A recente deflação de 0,40% no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15 (IPCA-15), considerado a prévia da inflação oficial, trouxe um alívio momentâneo para consumidores e animou o mercado financeiro. Este índice, que mede a variação de preços para famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos em diversas regiões metropolitanas do país, sinaliza uma trégua na escalada dos custos. Contudo, economistas especializados no cenário brasileiro advertem: este respiro é de caráter passageiro, impulsionado por fatores pontuais como o bônus de Itaipu nas tarifas de energia elétrica.
A preocupação central reside na possibilidade de uma piora substancial nos indicadores de preços nos próximos meses. Este cenário não apenas dificultaria a tão esperada queda das taxas de juros, mas poderia abrir caminho para a estagflação, uma condição econômica severa caracterizada pela combinação de preços persistentemente altos e um ritmo de crescimento econômico fraco. A análise dos especialistas aponta para uma dinâmica complexa, onde a descompressão observada agora não se sustenta no médio e longo prazos, exigindo vigilância constante das autoridades monetárias e dos agentes econômicos.
O Que Dizem os Especialistas sobre a Tendência Inflacionária
Para Fábio Romão, economista sênior da 4intelligence e especialista em inflação, a leitura atual exige cautela. “Não vamos poder pensar que a inflação está sendo contida, então está tudo bem. Não é bem essa leitura”, afirma. Ele projeta uma “alta importante, ali na esquina, em setembro, que vamos saber no começo de outubro [quando os dados forem divulgados]”. Esta declaração sublinha a fragilidade do cenário atual e a iminência de um novo ciclo de pressão inflacionária.
Silvio Campos Neto, sócio e economista da Tendências Consultoria, compartilha da mesma avaliação. Ele reforça que a queda no IPCA cheio de agosto é pontual, resultado direto da devolução do bônus de energia, um subsídio específico que impactou temporariamente as contas de luz, e de um período favorável na safra de produtos agrícolas. Tais fatores, segundo Campos Neto, não devem se repetir nos meses seguintes, dissipando o efeito benigno sobre os índices de preços. A Tendências Consultoria projeta uma inflação de 5,3% para 2026 e 4,2% para 2027. Estas projeções, inclusive a de 4,2% em 2027, superam o teto da meta de inflação estabelecida pelo Banco Central do Brasil (3% com tolerância de 1,5 ponto percentual, ou seja, 4,5%), indicando um desafio persistente para o controle de preços.
Um processo desinflacionário que se mostre consistente e duradouro requer um esfriamento mais amplo da atividade econômica. Silvio Campos Neto salienta que este esfriamento ainda não se materializou de forma robusta. “A gente ainda está naquele processo de desacelerar a economia, desacelerar o consumo para que, aí sim, a inflação possa cair e os juros, efetivamente, também entrem em uma trajetória mais intensa de queda”, avalia o economista. Isso significa que, enquanto o consumo e a produção não mostrarem uma redução significativa, a demanda continua a pressionar os preços, dificultando a atuação do Banco Central na flexibilização da política monetária.
Alimentos e Serviços: Frentes de Resistência no Custo de Vida
Mesmo com deflações pontuais observadas em categorias específicas de alimentos nos meses de julho e agosto, o patamar geral do custo de vida com alimentação permanece elevado. A percepção do consumidor sobre o encarecimento dos itens essenciais de supermercado é uma realidade desde o início da pandemia de COVID-19. “Não é uma evolução moderada de curto prazo que vai tirar essa percepção do consumidor de que a alimentação ficou mais cara. É mais caro, agora, comprar no mercado do que era no começo de 2020. Isso é evidente”, pontua Fábio Romão, refletindo o impacto direto na renda familiar.
Para os próximos meses, o principal fator de risco para a inflação de alimentos é o fenômeno climático El Niño. Este padrão climático global provoca alterações significativas no regime de chuvas e temperaturas, afetando diretamente a produção agrícola. A expectativa é que o El Niño impacte as lavouras no último trimestre deste ano e no primeiro semestre de 2027, dificultando uma desaceleração mais robusta do Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). A 4intelligence projeta uma inflação geral de 5,1% para 2026 e 4,5% para 2027, mostrando que o risco dos alimentos persiste e mantém as expectativas acima da meta.
Os serviços representam outra frente de resistência significativa para o controle da inflação. Este setor, que abrange desde educação e saúde até transportes e lazer, demonstrou uma alta de 6,01% em 2025. Embora tenha havido uma moderação recente, a 4intelligence ainda revisou sua projeção para 5,1% de alta neste segmento para o ano corrente. Este patamar é considerado desconfortável para o Banco Central, cujo mandato principal é garantir a estabilidade dos preços. A inflação de serviços tende a ser mais “pegajosa”, ou seja, mais difícil de reduzir, pois está menos sujeita à volatilidade das commodities e mais ligada aos custos de mão de obra e à demanda interna. Mesmo com a média móvel trimestral dos núcleos de inflação de serviços recuando para níveis abaixo de 4%, o segmento exige cautela na condução da política monetária, justificando a manutenção de juros elevados.
