultural profundamente enraizado na identidade da “Terra da Uva”, moldando o futuro da região a cada safra.
O Pulsar da Economia no Coração do Campo Jundiaiense
Enquanto a maior parte da população inicia o dia, centenas de produtores rurais em Jundiaí já estão imersos em suas atividades. Eles enfrentam as intempéries do clima — do frio cortante ao sol a pino — garantindo a chegada de alimentos frescos e de qualidade às mesas.
O esforço diário desses homens e mulheres do campo faz de Jundiaí um exemplo de força agrícola. São mais de 190 quilômetros quadrados de áreas cultivadas e cerca de mil propriedades rurais ativas, a maioria delas de caráter familiar.
Essa estrutura contribui significativamente para o Produto Interno Bruto (PIB) do município, além de gerar milhares de empregos diretos e indiretos. O campo jundiaiense é um motor que não para, movimentando diversos setores da economia local.
Para Sérgio Pompermayer, diretor de Agronegócio da Unidade de Agronegócio, Abastecimento e Turismo, cada cultivador é uma peça fundamental na identidade da cidade. “O agricultor é protagonista do desenvolvimento de Jundiaí, preservando tradições e garantindo a mesa farta”, destaca.
Ele acrescenta que valorizar quem vive da terra é reconhecer um trabalho que demanda dedicação ininterrupta, um pilar da identidade local.
Impacto na região
A vocação agrícola de Jundiaí não beneficia apenas os produtores, mas alcança diretamente cada morador da região. O abastecimento regular de mercados e feiras com produtos frescos e diversificados, como uvas, hortaliças e flores, é um reflexo direto dessa intensa atividade.
Além da oferta de alimentos, a preservação das áreas rurais e a manutenção de um cinturão verde contribuem para a qualidade de vida. O turismo rural, impulsionado pelas propriedades e vinícolas, atrai visitantes, gerando renda extra e valorizando a cultura local.
As famílias da região têm acesso a uma alimentação mais saudável e a oportunidades de lazer que resgatam as tradições do campo. Esse vínculo entre o urbano e o rural assegura um desenvolvimento mais equilibrado para Jundiaí e seus arredores.
Tradição que Floresce: Histórias de Dedicação e Inovação
No bairro do Traviú, Anderson Tomasetto representa a quarta geração de uma família dedicada ao cultivo da uva. Para ele, o trabalho na propriedade transcende a mera ocupação profissional, transformando-se em uma herança afetiva.
“Desde pequeno eu ajudava no sítio. A gente cresce, assume responsabilidades e percebe que essa paixão já faz parte da vida”, revela Tomasetto, destacando que “trabalhar com uva está no sangue. A primeira coisa é gostar do que faz”.
Essa profunda conexão com a terra foi a mesma que impulsionou Guilherme Lourençon a uma mudança radical. Após 12 anos no comércio exterior, ele decidiu retornar à propriedade familiar em 2019, garantindo a continuidade de um legado que sustentou várias gerações.
Guilherme não apenas modernizou a gestão da produção e buscou novos mercados, mas também investiu em técnicas avançadas de cultivo. Ele viu uma oportunidade de agregar valor, produzindo suco de uva artesanal.
O produto hoje conquista consumidores por preservar a essência da uva Niagara, símbolo da região. “O sítio sustentou nossa família por toda a vida. Voltei porque não queria deixar essa história acabar”, afirma Lourençon.
Ele enfatiza a busca por inovação, mas sempre mantendo a essência do que foi aprendido com pais e avós. A sabedoria ancestral é o alicerce para as novas práticas que impulsionam o agronegócio familiar.
Desafios Diários: A Luta Constante pela Terra e Pela Mesa
A vida no campo exige muito mais que conhecimento técnico; ela demanda uma resiliência singular. Condições climáticas adversas, a ameaça de pragas, a escassez de mão de obra qualificada e as oscilações do mercado são parte integrante do cotidiano dos produtores rurais.
Há mais de três décadas, Sônia Ditti Frigeri se dedica à produção de flores e plantas ornamentais em sua propriedade no Champirra. Ela emprega cerca de 12 colaboradores e exporta milhares de plantas para diversos estados e países da América Latina, enfrentando desafios a cada ciclo.
“A gente está sempre olhando para o céu. Se venta demais, rasga a estufa; se chove demais, prejudica; se faz muito calor ou geada, também”, desabafa a produtora. Ela reconhece as dificuldades, mas não esconde a paixão.
“Trabalhar com a natureza é apaixonante. Ver uma planta crescer e depois fazer parte de um momento especial na vida das pessoas é muito gratificante”, descreve Sônia, que encontra na beleza das flores a força para continuar.
Paulo Castro, cultivador de hortaliças e uvas há mais de 30 anos, ecoa essa realidade. Sua horta é um mosaico de produtos frescos, destinados às feiras da região.
“O trabalho começa cedo, depende do clima e cada colheita traz um novo desafio. A gente trabalha com muito prazer, mas também precisa que a atividade seja rentável para continuar produzindo”, ressalta Castro, apontando a necessidade de equilíbrio.
Um Legado que Alimenta o Amanhã
A agricultura em Jundiaí transcende a simples produção de alimentos. O setor evoluiu de uma base familiar e tradicional para um modelo que incorpora inovação, ao mesmo tempo em que preserva métodos ancestrais e a identidade cultural da cidade.
Inicialmente focada na uva Niagara, a região diversificou sua produção ao longo das décadas, incorporando hortaliças, flores e vinhos artesanais. Essa expansão garantiu não apenas a sobrevivência, mas o fortalecimento do agronegócio local diante de novos cenários econômicos e climáticos.
A importância do campo hoje vai muito além de seu valor econômico direto. Ele representa um contraponto crucial ao avanço urbano, oferecendo pulmões verdes, roteiros de turismo sustentável e um elo vital com as raízes históricas e culturais de Jundiaí.
É o guardião de um estilo de vida, de sabores autênticos e de uma paisagem que define a alma da cidade. Em um mundo cada vez mais globalizado, a produção local e a tradição familiar tornam-se ativos valiosos, garantindo a autonomia alimentar e a singularidade da região.
Este compromisso com a terra garante não apenas a oferta de produtos frescos e a vitalidade econômica, mas também um futuro em que a herança do campo continua a inspirar e sustentar as novas gerações, reafirmando o valor inestimável de quem cultiva a vida em Jundiaí.