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Inflação dos EUA e Geopolítica definem cenário de tensão para o mercado global

Os mercados financeiros operam nesta quarta-feira (12) em compasso de espera, com investidores globais direcionando o foco para a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) dos Estados Unidos. Este dado crucial molda as expectativas sobre a política monetária do Federal Reserve (Fed), o banco central norte-americano. Paralelamente, riscos geopolíticos persistentes no Oriente Médio, especialmente as tensões envolvendo o Irã e ataques à navegação, adicionam uma camada de incerteza que impacta as cotações de commodities e o sentimento dos investidores em todo o mundo, reverberando no Ibovespa hoje.

A percepção de que a inflação pode estar controlada nos EUA alimenta um otimismo cauteloso, apesar do cenário externo volátil. As bolsas asiáticas fecham majoritariamente em alta, e os futuros dos índices americanos avançam. Contudo, a escalada de tensões no Estreito de Ormuz mantém a pressão sobre o petróleo, enquanto o mercado doméstico brasileiro também lida com suas próprias preocupações, como a inflação interna e os efeitos do fenômeno El Niño.

Inflação dos EUA: O Termômetro para o Fed e o Impacto Global

O mercado aguarda a publicação do CPI dos EUA de julho, um relatório fundamental para a definição dos próximos passos do Federal Reserve. A expectativa, conforme pesquisa da Reuters, é de um avanço moderado de 0,1% na comparação mensal para os preços ao consumidor, após uma queda de 0,4% em junho. Na base anual, projeta-se uma alta de 3,4%, ligeiramente abaixo dos 3,5% registrados no mês anterior.

Este dado adquire ainda mais peso após um relatório de empregos (payroll) fraco divulgado na semana passada. Um CPI mais contido pode reduzir as pressões sobre o Fed para um novo aumento da taxa de juros este ano, um alívio para os mercados que precificam essa decisão. Dennis Follmer, diretor de investimentos da Montis Financial, afirmou à CNBC esperar que o relatório do CPI “continue sua tendência de queda, o que reforçará ainda mais a tese de que o Federal Reserve manterá as taxas de juros estáveis”.

A taxa de juros americana influencia diretamente o fluxo de capital para mercados emergentes, incluindo o Brasil. Um cenário de juros estáveis nos EUA tende a tornar investimentos em países como o nosso mais atrativos, o que pode beneficiar o Ibovespa e o real. Por outro lado, a persistência da inflação no setor de serviços, embora menos sensível às taxas de juros, ainda representa um desafio, como destaca Follmer, e o mercado monitora esses detalhes.

Ameaças Geopolíticas no Oriente Médio e o Estreito de Ormuz

As tensões geopolíticas no Oriente Médio seguem como um dos principais fatores de risco, influenciando diretamente as cotações de energia. Ataques a navios no Estreito de Ormuz, uma rota marítima vital para o comércio global de petróleo, diminuem as expectativas de um desfecho rápido para a guerra na região do Irã. Esta instabilidade eleva a percepção de risco para a cadeia de suprimentos internacional.

O ex-presidente dos EUA, Donald Trump, tem oscilado entre ameaças de retomar ataques e declarações de confiança no progresso das negociações. Contudo, a retórica se endurece de ambos os lados. Uma autoridade iraniana de alto escalão afirmou à Reuters que não houve discussões com os Estados Unidos para prorrogar o cessar-fogo, pois, na perspectiva de Teerã, o acordo não possuía data de início. O principal responsável pela segurança do Irã, Mohsen Rezaei, declarou que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado caso os EUA não aceitem as condições iranianas para encerrar o conflito.

O bloqueio ou a insegurança em Ormuz têm o potencial de desestabilizar os mercados de energia globais, elevando os preços do petróleo e, consequentemente, os custos de produção e transporte para empresas em todo o mundo. Para o consumidor, isso se traduz em preços mais altos de combustíveis e de produtos que dependem de transporte.

Comportamento das Commodities Essenciais

Os preços do petróleo operam em alta pelo sexto dia consecutivo. O petróleo WTI avança 0,30%, cotado a US$ 83,45 o barril, enquanto o Brent registra alta de 0,39%, atingindo US$ 89,26 o barril. Esse movimento reflete o ceticismo do mercado em relação a um possível acordo para restabelecer o fluxo de energia pelo Estreito de Ormuz, essencial para o transporte de petróleo do Golfo Pérsico.

Já o minério de ferro negociado na bolsa de Dalian, na China, fecha perto da estabilidade, com leve alta de 0,07%, cotado a 705,50 iuanes (US$ 104,59). A passagem do tufão Dolphin paralisou dezenas de projetos de construção no centro da China, limitando a demanda. No entanto, o aumento nas compras planejadas de aço ofereceu um suporte aos preços, evitando uma queda mais acentuada. A variação nas cotações de commodities primárias como petróleo e minério de ferro tem efeitos diretos sobre a balança comercial de países exportadores, como o Brasil, e sobre os custos de indústrias que utilizam esses insumos.

Desempenho dos Mercados Acionários Globais

As bolsas da Ásia apresentam um quadro misto nesta quarta-feira, com a maioria registrando ganhos. As ações chinesas sobem 0,32% (Shanghai SE), impulsionadas pelos setores de tecnologia e imobiliário. Analistas do UBS observam que “o humor em relação ao setor de tecnologia está se estabilizando, já que grande parte do pessimismo recente parece já estar precificado”. O Nikkei, do Japão, avança 0,83%. Por outro lado, o Hang Seng Index (Hong Kong) recua 0,83%, o Nifty 50 (Índia) cai 0,77% e o ASX 200 (Austrália) desvaloriza 0,45%.