Petróleo e Cenário Global: Pressão Externa na Inflação Brasileira
A instabilidade do cenário geopolítico internacional se reflete na inflação brasileira, principalmente através do preço do petróleo. Com o valor do barril de Brent, referência global, atingindo a marca de US$ 95, os custos de produção e transporte internamente no Brasil sofrem um aumento. Esse patamar elevado encarece a importação do combustível e impacta diretamente os preços dos fretes e, consequentemente, de uma vasta gama de produtos e serviços.
Carlos Primo Braga, ex-diretor de política econômica e dívida do Banco Mundial e professor associado da Fundação Dom Cabral (FDC), observa que existem limites para a capacidade do governo em conter o repasse desses custos para os combustíveis no mercado interno. As crises em curso no Leste Europeu e a constante tensão no Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais importantes para o transporte de petróleo, contribuem para a volatilidade e os preços elevados da commodity. Tais eventos geopolíticos geram incerteza nos mercados de energia, elevando o custo de aquisição e impactando a economia global e brasileira.
Silvio Campos Neto acrescenta que, mesmo que o governo implemente subvenções temporárias para mitigar o impacto direto nos combustíveis, esses auxílios não conseguem barrar os efeitos indiretos sobre as cadeias produtivas. O aumento do custo do transporte, por exemplo, eleva o preço de praticamente tudo que é movimentado. Da mesma forma, os fertilizantes, cuja produção depende fortemente de derivados de petróleo, encarecem, impactando a produção agrícola e, novamente, os preços dos alimentos. Essa interconexão obriga o Banco Central do Brasil a monitorar de perto tanto a cotação da commodity quanto as flutuações do câmbio, que também é afetado pela percepção de risco global.
O maior risco imediato para a economia brasileira, segundo os especialistas, é um choque externo que anule o esforço interno de controle de preços. Fábio Romão alerta para a gravidade de tal cenário: “Se o conflito entre os Estados Unidos e o Irã voltar a escalar e isso bater no petróleo e no câmbio, você pode ter uma inflação mais alta, mesmo com a atividade perdendo força”. Um aumento abrupto nos preços do petróleo e uma desvalorização acentuada da moeda nacional teriam o potencial de reverter rapidamente qualquer ganho na luta contra a inflação, impondo um dilema ainda maior à política monetária.
Risco Fiscal e o Fantasma da Estagflação
A questão fiscal emerge como um dos vetores mais persistentes de pressão inflacionária no longo prazo. Para os economistas, a ausência de uma âncora fiscal crível é o maior obstáculo para a convergência da inflação às metas estabelecidas pelo Banco Central. Uma âncora fiscal robusta sinaliza o comprometimento do governo com a sustentabilidade das contas públicas, reduzindo a percepção de risco para investidores. Sem ela, a confiança do mercado é abalada, mantendo os juros longos, ou seja, as taxas de juros para investimentos e financiamentos de prazos mais estendidos, pressionados para cima, independentemente dos movimentos da taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia), a taxa básica de juros definida pelo Banco Central.
Carlos Primo Braga aponta o endividamento como a raiz profunda do problema fiscal. A dívida bruta do governo federal já ultrapassa 95% do Produto Interno Bruto (PIB), um patamar considerado elevado e preocupante para uma economia emergente. Este aumento é fruto de despesas que crescem sistematicamente acima das receitas desde 2023, ampliando o desequilíbrio das contas públicas. Em entrevista ao InfoMoney, Braga classificou o Orçamento de 2027 como uma “obra de ficção”, uma crítica contundente que sugere a falta de realismo nas projeções de receitas e despesas, ou a ausência de medidas concretas para reverter a trajetória de endividamento.
Combinada a uma inflação que teima em permanecer próxima ou acima do teto da meta – atualmente de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual (atingindo 4,5%) –, essa fragilidade fiscal eleva significativamente as chances de ocorrência da dominância fiscal. Este fenômeno ocorre quando a política monetária perde sua eficácia, pois o Banco Central se vê limitado em sua capacidade de aumentar os juros para combater a inflação. Cada elevação de 1 ponto percentual na Selic, segundo o próprio Banco Central, acrescenta entre R$ 50 bilhões e R$ 60 bilhões ao custo de carregamento da dívida pública, tornando a política de aperto monetário uma ameaça à solvência fiscal do Estado. Isso cria um ciclo vicioso onde o medo de uma crise da dívida impede o controle eficaz da inflação.
“A única solução é realmente você pegar e apertar o freio com relação à política fiscal”, reitera Carlos Primo Braga. A necessidade premente é um ajuste fiscal focado na contenção das despesas obrigatórias, como as relativas à previdência social e à folha de pagamento, que representam a maior parte do orçamento e são de difícil controle. Contudo, este é um tema que os principais candidatos evitam abordar abertamente por razões eleitorais, dada a sua impopularidade e o impacto potencial em amplos setores da sociedade. A ausência de um compromisso claro com este ajuste fiscal direciona o país para um cenário de crescimento econômico menor em 2027, acompanhado de uma inflação resistente, perpetuando o risco de estagflação.



