A trajetória de um evangelista iraniano: da mesquita à fé cristã e fuga do Irã
O reverendo Shah Ahmadi, hoje um influente evangelista, pastor e diretor de alianças estratégicas do Iran Alive Ministries, viveu sob o rigoroso regime do Irã por 22 anos. Sua história, marcada por fé, perseguição e uma dramática fuga, revela as duras realidades enfrentadas por minorias religiosas no país.
Em entrevista exclusiva à CBN News, Ahmadi compartilha detalhes de sua infância, a crescente repressão que o forçou a deixar o Irã e sua eventual conversão ao cristianismo nos Estados Unidos. Sua jornada é um testemunho de resiliência e fé inabalável.
Infância e a Imposição do Islã
A educação religiosa de Ahmadi começou cedo. “Quando eu tinha 8 anos, meu pai me levou à mesquita para aprender sobre o Islã”, relata. A religião islâmica era a única permitida no Irã. Seu pai, outrora um muçulmano fervoroso, tornou-se cristão mais tarde.
Aos 13 anos, Ahmadi já havia memorizado o Alcorão, demonstrando um profundo comprometimento com a fé islâmica. Anos depois, ele se formaria em engenharia de agrimensura, alcançando sucesso profissional e prestígio no Irã. Este sucesso, contudo, seria ameaçado.
A Perseguição e a Decisão de Fugir
A vida de Ahmadi toma um rumo inesperado quando, trabalhando em uma fábrica petroquímica, ele se torna alvo de investigação pelo governo iraniano. A suspeita recai sobre ele após supostamente ter testemunhado atividades governamentais sigilosas. Interrogatórios e acusações de ligações com Israel ou os Estados Unidos se tornam frequentes.
“Nós negamos qualquer envolvimento”, lembra Ahmadi. Rapidamente, a situação se agrava, e ele recebe um aviso sombrio: se não fugir do país, será morto. A urgência da situação o impede de se despedir da família. “Não pude dizer ‘adeus’ à minha família, à minha mãe e ao meu pai, e essa foi a parte mais difícil da minha vida”, desabafa.
A fuga arriscada pela fronteira
A fuga de Ahmadi do Irã é repleta de perigo. “Tive que fugir ilegalmente do Irã porque, se eu atravessasse a fronteira, eles me prenderiam”, explica. Em pleno inverno, ele enfrenta a difícil travessia das montanhas que separam o Irã da Turquia. A região é coberta de neve, aumentando ainda mais o risco.
“Essa foi a parte mais difícil da minha vida”, afirma. “Eu estava correndo para salvar minha vida, tomado pelo medo, e não sabia se ia morrer. Eu não conhecia a região.”
Buscando refúgio na Turquia e o Desencanto
Ao chegar à Turquia, Ahmadi se depara com outro desafio: descobrir em quem confiar. Com relatos de agentes iranianos operando no país, a paranoia e a desconfiança se instalam. Ele se sente perdido e desiludido.
“Foi aí que comecei a beber e fumar, porque observei o mundo, como as pessoas encontravam satisfação, como superavam a dor e a perda que eu havia sofrido”, relata. A fé islâmica, antes sua bússola, já não o confortava. “Deus — o Islã — não me respondeu”, lamenta.
As orações e o jejum, pilares da tradição islâmica, se mostram ineficazes para aliviar sua angústia. A busca por alívio o leva à Inglaterra, onde ele se entrega a uma vida de festas e gratificação pessoal, na tentativa de preencher o vazio deixado pela perda e pelo medo.
O encontro com o Evangelho e a conversão
A vida de Ahmadi muda drasticamente quando ele é apresentado à mensagem do Evangelho. Um encontro fortuito se torna um divisor de águas em sua jornada espiritual.
“Alguém se aproximou de mim com palavras simples e disse: ‘Você sabe que Jesus te ama?'”, recorda. Ahmadi se sentia um pecador, culpado por seus excessos. “No Islã, se você faz o bem, Deus te ama. Se você faz o mal, Deus te odeia”, explica. O conceito de um amor incondicional era novo para ele.
A mensagem que ele ouve sobre Jesus é diferente de tudo que ele conhecia. “Ele disse: ‘Venham a Ele como vocês são. Ele os ama como vocês são. Ele os purificará'”, relembra Ahmadi. A ideia de ser aceito e amado incondicionalmente começa a transformar sua visão de mundo.
Transformação e uma nova fé
Após frequentar cultos religiosos, Ahmadi sente uma profunda transformação. “Deus tocou meu coração”, afirma. “A paz que recebi foi algo que nunca havia sentido antes.” Ele descreve a experiência como uma “chuva” da presença de Deus, inundando-o da cabeça aos pés.
A busca por confirmação o leva a um momento decisivo. “Perguntei a Deus: ‘Poderia me mostrar novamente se este é o Senhor?'” A resposta, segundo ele, foi imediata e poderosa. “Eu chorava e soluçava como um bebê. E a partir desse momento, minha vida começou a mudar.”
Ahmadi dedica oito meses à comparação minuciosa entre a Bíblia e o Alcorão, buscando compreender as diferenças e semelhanças entre as duas religiões. Este período de estudo aprofunda sua fé e convicção.
A fé cristã e a perseguição religiosa no Irã
Estar fora do Irã permite que Ahmadi abrace o cristianismo com maior liberdade. Após sua conversão, ele compreende os riscos inerentes à fé cristã, especialmente para aqueles que vivem em países onde ela é reprimida. “As pessoas que abraçam o Evangelho devem estar prontas para tomar a sua cruz”, adverte, referindo-se à perseguição que frequentemente se segue.
A conversão de Ahmadi tem um impacto surpreendente em sua família. “Um por um, eles se converteram a Cristo”, revela. “Oito membros da minha família se converteram por meio de sonhos e visões; Jesus apareceu para eles no Irã, em diferentes épocas.”
A família e a fé: um laço fortalecido pela adversidade
Em 2016, Ahmadi leva sua mãe, seu pai e mais 20 membros da família para a Turquia. Um momento marcante ocorre quando seu pai ouve o testemunho de um americano sobre perdoar o motorista bêbado que matou seu filho. “Meu pai estava chorando muito. Ele deu a vida lá”, conta Ahmadi, emocionado.
Apesar da oposição inicial de alguns familiares às suas novas crenças, Ahmadi agora tem 32 familiares que fazem parte da igreja clandestina no Irã. Essa devoção, segundo ele, exige coragem e fé inabalável, pois os riscos são enormes.
Os perigos de ser cristão no Irã
Ahmadi enfatiza a severidade da perseguição religiosa no Irã. “Se eles frequentam a igreja doméstica, podem acabar de 5 a 10 anos de prisão”, adverte. “Se forem batizados, vão para a prisão por 12 a 13 anos. Se batizarem alguém, meu Deus, isso também vai para a prisão.”
Tornar-se cristão no Irã pode ter consequências devastadoras, especialmente para pastores e líderes religiosos, que são alvos prioritários do governo. A evangelização e a conversão de outros ao cristianismo são crimes severamente punidos.
Contexto
A perseguição religiosa no Irã é um problema persistente e grave, com cristãos, baháʼís e outras minorias religiosas enfrentando discriminação, assédio e prisão. O governo iraniano impõe uma interpretação rigorosa da lei islâmica, restringindo severamente a liberdade religiosa e punindo aqueles que praticam religiões diferentes do Islã. A história de Shah Ahmadi ilustra os riscos e desafios enfrentados por aqueles que buscam seguir sua fé no Irã, destacando a importância da liberdade religiosa e da defesa dos direitos das minorias religiosas em todo o mundo.