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Irã busca diálogo e Masoud Pezeshkian afasta inimizade com os EUA

Presidente do Irã Afirma Não Nutrir Inimizade Contra o Povo Americano em Carta Pública

Em uma comunicação direta e aberta “ao povo dos Estados Unidos da América” e a “aqueles que continua a buscar a verdade”, o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, declara que o povo iraniano não guarda inimizade contra outras nações. Ele enfatiza que essa ausência de hostilidade se estende ao povo da América, da Europa e de países vizinhos, buscando dissipar percepções negativas cultivadas ao longo do tempo.

A longa missiva, redigida em inglês, foi divulgada nesta quarta-feira, 1º de maio, através de uma postagem na rede social X. O líder iraniano destaca o histórico de repetidas intervenções estrangeiras sofridas pelo seu país e expressa seu desejo de combater o que classifica como uma “enxurrada de distorções e narrativas fabricadas” sobre o Irã.

A Distinção Entre Governo e Povo na Cultura Iraniana

Pezeshkian enfatiza a importância de diferenciar as ações de governos da índole de seus respectivos povos. “Os iranianos sempre traçaram uma distinção clara entre governos e os povos que eles governam. Este é um princípio profundamente enraizado na cultura iraniana e na consciência coletiva — não uma posição política passageira”, afirma Pezeshkian, ressaltando que a compreensão mútua deve prevalecer sobre as tensões políticas.

Essa distinção, segundo o presidente, é fundamental para evitar generalizações e fomentar um diálogo mais construtivo entre as nações. A comunicação busca estabelecer uma base de entendimento mútuo, apesar das divergências políticas existentes entre os governos.

A Presença Militar Americana e a Autodefesa Iraniana

O presidente iraniano ressalta que o Irã é uma das civilizações contínuas mais antigas da história humana. Apesar de suas vantagens históricas e geográficas, o país, segundo ele, “nunca escolheu o caminho da agressão, da expansão, do colonialismo ou da dominação”.

Em contrapartida, o texto aponta para a forte presença militar dos Estados Unidos no entorno do Irã. “Dentro desse mesmo quadro, os Estados Unidos concentraram o maior número de suas forças, bases e capacidades militares ao redor do Irã — um país que, ao menos desde a fundação dos Estados Unidos, nunca iniciou uma guerra. Agressões americanas recentes lançadas a partir dessas mesmas bases demonstraram o quão ameaçadora essa presença militar realmente é. Naturalmente, nenhum país submetido a tais condições deixaria de fortalecer suas capacidades defensivas”, enfatiza o presidente.

A Resposta Comedida do Irã e a Legítima Autodefesa

“O que o Irã fez — e continua a fazer — é uma resposta comedida, fundamentada na legítima autodefesa, e de forma alguma uma iniciativa de guerra ou agressão”, prossegue Pezeshkian, buscando justificar as ações do país no contexto de tensões geopolíticas.

A alegação de autodefesa surge como um contraponto à narrativa de agressão frequentemente atribuída ao Irã. A carta busca desmistificar essa imagem, apresentando o país como um ator que reage a ameaças externas.

A mensagem de Pezeshkian sugere que a escalada de tensões na região é resultado da percepção iraniana de ameaça, o que os leva a fortalecer suas capacidades defensivas. Essa postura, segundo o presidente, não deve ser interpretada como uma declaração de guerra.

O Golpe de 1953 e a Desconfiança Histórica

Masoud Pezeshkian recorda que as relações entre o Irã e os EUA nem sempre foram marcadas por hostilidade. Ele aponta o golpe de Estado articulado pelos norte-americanos para derrubar o então primeiro-ministro democraticamente eleito, Mohammad Mossadegh, na chamada Operação Ajax, com apoio do Reino Unido, como um ponto de inflexão.

O golpe, que ocorreu após a decisão do governo iraniano de nacionalizar os recursos petrolíferos do país, é apresentado como um evento que impactou profundamente a relação bilateral.

“Esse golpe desestruturou o processo democrático iraniano, restaurou uma ditadura e semeou uma profunda desconfiança entre os iranianos em relação às políticas dos EUA. Essa desconfiança se aprofundou ainda mais com o apoio americano ao regime do xá, o respaldo a Saddam Hussein durante a guerra imposta dos anos 1980, a imposição das mais longas e abrangentes sanções da história moderna e, por fim, agressões militares não provocadas — duas vezes, inclusive em meio a negociações — contra o Irã”, detalha a carta.

Ao revisitar eventos históricos, o presidente iraniano busca explicar a origem da atual desconfiança entre os dois países e contextualizar as ações do Irã no cenário internacional.