Na Europa, os mercados operam majoritariamente com ganhos. O STOXX 600 sobe 0,17%, o DAX alemão avança 0,51% e o FTSE 100 do Reino Unido registra alta de 0,09%. O CAC 40 da França, no entanto, opera em leve queda de 0,07%, enquanto o FTSE MIB da Itália valoriza 0,25%. O mercado europeu monitora de perto os dados de inflação dos EUA e a evolução dos conflitos no Oriente Médio, que impactam os preços da energia na região.

Nos Estados Unidos, os índices futuros avançam antes da divulgação do CPI. O Dow Jones Futuro sobe 0,13%, o S&P 500 Futuro avança 0,28% e o Nasdaq Futuro dispara 0,72%. O otimismo é impulsionado por resultados corporativos positivos, como os da CoreWeave, que avança cerca de 16% no after-market, e da Super Micro Computer, que sobe 7,6%, após ambas superarem as projeções de lucros e vendas.

Cenário Doméstico: Inflação, Dólar e a Queda do Ibovespa

No Brasil, o cenário macroeconômico global se entrelaça com fatores internos, moldando o desempenho dos ativos locais. A inflação brasileira, embora dentro da meta, enfrenta novos desafios, enquanto o dólar e os juros futuros reagem às incertezas.

Inflação no Brasil: Volta à Meta sob Novos Desafios

Apesar da inflação ter retornado à meta, conforme o Banco Central (BC) e economistas apontam, o cenário externo e os efeitos do fenômeno climático El Niño geram preocupações. O impacto do El Niño sobre os preços dos alimentos, provocado por alterações climáticas que afetam safras e produção agrícola, é um dos fatores que ampliam a incerteza nas projeções inflacionárias para o país. Isso significa que, mesmo com a política monetária atual controlando outros componentes da inflação, o consumidor pode sentir o aumento nos preços de itens básicos, pressionando o orçamento familiar.

Dólar e Juros no Brasil: Reações do Mercado

O dólar comercial encerrou o dia anterior com alta de 0,98%, cotado a R$ 5,161 na venda e R$ 5,160 na compra, em sua segunda alta consecutiva frente ao real. O movimento alinha-se à valorização da moeda norte-americana frente a outras divisas de países emergentes, com o DXY (índice dólar, que mede a força da moeda contra uma cesta de seis pares principais) em alta de 0,01%, a 99,81 pontos. A valorização do dólar impacta empresas importadoras e aumenta o custo de produtos dolarizados para o consumidor final.

Os DIs (Depósitos Interfinanceiros), que representam as expectativas do mercado para as taxas de juros futuras, fecharam ontem com altas ao longo de toda a curva, refletindo um aumento na percepção de risco e a expectativa de que o Banco Central pode manter a Selic em patamares elevados por mais tempo. Os DIs com vencimento em 2027 subiram 0,015 ponto percentual (pp), para 13,755%, enquanto os de 2029 avançaram 0,080 pp, para 14,180%. Esse movimento encarece o crédito para empresas e consumidores, desacelerando investimentos e o consumo.

Performance do Ibovespa: Retração e Destaques

O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira, terminou a terça-feira (11) com uma baixa expressiva de 2,50%, fechando aos 167.874,64 pontos. A máxima do dia foi de 172.385,51 pontos, e a mínima, 167.568,94 pontos, com um volume financeiro de R$ 31,80 bilhões. A queda de ontem aprofunda as perdas da semana, que acumulam -2,69%, e de agosto, com -5,69%. No acumulado do ano de 2026, o índice ainda registra um ganho de 4,19%, mas a volatilidade recente é notável.

Entre as maiores baixas do dia anterior, destacaram-se USIM5 (-7,54%, a R$ 6,62), BPAC11 (-5,77%, a R$ 50,13), RADL3 (-5,68%, a R$ 18,28), HAPV3 (-4,95%, a R$ 9,79) e CSAN3 (-4,93%, a R$ 3,28). Essas quedas podem refletir preocupações específicas com os setores de siderurgia, bancos, varejo farmacêutico, saúde e energia, ou simplesmente uma correção mais ampla do mercado. Empresas do setor de commodities, como a Usiminas (USIM5), frequentemente respondem a flutuações nos preços de matérias-primas e a demanda global.

As maiores altas foram de CMIN3 (+2,01%, a R$ 5,57), NATU3 (+1,49%, a R$ 8,20), MBRF3 (+1,38%, a R$ 16,16), SANB11 (+0,92%, a R$ 29,52) e BRAV3 (+0,81%, a R$ 18,65). Esses movimentos podem indicar otimismo pontual em alguns setores, como mineração (CMIN3) e bens de consumo (NATU3), ou apenas uma recuperação técnica após quedas anteriores.

As ações mais negociadas no pregão anterior incluíram BPAC11 (57.526 negócios), ITUB4 (55.217 negócios), VALE3 (45.102 negócios), BBDC4 (42.989 negócios) e PETR4 (42.272 negócios). A alta liquidez nestes papéis de grandes empresas demonstra o interesse e a movimentação constante de investidores nesses ativos, que servem como termômetro para o mercado como um todo.

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