Irã Rejeita Negociações com EUA e Cita Pressão Popular, Diz Embaixador
O embaixador do Irã no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, declara que a população iraniana pressiona o governo a rejeitar promessas de negociação dos Estados Unidos (EUA). Em entrevista exclusiva, o embaixador critica a postura do presidente americano e a percepção de diálogo entre as nações.
Críticas à Postura de Donald Trump e a “Ilusão” de Negociação
Segundo Ghadiri, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, está “dialogando com ele mesmo”. O embaixador afirma que essa “ilusão” de negociação entre Irã e EUA se tornou uma “piada mundial”. A declaração surge em um momento de tensões elevadas e acusações mútuas entre os países.
Donald Trump reafirmou a existência de negociações com um “novo regime” no Irã. O presidente americano também renova as ameaças de ataques à infraestrutura de energia elétrica e de petróleo iraniana. Essa ameaça, segundo Trump, seria concretizada caso Teerã não reabra o Estreito de Ormuz. O estreito é uma via marítima crucial para o transporte de petróleo.
A Pressão Interna no Irã Contra Negociações
Ghadiri enfatiza que a opinião pública iraniana exerce forte pressão sobre o governo. “A opinião pública no Irã está pressionando seriamente o governo iraniano e o instando a não se deixar enganar pelas negociações da outra parte”, afirma o embaixador.
Sucessão de Liderança Após a Morte de Ali Khamenei
Após a morte do líder supremo Ali Khamenei, em fevereiro, seu filho, Seyyed Mojtaba Khamenei, assumiu a liderança do Irã. Além do Executivo, do Parlamento e do Judiciário, a estrutura de poder iraniana conta com o Conselho dos Guardiões. Seis membros do conselho são indicados pelo próprio Aiatolá Khamenei e seis pelo Parlamento.
O Irã e os Grupos do “Eixo da Resistência”
O diplomata questiona a tese de que grupos como o Hezbollah, no Líbano, e os Houthis, no Iêmen, seriam “proxies” do Irã. O termo “proxy” é usado quando um grupo age em nome de um Estado ou entidade.
A Visão Iraniana sobre o Conflito e as Negociações
Em entrevista à Agência Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri detalha a visão do Irã sobre o atual cenário de conflito e as possibilidades de negociação com os Estados Unidos.
O embaixador relata que em junho de 2025, durante negociações com os EUA, o Irã foi atacado. “Em junho de 2025, quando estávamos no meio das negociações com os Estados Unidos (EUA), fomos atacados e aconteceu a guerra de 12 dias”, relembra.
Ele também menciona um segundo ataque ocorrido durante negociações mediadas por Omã. “Essa segunda vez foi também durante negociações com a mediação do Omã. As duas delegações estavam prestes a fazer negociações mais detalhadas, porém o Irã foi atacado dois dias antes, novamente no meio da reta final das negociações”, completa Ghadiri.
O embaixador critica o ciclo de “guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra” e afirma que o Irã não aceitará essa lógica. “De certa forma, essas duas guerras mostram que o outro lado busca um círculo composto por guerra, cessar-fogo, negociação e novamente guerra. Não devemos aceitar essa lógica. Nenhum país independente do mundo aceitaria esse circuito: negociação-cessar-fogo-guerra”, enfatiza.
Ele argumenta que a resposta iraniana à agressão sofrida deve ser firme para evitar a repetição de tais ações. “Desta vez, com nossa determinação, chegamos a uma conclusão que, devido à agressão que sofremos, agressão criminosa, devemos ter uma resposta para que o agressor deixe de repetir essas ações”, declara o diplomata.
Ghadiri reitera a pressão interna para que o governo não confie nas negociações com os EUA. “A opinião pública no Irã está pressionando seriamente o governo iraniano e o instando a não se deixar enganar pelas negociações da outra parte”, conclui.
O embaixador ironiza a postura de Donald Trump em relação às negociações. “Diariamente, o senhor Trump está negociando consigo mesmo e pensa que está negociando conosco. Essa ilusão tornou-se tão explícita, tão clara, que virou piada mundial”, finaliza.
