Na disputa diária por uma alimentação mais equilibrada, o desafio de convencer as crianças a optarem por vegetais frescos parece uma batalha perdida em muitos lares. Contudo, um modelo inovador tem transformado a hora da refeição nas escolas de Jundiaí em um verdadeiro laboratório de autonomia e aprendizado.
A data de 16 de outubro, Dia Mundial da Alimentação, tradicionalmente convida à reflexão sobre a importância de escolhas nutricionais conscientes. Na cidade paulista, essa discussão vai além, virando prática diária nas escolas municipais, onde cardápios balanceados são apenas o ponto de partida de uma jornada pedagógica completa.
Autonomia à Mesa: Quando a Refeição Vira Lição
Em Jundiaí, a refeição escolar transcende o mero ato de nutrir. Os cardápios, cuidadosamente elaborados por nutricionistas, seguem as rigorosas diretrizes do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), priorizando sempre os alimentos in natura e minimamente processados.
Para a Primeiríssima Infância, a abordagem é ainda mais específica. O foco reside em estimular o consumo de frutas e introduzir uma gama variada de novos sabores, sempre respeitando as necessidades nutricionais particulares de cada fase do desenvolvimento infantil.
Ellen Lucas Rozante, diretora do Departamento de Educação Infantil da Secretaria Municipal de Educação (SME), pontua uma verdade fundamental. “É na infância que a gente aprende a comer. E a criança aprende pelo exemplo”, afirma.
Ela complementa: “Nas nossas escolas, as crianças se servem sozinhas: olham, escolhem, experimentam. E quando acompanham o alimento crescendo, o prato ganha outro sentido, elas querem provar aquilo que ajudaram a cuidar.”
A Ciência no Garfo: Do Plantio ao Paladar
A experiência se aprofunda quando o alimento não chega apenas à mesa, mas brota da própria terra da escola. Marina Formis de Oliveira, supervisora de Sustentabilidade da SME, revela um diferencial da rede de ensino.
“Em Jundiaí, toda escola municipal tem horta. Hoje são mais de 87 em funcionamento, grandes ou pequenas, mas vivas no dia a dia”, explica Marina. Nessas hortas, os pequenos cultivam, regam e observam o crescimento das plantas.
A interação com o cultivo transforma matérias como ciência, matemática e linguagem em experiências táteis e olfativas. A horta ensina, acima de tudo, o cuidado com a terra, o próprio corpo e os semelhantes, criando uma conexão profunda com o ciclo da vida.
O Campo Urbano que Alimenta: Hortas Orgânicas no Coração da Cidade
Parte essencial dos alimentos frescos que compõem as refeições escolares provém da Horta Vale Verde, uma iniciativa local que abastece a rede municipal. Este projeto cultivou e forneceu mais de 120 mil maços e pés de alimentos em 2025.
Com 26 variedades distintas, todos os produtos são cultivados de forma orgânica, sem o uso de agrotóxicos ou adubos químicos, dentro dos limites do município. Entre os itens mais fornecidos, destacam-se os cerca de 30 mil pés de alface e 19 mil maços de cheiro-verde.
O Vale Verde também introduziu quase 15 mil maços de Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs) e ervas aromáticas. Espécies como azedinha, ora-pro-nóbis e vinagreira ampliam o paladar e o repertório nutricional das crianças, mostrando a riqueza da biodiversidade local.
Impacto na região
Para os moradores de Jundiaí e cidades vizinhas, a iniciativa nas escolas representa um avanço significativo. Crianças que aprendem a valorizar alimentos orgânicos e a entender o processo de cultivo se tornam embaixadoras de hábitos saudáveis em suas casas e comunidades. A existência de uma horta orgânica municipal como o Vale Verde significa não apenas a garantia de comida de qualidade para milhares de estudantes, mas também o fomento à agricultura sustentável dentro da própria cidade.
Este modelo cria uma demanda por alimentos frescos e sem agrotóxicos, incentivando produtores locais e fortalecendo a economia regional. Além disso, a educação ambiental transmitida nas hortas escolares gera uma consciência coletiva sobre a importância da preservação e da nutrição, cujos benefícios se estendem para toda a família e para o futuro da região.
Nívea Cristina Maeda Takemoto, nutricionista da Diretoria de Alimentação e Nutrição (DAN) da SME, enfatiza a relevância dessa conexão. “Ter uma horta orgânica produzindo para a merenda é um privilégio e uma riqueza nutricional”, afirma.
A profissional destaca que alface, rúcula e outras folhagens chegam frescas às creches, preservando sabor e nutrientes. “E ainda temos as PANCs, como a ora-pro-nóbis e a vinagreira, verdadeiros tesouros nutricionais que ampliam o repertório das crianças”, conclui.
Um Olhar para o Amanhã: A Revolução na Mesa Escolar
O cenário da alimentação escolar no Brasil, por muito tempo, foi marcado por desafios que iam da falta de qualidade nutricional à dificuldade de logística. O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), em sua jornada, buscou padronizar e qualificar as refeições oferecidas, mas a integração de práticas pedagógicas ainda é um caminho em construção para muitas cidades.
Historicamente, a merenda era vista como um complemento alimentar, um alívio à fome. Com o tempo, a percepção evoluiu para o reconhecimento do papel fundamental da nutrição na aprendizagem e no desenvolvimento infantil. Contudo, a simples oferta de alimentos saudáveis nem sempre se traduz em aceitação pelas crianças, um desafio constante para pais e educadores.
É nesse contexto que a iniciativa de Jundiaí se destaca, transformando um serviço essencial em uma ferramenta educacional poderosa. Ao envolver as crianças desde o plantio até a escolha dos alimentos, a cidade não apenas garante refeições diárias nutritivas, mas também combate a seletividade alimentar e forma cidadãos mais conscientes.
Este modelo vai além da bandeja. Ele estabelece uma ponte entre saúde, educação e preservação ambiental, elementos cruciais para a formação de uma geração mais engajada e com escolhas de vida mais ponderadas. O que se observa em Jundiaí é um investimento no futuro, através do que as crianças colocam no prato hoje.



