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Investidores debatem manter ações antes da eleição até segunda

Dilema Eleitoral na Bolsa: O Que Considerar Antes do Último Pregão Antes do Segundo Turno

A sexta-feira, dia 23 de outubro, marca o encerramento da semana de negociações na Bolsa de Valores brasileira, a B3, antes do segundo turno das eleições. Para milhões de investidores que operam no mercado acionário, a sessão não se resume à tentativa de antecipar a direção do mercado; ela impõe um dilema estratégico crucial: vale a pena manter posições compradas em ações e carregá-las até a abertura de segunda-feira? Essa decisão envolve uma complexa avaliação de risco e retorno em um cenário de alta incerteza.

Manter ações em carteira durante o fim de semana eleitoral pode permitir ao investidor capitalizar um eventual movimento de alta já na abertura do pregão seguinte. Contudo, essa estratégia também significa atravessar um período com o mercado fechado, impossibilitado de ajustar a posição caso as expectativas ou o cenário político mudem drasticamente. A volatilidade esperada e a imprevisibilidade do resultado são fatores que elevam substancialmente o risco de perdas ou ganhos acentuados.

Entenda os Riscos: Day Trade vs. Swing Trade em Cenário Eleitoral

O perfil da operação define grande parte do risco assumido. Para quem pratica o day trade, a incerteza é mitigada, pois as operações são abertas e fechadas no mesmo pregão, zerando o risco ao final do dia. Ou seja, o investidor não dorme posicionado, evitando surpresas de fim de semana.

Já para os adeptos do swing trade, que carregam posições por mais de um pregão, o risco principal começa justamente após o fechamento da sexta-feira. A impossibilidade de negociar entre o fim do pregão de sexta e a abertura de segunda, em um período de alta relevância política, amplifica a exposição a eventos inesperados e reprecificações abruptas do mercado. Essa modalidade exige uma análise ainda mais criteriosa em momentos de decisão como o atual.

O Efeito “Trade Eleitoral” e a Incorporação de Preços

Um fator complicador adicional é o chamado trade eleitoral. Muitas ações de empresas ligadas à economia doméstica já acumularam fortes altas entre o primeiro e o segundo turno das eleições. Isso significa que, mesmo que o cenário mais favorável e esperado pelo mercado se concretize, parte desse movimento de valorização pode já estar precificada nos ativos.

O dilema fundamental para esta sexta-feira, portanto, se desdobra em duas perguntas-chave para o investidor: quanto ainda é possível ganhar se o cenário esperado se confirmar e, em contrapartida, quanto pode ser perdido se a abertura de segunda-feira trouxer um resultado na direção contrária às expectativas? A balança entre potencial de lucro e risco de perda torna-se mais tênue em momentos como este.

Gestão de Posição: Reduzir Exposição é a Palavra de Ordem

Para Victor Hugo Riffel, head da Mesa Trader da Ável, a principal adaptação no último pregão antes da eleição deve ser a moderação no tamanho da posição. A lógica é direta: quanto maior a volatilidade do mercado – a intensidade das oscilações de preços –, maior tende a ser o valor financeiro colocado em risco com a mesma quantidade de ações ou contratos.

“Se a volatilidade dobra e eu mantenho a mesma mão, meu risco dobra junto”, alerta Riffel. Ele recorre ao conceito de VaR (Value at Risk, ou Valor em Risco), uma métrica estatística utilizada para estimar a perda potencial máxima de um portfólio de ativos em um determinado período e com um certo nível de confiança. Na prática, a mensagem é clara: o aumento da oscilação do mercado demanda uma redução da exposição para manter o mesmo patamar de risco.

Eduardo Tellechea Cairoli, CEO e fundador da Privatto Multi Family Office, reforça a necessidade de separar a convicção pessoal do investidor da sua exposição financeira. Acreditar fortemente em um determinado resultado eleitoral não deve, segundo ele, ser um pretexto para aumentar o tamanho da posição de forma imprudente.

