O Instituto Inhotim, em Brumadinho, Minas Gerais, abriu no último sábado (25) as celebrações de seus 20 anos com a inauguração de três obras. O maior museu a céu aberto da América Latina recebeu Contraplano, de Lais Myrrha; Dupla Cura, de Dalton Paula; e Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Os trabalhos reforçam a vocação do espaço, conectando arte, natureza e questões sociais contemporâneas em um momento de ressignificação para a região.
A diretora artística do instituto, Júlia Rebouças, disse que as três obras se alinham ao propósito de Inhotim: articular arte, natureza e educação. “Cada um ao seu modo, vão repercutir o que é esse território, qual a relação do visitante com esse espaço, questões contemporâneas importantes”, afirmou. Ela destacou que as instalações “revisitam momentos que muitas vezes estão ocultos na nossa história mais recente”.
As novas adições conversam com o vasto acervo construído ao longo de duas décadas. “São trabalhos que se articulam com esse enorme texto que está sendo posto aqui há 20 anos. Cada obra é uma ideia nova que a gente adiciona a esse texto que vai escrever a narrativa do Inhotim”, completou Rebouças.
A expansão do parque artístico coincide com um período de recuperação e atenção renovada para Brumadinho, marcada pela tragédia do rompimento da barragem em 2019. A arte, neste contexto, oferece caminhos para a reflexão sobre o ambiente, a história local e as comunidades.
Contraplano e a paisagem da mineração
Em um dos pontos mais altos do Instituto Inhotim, a escultura monumental Contraplano, de Lais Myrrha, dialoga diretamente com a paisagem circundante. A peça faz referência ao prédio projetado por Oscar Niemeyer na Praça da Liberdade, em Belo Horizonte, e emprega lâminas de concreto armado e colunas de aço inoxidável.
A obra se descortina sobre jardins, mata e, visivelmente, sobre fragmentos de cavas de mineração nas regiões próximas. Essa justaposição não é acidental.
Lais Myrrha, artista mineira, declarou que buscou propor uma reflexão sobre a relação da arquitetura com a paisagem, o tempo, a natureza, a montanha e a mineração. “Até que ponto as tecnologias modernas também influenciaram nessas formas de construção? A topografia, as cavas de mineração, como isso aparece nesse desenho da obra? Vai depender muito do repertório de cada visitante”, disse a artista.
A psicóloga Paola Prates, de 29 anos, visitante frequente do Inhotim, observou a potência da obra. “Achei uma obra muito interessante, porque está posicionada próximo à mineração e eu acho que ela dialoga muito com isso. É uma obra que causa conforto porque, quando se está aqui dentro, você sente o frescor e o acolhimento, mas, ao mesmo tempo, você também olha para a mineração e lembra o que ela é capaz de fazer”, ponderou Prates.
Herança Afro-Brasileira em ‘Dupla Cura’
A Galeria Mata, uma das primeiras edificações do Inhotim, abriga a exposição de longa duração Dupla Cura, de Dalton Paula. O artista brasiliense radicado em Goiânia apresenta cerca de 120 obras, no que se configura como o mais amplo conjunto de sua produção já exposto no Brasil.
A mostra reúne pinturas, fotografias, vídeos e instalações. Todos os trabalhos remetem à ancestralidade, à memória e à valorização da cultura afro-brasileira, temas centrais na trajetória de Dalton Paula.
A curadora Beatriz Lemos explicou que o título da exposição se refere a um “pacto espiritual que a permeia”. Ela destacou o aspecto dual, ligado à devoção a São Cosme e São Damião, que “manifesta-se no entendimento de que o fortalecimento individual é indissociável do bem-estar comunitário”.
Dalton Paula afirmou que a reflexão sobre a memória o atrai profundamente. “Aqui a gente vai se deparar com obras de 1999, com questões iniciais, e obras feitas no decorrer do tempo que têm um aprofundamento. Eu vejo como uma espécie de oráculo que fiz desse passado e aponta possibilidades de presente e de futuro”, declarou o artista, sublinhando a importância de exibir esses trabalhos “principalmente, às futuras gerações”.
