



Duas gestantes passaram por um procedimento cirúrgico para interromper uma gravidez que, segundo diagnósticos iniciais, não teria evoluído. O que veio a seguir, no entanto, surpreendeu a todos: semanas depois, ambas descobriram que os bebês continuavam vivos e se desenvolvendo.
Os casos, que ganharam repercussão na região, foram acompanhados por um movimento incomum no setor de Ginecologia e Obstetrícia do HES (Hospital Estadual de Sumaré Dr. Leandro Franceschini). O hospital confirmou a saída de 18 médicos especialistas no intervalo de apenas dois meses.
O Vazio na Ginecologia e Obstetrícia: Consultas e Exames Prejudicados
Desde que os primeiros relatos de procedimentos malsucedidos vieram à tona, uma série de dificuldades tem sido enfrentada pelas pacientes. Gestantes de alto risco, em especial, relatam a falta de profissionais para consultas e exames cruciais.
Muitos agendamentos foram cancelados ou precisaram ser remarcados, gerando incerteza e preocupação entre as futuras mães que dependem do serviço do Hospital Estadual de Sumaré, uma unidade de referência para a região.
A direção do HES, administrado pela Funcamp (Fundação de Desenvolvimento da Unicamp), confirmou os desligamentos. A saída dos 18 ginecologistas e obstetras ocorreu entre agosto e setembro, período que coincide com a divulgação do primeiro caso de curetagem que não interrompeu a gravidez.
Embora o hospital não tenha estabelecido uma ligação direta entre a saída dos profissionais e os incidentes, a coincidência temporal levanta questionamentos. A instituição garante, porém, que está reforçando a equipe desde agosto para assegurar os atendimentos.
Atualmente, o setor de Ginecologia e Obstetrícia do hospital conta com 44 médicos, atuando em diferentes cargas horárias. A promessa é de que as gestantes com gravidez de alto risco sigam com prioridade no agendamento de consultas.
Números oficiais do HES indicam que, entre janeiro e agosto de 2026, foram realizadas 1.821 consultas ambulatoriais, das quais 1.136 eram de pré-natal. Neste mesmo período, a unidade registrou 3.621 atendimentos de urgência, 1.430 partos e 668 cirurgias.
Relatos que chocaram: As histórias das gestantes
Em agosto, a história de uma mulher de 37 anos ganhou destaque. Após um diagnóstico de aborto espontâneo, ela passou por uma curetagem em 12 de julho no HES. Um mês depois, ela descobriu que o bebê estava vivo.
A gestação foi então classificada como de alto risco, pois a paciente perdeu líquido amniótico durante o procedimento, possivelmente devido à perfuração da bolsa amniótica. Apesar dos desafios, a mulher optou por prosseguir com a gravidez, esperançosa pelo desenvolvimento saudável do filho.




O segundo caso envolveu uma mulher de 40 anos, submetida a uma curetagem em 25 de fevereiro no mesmo hospital, após exames que indicavam uma gestação sem evolução. Contudo, dores e cólicas persistentes a fizeram buscar uma segunda opinião.
Três semanas mais tarde, um ultrassom realizado na Maternidade de Campinas revelou que a gravidez estava ativa, com o feto se desenvolvendo normalmente. Atualmente, essa gestação atingiu 37 semanas.
Em ambos os casos, o Hospital Estadual de Sumaré declarou ter iniciado sindicâncias internas para apurar o ocorrido. O compromisso de continuar prestando suporte e atendimento às pacientes foi reafirmado pela instituição.
Até o presente momento, a direção do HES não divulgou atualizações sobre o estado de saúde das duas pacientes e de seus bebês, nem publicou os resultados das investigações internas em andamento.
Consequências na Região: O Hospital de Sumaré e a Saúde de Jundiaí
Impacto na região
Para moradores de Jundiaí e cidades vizinhas, o Hospital Estadual de Sumaré representa um ponto crucial de atendimento na rede pública de saúde, especialmente para casos de alta complexidade em Ginecologia e Obstetrícia. As dificuldades enfrentadas podem ter um efeito cascata.
A percepção de falhas nos procedimentos ou a diminuição da capacidade de atendimento gera uma insegurança generalizada. Isso força muitas famílias a buscar alternativas em outras cidades ou na rede particular, sobrecarregando ainda mais os serviços já fragilizados.
A falta de especialistas para consultas de pré-natal e exames pode resultar em diagnósticos tardios ou manejo inadequado de gestações de risco, com consequências diretas para a saúde de mães e bebês em toda a macro-região.
A confiança na rede pública de saúde é abalada, e o medo de que situações semelhantes se repitam permeia o dia a dia das gestantes que dependem desses serviços. A demanda por hospitais como o de Sumaré é alta, e qualquer intercorrência tem um peso significativo na rotina da população.
Além dos Casos: A Fragilidade do Sistema e o Desafio da Retenção Médica
Os recentes incidentes no Hospital Estadual de Sumaré, com as curetagens malsucedidas e a subsequente saída de profissionais, não são eventos isolados. Eles se inserem em um cenário mais amplo de desafios na saúde pública brasileira, que luta constantemente para garantir atendimento de qualidade e reter especialistas.
A defasagem de quadros médicos em hospitais públicos, em particular nas áreas de maior demanda como Ginecologia e Obstetrícia, é um problema recorrente. Fatores como condições de trabalho, remuneração e a própria sobrecarga dos sistemas influenciam diretamente a permanência desses profissionais nas instituições.
Este tema ganha urgência ao observarmos as consequências práticas. A falta de médicos não significa apenas longas filas, mas potencialmente erros e atrasos em diagnósticos que podem custar vidas ou causar danos irreparáveis. A transparência nas investigações internas e a comunicação clara sobre as medidas tomadas são essenciais para reconstruir a confiança.
A situação do HES, um hospital que serve como referência para uma vasta área, incluindo cidades como Jundiaí, acende um alerta sobre a necessidade de políticas públicas mais robustas para a saúde. É preciso não só atrair, mas também manter equipes médicas qualificadas e oferecer condições adequadas para que possam exercer suas funções com segurança e excelência.
A qualidade do pré-natal e dos procedimentos obstétricos é um termômetro da saúde de uma comunidade. O que acontece em Sumaré ressoa em cada família da região que planeja ou está vivenciando uma gestação, mostrando que a discussão sobre a infraestrutura e a gestão hospitalar é mais urgente do que nunca.