“A sexta-feira não deve ser encarada como um dia de maximização de exposição, mas de seleção das melhores assimetrias”, afirma Cairoli. Essa abordagem sugere que, ao invés de buscar ganhos massivos, o investidor deve focar em ativos que apresentem uma relação risco-retorno mais equilibrada, mesmo que isso signifique uma exposição menor. O cuidado se estende à concentração da carteira. Ter, por exemplo, ações do Banco do Brasil (BBAS3), de uma construtora (CYRE3) e de outra empresa sensível à queda dos juros pode parecer diversificação. No entanto, esses papéis podem reagir de forma similar e simultânea a uma mudança brusca na percepção sobre o risco fiscal ou a taxa de juros, expondo o investidor a um risco maior do que o aparente.

O Risco do Gap de Abertura e o Limite do Stop Loss

O maior perigo para quem decide atravessar o fim de semana eleitoral com posições abertas é o temido gap de abertura. Esse fenômeno ocorre quando uma ação inicia o pregão seguinte com uma cotação significativamente acima ou abaixo do preço de fechamento anterior. A ausência de negociação na B3 entre o fechamento de sexta e a abertura de segunda potencializa esse risco, especialmente em momentos de grande incerteza.

Nesse intervalo, ferramentas de gestão de risco como o stop loss – uma ordem programada para tentar encerrar a posição automaticamente quando o preço atinge um nível pré-determinado de perda – perdem sua eficácia. “O stop não protege no gap”, resume Victor Hugo Riffel. Se uma ação, por exemplo, fecha a R$ 20 e reabre a R$ 18 na segunda-feira devido a um evento pós-eleitoral, a ordem de stop loss configurada para R$ 19 não será executada naquele valor. A operação só será fechada no primeiro preço disponível na abertura, que já estará abaixo do limite desejado, resultando em uma perda maior que a prevista.

Diante desse cenário, Jason Vieira, economista-chefe da Lev, adota uma postura de extrema cautela. “Eu não carregaria agora uma posição”, afirma, reforçando a visão de que o risco é desproporcional à recompensa em tais circunstâncias. A avaliação dos especialistas não descarta a existência de oportunidades, mas ressalta que a relação entre risco e retorno se altera drasticamente, pois o investidor perde a capacidade de reagir em tempo real ao evento político que motiva a operação.

Opções Como Alternativa, Mas com Custo Elevado

Para limitar parte desse risco de forma prévia, o mercado de opções surge como uma alternativa. Uma opção de compra (call) confere ao investidor o direito de comprar um ativo, enquanto uma opção de venda (put) concede o direito de vendê-lo, ambos a um preço e data predeterminados. Para quem compra o contrato, a perda máxima fica limitada ao valor pago pelo prêmio da opção. Puts, por exemplo, podem ser usadas para proteger uma carteira contra quedas.

No entanto, proteger-se por meio de opções em um período eleitoral tem um custo, que se reflete no prêmio cobrado. Antes do primeiro turno, a volatilidade implícita – uma medida da expectativa de oscilação do preço do ativo subjacente embutida nos contratos – estava elevada. O BOVA11 (fundo de índice que replica o Ibovespa) registrava cerca de 39%, Petrobras (PETR4) em torno de 47%, e Banco do Brasil (BBAS3) chegava a 66%. Quanto maior essa volatilidade implícita, mais caro tende a ser o prêmio das opções, mantendo-se as demais condições.

Após a votação do primeiro turno, uma parcela significativa desse prêmio desapareceu, no fenômeno conhecido como volatility crush (queda rápida da volatilidade implícita). A volatilidade implícita caiu para aproximadamente 25%-26% no BOVA11, 34%-36% em Petrobras e 40%-42% em BBAS3. Essa queda abrupta de preço após um evento que concentrava grande incerteza ajuda a explicar por que acertar a direção do mercado não garante lucro ao operar opções. Uma opção comprada antes da eleição pode estar cara justamente porque muitos outros investidores buscam proteção ou apostam em um movimento forte. “Nas opções, acertar a direção não garante lucro”, enfatiza Eduardo Cairoli, destacando a complexidade da estratégia.

A Precificação Antecipada: O “Buy the Rumor, Sell the News”

Além do risco do gap, uma segunda questão crítica para quem considera manter ações é o fato de que o trade eleitoral já gerou movimentos expressivos de alta desde o primeiro turno. Empresas ligadas à economia doméstica, as small caps, varejistas e construtoras registraram avanços significativos nesse período. Rafael Perretti, economista e analista da Clear Investimentos, destaca que algumas ações de menor capitalização chegaram a acumular ganhos impressionantes de 30%, 40% ou até 50%.