O engenheiro de som Marcos Soares, de 40 anos, veio de Belo Horizonte especificamente para ver a obra de Dalton. “Curti muito os desenhos, as pinturas, a expressão gráfica dele é bem rica. O processo de construção da arte dele é bem interessante de acompanhar. Abre uma nova forma de vida que eu nunca teria a chance de vivenciar se não fosse vendo uma exposição como essa do Dalton”, disse Soares.
O Rio São Francisco em ‘Tororama’
Perto de Contraplano, a Galeria Nascente apresenta a instalação Tororama, de Davi de Jesus Nascimento. Natural de Pirapora, no norte mineiro, o artista conecta seu trabalho ao Rio São Francisco.
O espaço reúne três pinturas e um vídeo, gravado nas Cavernas do Peruaçu, também em Minas Gerais. A instalação ainda exibe carrancas, peças que Mestre Expedito, figura relevante da arte popular, não produzia há dez anos.
O curador Deri Andrade informou que o nome Tororama vem de uma expressão no conto A Terceira Margem do Rio, de João Guimarães Rosa, que “aborda a relação do protagonista com um curso d’água”. Ele completou: “O trabalho de Davi está totalmente relacionado ao Rio São Francisco, a partir de uma pesquisa voltada para sua família que mergulha nesse rio. É um projeto completamente imersivo, que traz vídeo performance e uma paisagem sonora”.
Davi de Jesus Nascimento compartilhou a origem de sua arte, vinda de uma família de lavadeiras, pescadores, marceneiros e mestres carranqueiros. “A permissão do que eu faço vem por meio desse curso d’água que é o Rio São Francisco e da energia da minha mãe que morreu afogada em 2013”, declarou. Ele descreveu o ambiente que criou como um reflexo de suas origens, “da comunidade à beira do rio, do meu pai pescador”.
A irmã de Davi, Ana Paula Vieira do Nascimento, de 36 anos, visitou a obra e se emocionou. “Nossa infância foi sempre dentro do rio. Somos barranqueiros e me remeteu muito à memória da nossa mãe que está presente nessa exposição”, afirmou.
O Legado de Inhotim e seu Impacto
O Instituto Inhotim, localizado a 60 quilômetros de Belo Horizonte, se estabeleceu como uma organização sem fins lucrativos. Sua manutenção depende de doações de pessoas físicas e jurídicas – diretas ou por meio das leis federal e estadual de Incentivo à Cultura –, da bilheteria e da realização de eventos.
Idealizado por Bernardo de Mello Paz na década de 1980, Inhotim abriu as portas em 2006, transformando uma fazenda em solo ferroso num polo cultural. Hoje, ele atrai visitantes de todo o mundo.
Sua localização estratégica, entre os biomas da Mata Atlântica e do Cerrado, proporciona uma experiência singular. Os 140 hectares de visitação misturam arte e natureza, tornando cada percurso único.
O acervo do Instituto Inhotim inclui cerca de 1.862 obras de mais de 280 artistas, oriundos de 43 países. As peças são exibidas ao ar livre ou em galerias, integradas a um Jardim Botânico que abriga mais de 4,3 mil espécies botânicas raras, coletadas em diversos continentes.
A presença do Inhotim tem um impacto socioeconômico significativo em Brumadinho, gerando empregos e fomentando o turismo. Após a tragédia de 2019, o instituto reforçou seu papel como um pilar de resiliência cultural e econômica para a região, oferecendo um refúgio e um motor de desenvolvimento local.
Contexto
O Instituto Inhotim se consolidou como um dos mais importantes centros de arte contemporânea do Brasil e do mundo, destacando-se pela fusão de arte, paisagismo e botânica. Sua trajetória de 20 anos marca um período de crescimento contínuo e engajamento com questões ambientais e sociais, refletindo o cenário artístico e os desafios do entorno mineiro. A instituição cumpre um papel fundamental na promoção da cultura, na educação e no desenvolvimento regional, especialmente em Brumadinho, onde sua atuação se tornou vital para a reconstrução da identidade e da economia local pós-desastre ambiental.