Danos Causados a Israel e Princípios Militares Iranianos
O embaixador Abdollah Nekounam Ghadiri comenta sobre a extensão dos danos infligidos a Israel. Ele afirma que o regime sionista foi significativamente danificado. Ele garante que as ações militares iranianas seguem padrões de caráter e religiosos.
Ghadiri relembra a guerra de oito anos entre Irã e Iraque. “Tivemos uma guerra de oito anos entre Saddam Hussein e o Irã. A face da guerra era Saddam Hussein, mas por trás quem apoiava era o Ocidente e também uma parte do Oriente. Saddam Hussein usava armamentos ilegais, até armas químicas, que empresas alemãs, na época, forneciam para ele”, detalha.
Ele destaca que, mesmo sob ataque com armas químicas, o líder religioso do Irã proibiu a retaliação com armamentos similares. “Mas, mesmo sendo atacados com armamentos químicos, o líder supremo religioso do Irã na época não permitia que os setores militares usassem a reciprocidade, ou seja, retaliar e responder com armamentos químicos ou que resultavam em massacres da população civil ou do meio ambiente”, explica.
O embaixador enfatiza que os princípios humanos e religiosos guiam as ações do Irã. “Esses são os princípios humanos, princípios de caráter e princípios religiosos, em que nós nos baseamos. Neste caso, podemos dizer que nossos inimigos são muito sortudos”, afirma.
Ele argumenta que a resposta iraniana é controlada, mas poderosa. “Por isso, nós respondemos de forma controlada. Mas nossas respostas são poderosas e danificam muito o inimigo. Por isso, nossos inimigos censuram as informações e não mostram nossas poderosas respostas”, conclui.
Ataques a Universidades e o Desprezo pela Ciência
O embaixador comenta sobre os ataques dos EUA e Israel a universidades no Irã. Os países alegam que elas são usadas para atividades de defesa. Para Ghadiri, a ação demonstra desprezo pela ciência.
Ghadiri destaca a história da Universidade Jodhichapur, fundada no Irã há milhares de anos. “Nós fundamos a Universidade Jodhichapur, que é a primeira universidade no mundo que se aproxima do formato universitário dos dias de hoje. Essa instituição foi estabelecida no Irã há cerca de 1,8 mil a 2 mil anos. Essa universidade tem uma idade quatro vezes maior que a soma da existência dos EUA e do regime sionista”, afirma.
Ele acusa Israel de assassinar professores e cientistas em todo o mundo. “O regime sionista tem, na sua história, muitos assassinatos de professores e cientistas pelo mundo nos últimos 20 anos, por motivos diferentes”, relata.
O embaixador critica os ataques a residências civis, universidades e fábricas. “As ações cegas militares do regime sionista colocam, entre seus alvos, residências civis, universidades, fábricas e infraestruturas civis. Estão em uma situação totalmente desequilibrada militarmente, por isso atacam e colocam essas instituições como alvos”, explica.
O Irã Após um Mês de Guerra e a Defesa da Soberania
Abdollah Nekounam Ghadiri descreve a situação interna do Irã após um mês de guerra. Ele contesta a expectativa de Donald Trump de que o governo iraniano entraria em colapso.
Segundo ele, os ataques tinham como objetivo mudar a soberania do Irã. “Um dos motivos dessas agressões do regime sionista e dos EUA, que resultaram no assassinato do líder supremo e autoridades militares, era a mudança da soberania do Irã”, declara o embaixador.
Ghadiri afirma que a reação do povo iraniano tem sido de forte apoio à soberania do país. “No entanto, atualmente vemos o cenário contrário a isso. A reação do povo iraniano, nesses últimos 31 dias de guerra, é nas ruas. Durante esse tempo, as pessoas estão sob chuva, neve, com frio. O povo permanece nas ruas e defende fortemente a soberania”, assegura.
Ele ressalta que o Irã tem enfrentado sanções e pressões por décadas. “Nesses últimos 47 anos [desde a Revolução Islâmica], não teve nenhum dia em que ficamos fora das sanções estadunidenses e ocidentais ou estivemos livres das pressões de assassinatos e do terrorismo dos EUA e do Ocidente”, afirma o embaixador.