O Fortalecimento do Irã Apesar das Pressões Externas

Pezeshkian argumenta que as pressões externas não conseguiram enfraquecer o Irã. Pelo contrário, ele afirma que o país se fortaleceu em diversas áreas após a Revolução Islâmica.

“As taxas de alfabetização triplicaram; o ensino superior se expandiu de forma significativa; avanços expressivos foram alcançados em tecnologia moderna; os serviços de saúde melhoraram; e a infraestrutura se desenvolveu em um ritmo e escala incomparáveis ao passado. Essas são realidades mensuráveis e observáveis, que existem independentemente de narrativas fabricadas”, destaca o presidente.

O presidente reconhece o impacto das sanções, da guerra e da agressão sobre a vida do povo iraniano, mas enfatiza a resiliência do país diante das adversidades.

A mensagem do presidente busca equilibrar o reconhecimento dos desafios com a celebração das conquistas alcançadas pelo Irã nas últimas décadas.

Questionamentos Sobre os Interesses do Povo Americano

Masoud Pezeshkian questiona se a política externa dos Estados Unidos em relação ao Irã realmente atende aos interesses do povo americano.

“Havia alguma ameaça objetiva por parte do Irã que justificasse tal comportamento? O massacre de crianças inocentes, a destruição de instalações farmacêuticas de tratamento contra o câncer, ou vangloriar-se de bombardear um país ‘de volta à idade da pedra’ serve a algum propósito além de prejudicar ainda mais a posição global dos Estados Unidos?”, pergunta o presidente.

Ao levantar essas questões, Pezeshkian busca provocar uma reflexão sobre os custos humanos e diplomáticos da política de confronto com o Irã.

A carta desafia a narrativa de que o Irã representa uma ameaça existencial aos Estados Unidos, argumentando que as ações americanas podem ser motivadas por outros interesses.

A Influência de Israel e a Busca por Desviar a Atenção

O presidente do Irã questiona se os EUA não estariam sendo manipulados por Israel na promoção do conflito, alegando que o país buscou negociações e cumpriu todos os compromissos.

Pezeshkian ataca a infraestrutura vital do Irã, incluindo instalações energéticas e industriais, e questiona se os EUA não estão sendo manipulados por Israel na promoção deste conflito.

“Não é verdade que Israel, ao fabricar uma ameaça iraniana, busca desviar a atenção global de seus crimes contra os palestinos? Não é evidente que Israel agora pretende lutar contra o Irã até o último soldado americano e até o último dólar do contribuinte americano — deslocando o ônus de suas ilusões sobre o Irã, a região e os próprios Estados Unidos, em busca de interesses ilegítimos?”, indaga o presidente.

A carta conclui com um convite aos americanos para que busquem informações além da “máquina de desinformação” e conheçam a realidade do Irã por meio do contato com pessoas que visitaram o país ou com imigrantes iranianos bem-sucedidos.

“Convido vocês a olhar além da máquina de desinformação — parte integrante dessa agressão — e, em vez disso, conversar com aqueles que visitaram o Irã. Observem os muitos imigrantes iranianos bem-sucedidos — formados no Irã — que hoje lecionam e realizam pesquisas nas universidades mais prestigiadas do mundo, ou contribuem para as empresas de tecnologia mais avançadas no Ocidente. Essas realidades correspondem às distorções que lhes são apresentadas sobre o Irã e seu povo?”, finaliza Masoud Pezeshkian.

O que está em jogo: a escalada de tensões e o futuro das relações Irã-EUA

A carta do presidente iraniano surge em um momento de crescente tensão entre o Irã e os Estados Unidos. As relações bilaterais têm sido marcadas por desconfiança e hostilidade desde a Revolução Islâmica de 1979. A retomada das sanções econômicas pelos EUA e as acusações de apoio ao terrorismo por parte do Irã agravaram ainda mais a situação. O futuro das relações entre os dois países é incerto, e a possibilidade de um conflito militar permanece uma preocupação constante para a comunidade internacional.

Contexto

A divulgação da carta ocorre em um contexto de escalada de tensões no Oriente Médio, com o Irã envolvido em conflitos por procuração em diversos países da região. A carta do presidente iraniano busca estabelecer um canal de comunicação direto com o povo americano, na tentativa de promover uma melhor compreensão da perspectiva iraniana sobre as questões regionais e globais. As tensões entre Irã e Estados Unidos se intensificaram após a saída dos EUA do acordo nuclear em 2018, com a retomada de sanções econômicas que afetam drasticamente a economia iraniana. O futuro das relações bilaterais é incerto, com o risco de escalada militar pairando sobre a região.

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