Essa sensibilidade opera em mão dupla. Em um cenário favorável às expectativas que impulsionaram essas altas, os papéis ainda podem subir. Contudo, também podem apresentar uma realização de lucros, caso a maior parte da "boa notícia" já esteja completamente incorporada ao preço. “Mais do que acertar quem ganha, o trader precisa saber quanto do resultado já está no preço. E hoje, uma boa parte está”, afirma Victor Hugo Riffel.

Eduardo Cairoli chama atenção para o conhecido jargão de mercado “buy the rumor, sell the news” (compre no boato, venda no fato). Nele, os investidores antecipam um determinado cenário, os preços sobem e, quando a notícia finalmente se confirma, parte do mercado aproveita para realizar os lucros já acumulados. “O mercado sobe antecipando o resultado e realiza lucros após a confirmação”, explica. Essa dinâmica é particularmente relevante para ações que foram protagonistas do movimento entre os turnos, como Banco do Brasil (BBAS3), B3 (B3SA3), Cyrela (CYRE3), além de outras varejistas e empresas sensíveis aos juros.

Histórico Eleitoral: Ibovespa Não Garante Performance Individual

Análises de eleições passadas servem como um lembrete importante: a performance do índice geral da Bolsa, o Ibovespa, não se traduz necessariamente em ganhos para todas as ações individuais. O primeiro pregão após o segundo turno de 2022 é um exemplo elucidativo. Enquanto o Ibovespa avançou 1,31%, ações como Banco do Brasil registraram queda de 4,64% e Petrobras (PETR4) recuou 8,47%. Em contrapartida, o Itaú (ITUB4) subiu 2,91%.

Essa divergência mostra que, mesmo quem acertou a direção geral do índice poderia ter perdido dinheiro ao escolher papéis específicos. Em 2018, outro fenômeno relevante ocorreu: o Ibovespa acumulou uma forte alta ao longo de outubro, mas registrou queda no primeiro pregão após o segundo turno. Esse episódio ilustra o risco de o mercado antecipar uma expectativa e realizar lucros depois da confirmação oficial do resultado. Para Rafael Perretti, o histórico eleitoral oferece mais clareza sobre a possibilidade de movimentos intensos do que sobre a direção específica que esses movimentos tomarão. “A maior clareza que a gente tem é a expectativa em relação à volatilidade do mercado”, conclui o analista.

Afinal, Vale a Pena Carregar Ações Até Segunda-feira?

Não existe uma resposta única para essa pergunta, pois a decisão depende intrinsecamente do ativo em questão, do tamanho da posição, do perfil de risco do investidor e da perda máxima que ele está disposto a suportar. No entanto, há uma distinção objetiva entre operar apenas na sexta-feira e atravessar a votação: quem carrega uma ação aceita ficar exposto a uma possível reprecificação sem a capacidade de ajustar sua posição até a abertura de segunda-feira.

Diante do cenário de incerteza, os especialistas e analistas mencionam diversas alternativas para os investidores. Entre elas estão: reduzir o tamanho da posição, evitar o excesso de alavancagem, limitar previamente a perda por meio de estruturas com opções ou, simplesmente, preservar a liquidez para operar apenas após o resultado conhecido. Esperar até segunda pode significar perder parte de uma eventual alta inicial, mas, em contrapartida, permite tomar uma decisão com uma das principais incertezas já resolvidas. Antes de questionar o potencial de valorização de uma ação após a eleição, o investidor deve, portanto, responder a uma questão fundamental: “Quanto estou disposto a perder se a abertura de segunda-feira vier na direção contrária?”

Contexto

A influência das eleições no mercado financeiro brasileiro é um fenômeno recorrente, impulsionado pela incerteza política e pelas expectativas de mudança nas políticas econômicas. O comportamento da B3 antes e depois dos pleitos reflete a sensibilidade dos investidores a cenários de risco fiscal, taxa de juros e direção macroeconômica. Em anos eleitorais, a volatilidade se eleva consideravelmente, impactando a precificação de ativos e exigindo estratégias de gestão de risco mais apuradas por parte dos participantes do mercado.

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