Ghadiri atribui os ataques a universidades e cientistas aos avanços científicos do país. “Esses ataques do regime sionista e dos EUA sobre as universidades e sobre os nossos cientistas mostram nosso avanço significativo no campo científico e no campo de pesquisas”, explica.
O embaixador enfatiza a resiliência do Irã. “Somos um país independente que se baseia no poder nacional e nos avanços e progressos nacionais. A civilização iraniana é muito enraizada. Nossas raízes tem 7 mil anos. Essa árvore poderosa pode se mover com ventos muito fortes, mas ainda permanece intacta e firme”, conclui.
Análise da Cobertura da Mídia Brasileira sobre a Guerra
Abdollah Nekounam Ghadiri avalia a cobertura da mídia brasileira sobre a guerra em curso. Ele agradece aos veículos que mostram o “lado verdadeiro” do conflito.
O embaixador critica um editorial do jornal Estado de S. Paulo. “Mas também não posso deixar de mencionar que, por mais que seja uma quantidade muito pequena, há ações comunicativas que não são profissionais, como a publicação do editorial ‘Ninguém vai chorar pelo Irã’, pelo jornal Estado de S. Paulo“, afirma.
Ele argumenta que o editorial fomenta ataques contra a população civil. “Especialmente em uma situação de guerra, essa postura busca fomentar e aumentar os ataques contra a população civil. E pela negativa de conceder direito de resposta, impedindo que o outro lado expresse sua posição sobre o editorial”, completa.
Ações de Grupos Aliados e a Questão dos “Proxies”
O embaixador Abdollah Nekounam Ghadiri analisa as ações de grupos aliados ao Irã. Ele cita o Hezbollah, a Resistência no Iraque e os Houthis no Iêmen.
Ghadiri critica a caracterização desses grupos como “proxies” do Irã. Os EUA, o Ocidente e o regime sionista colocaram, de uma forma inadequada, uma linguagem política sobre esses grupos que buscam liberdade nos seus países. Eles os nomearam como proxies [do Irã]. Nestes últimos tempos, tem ficado claro quem é proxy de quem. Precisamos investigar se os EUA são proxy do regime sionista ou o regime sionista é o proxy dos EUA”, questiona.
Ele argumenta que esses grupos são independentes e lutam por seus próprios interesses nacionais. “Enquanto isso, esses grupos, em seus países, são grupos independentes que estão lutando por seus próprios benefícios e pelos interesses nacionais”, afirma o embaixador.
Ghadiri usa o exemplo do Hezbollah no Líbano. “Por exemplo, no Líbano. Na década de 1980, Israel invadiu o Líbano até Beirute. É por esse motivo que esse grupo Hezbollah foi formado. E depois, com a sua própria força, eles conseguiram obrigar Israel a voltar para trás das fronteiras”, explica.
Ele cita a resistência iraquiana à presença americana. “Em 2003, os EUA atacaram o Iraque, milhares de iraquianos foram mortos. Os iraquianos, para proteger seu país, estão lutando para expor os americanos e defender o seu próprio país para expulsar os EUA de lá”, detalha.
O embaixador também menciona os grupos palestinos. “Outro exemplo são os grupos na Palestina, que estão se defendendo contra um regime que busca ocupar os seus territórios. Mais de 70 mil pessoas foram mortas pelo regime sionista nos últimos dois ou três anos”, informa Ghadiri.
Ele questiona o direito de autodefesa dos palestinos. “Os palestinos não devem lutar contra quem ocupou? Eles estão lutando pela sua população, pelo seu país. Eles não estão lutando por uma outra entidade”, conclui.
Contexto
As declarações do embaixador iraniano ocorrem em meio a um período de crescente tensão no Oriente Médio, marcado por conflitos regionais e disputas geopolíticas. A escalada da hostilidade entre Irã e Estados Unidos, acentuada pela retomada de sanções econômicas e ameaças militares, gera preocupação na comunidade internacional sobre a estabilidade da região e o futuro do acordo nuclear iraniano, formalmente conhecido como Plano de Ação Conjunto Global (PACJ).