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Guerra Irã: Europa apoia, Espanha diverge

Guarda Municipal de Jundiaí

Apoio Europeu à Guerra Irã-EUA: Análise Detalhada e Implicações

Com a notável exceção da Espanha, as principais potências europeias têm demonstrado apoio político, e em alguns casos, suporte de defesa, aos esforços conjuntos de Israel e dos Estados Unidos (EUA) no conflito em curso contra o Irã, visando uma potencial “mudança de regime”. A situação se intensifica em um cenário global já marcado por tensões geopolíticas.

O Reino Unido, a França e a Alemanha, três dos membros mais influentes da União Europeia, têm evitado condenar diretamente os ataques contra Teerã, que muitos especialistas consideram violações do direito internacional. Em vez disso, esses países buscaram justificar as ações bélicas, atribuindo ao Irã a responsabilidade pelo desencadeamento do conflito. As potências europeias ainda insistem que o Irã deve aceitar as condições impostas por Washington e Tel Aviv.

É crucial lembrar que, de acordo com o direito internacional, o uso da força é permitido apenas sob autorização expressa do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU). A ausência de tal autorização levanta questões sérias sobre a legitimidade das ações em curso.

Reino Unido: Apoio Logístico e Condenação Seletiva

O Reino Unido tem se posicionado de forma ambivalente. Londres não condenou os ataques iniciais ao Irã, mas rapidamente expressou condenação às retaliações de Teerã direcionadas às bases americanas no Oriente Médio. Além disso, o governo britânico fornece suporte logístico significativo, utilizando suas bases na região para auxiliar as operações de Washington.

A postura do Reino Unido, ao priorizar a condenação das retaliações iranianas em detrimento da ação original, levanta questionamentos sobre a consistência de sua adesão ao direito internacional.

França: Expansão Nuclear e “Operações Defensivas”

A França, simultaneamente ao anúncio de planos para aumentar seu próprio arsenal de ogivas nucleares, expressa forte condenação ao programa nuclear iraniano, que, segundo o governo de Teerã, tem fins exclusivamente pacíficos. Essa aparente contradição na política externa francesa gera debates sobre sua credibilidade na busca pela não proliferação nuclear.

O presidente francês, Emmanuel Macron, enviou dois navios de guerra para o Oriente Médio com o objetivo declarado de participar de “operações defensivas” europeias, aumentando a presença militar no já volátil cenário regional.

Alemanha: Apoio Velado e Recuperação Econômica Pós-Conflito

A Alemanha adotou uma postura ainda mais assertiva, declarando que não considera apropriado dar “lições” aos parceiros que agrediram o Irã. O governo alemão manifestou alinhamento com os objetivos dos EUA e de Israel de derrubar o governo de Teerã, chegando a se oferecer para contribuir com a “recuperação econômica do Irã” em um cenário pós-conflito.

Em uma declaração conjunta, Alemanha, França e Reino Unido exigiram o fim dos “ataques imprudentes” do Irã e informaram que tomarão as ações “defensivas” necessárias para “destruir a capacidade do Irã de lançar mísseis e drones em sua origem”. A retórica belicosa intensifica as preocupações sobre uma escalada do conflito.

Portugal e Itália: Bases Militares e Críticas à “Repressão” Iraniana

Portugal concedeu aos Estados Unidos (EUA) acesso às suas bases militares nos Açores, facilitando as operações americanas na região. A Itália, por sua vez, tem trabalhado para fortalecer o apoio de defesa aos países do Golfo e criticado a “repressão” do Irã contra a população civil.

A Análise de Especialistas: Europa Assumiu um Lado?

O historiador Francisco Carlos Teixeira da Silva, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), argumenta que a Europa, com exceção da Espanha, tomou partido na guerra em favor dos EUA e de Israel. “No momento em que a Europa denomina o governo e o Estado iranianos como criminosos, em plena guerra, ela já assumiu um lado”, afirma Teixeira da Silva. “Se esse lado é de participação efetiva na guerra, aí é outra coisa”.

Teixeira da Silva critica a inação de França, Alemanha e Reino Unido, membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU, em convocar uma reunião para discutir a situação. “Isso atende claramente a posição americana de não trazer a discussão para as Nações Unidas. Não há nem mesmo uma condenação ética da guerra como ela foi travada”, acrescenta.

O especialista enfatiza que a postura europeia é particularmente preocupante, considerando que o ataque ao Irã ocorreu em meio a negociações com os Estados Unidos. “Isso transforma o direito e a legalidade internacionais em algo extremamente frágil porque negociar com o adversário não tem mais nenhum sentido”, completa o historiador.

Em resposta ao apoio europeu à guerra, a Guarda Revolucionária do Irã advertiu que navios dos EUA, Israel e de países europeus não devem cruzar o Estreito de Ormuz, uma via crucial para o comércio mundial de petróleo. Essa ameaça eleva o risco de interrupções no fornecimento global de energia.

Barganha com os EUA: A Groenlândia em Jogo?

Segundo o professor Chico Teixeira, também da UFRJ, os países europeus estariam tentando barganhar sua posição com Washington, “às custas do Irã”, em meio às ameaças de Donald Trump de tomar um território europeu: a Groenlândia. Essa teoria sugere que a Europa estaria disposta a apoiar os EUA e Israel para evitar perdas territoriais e o desmantelamento da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

“É uma velha política tradicional da Europa. Mas o que a gente viu até agora é que a Europa se tornou dispensável. Os Estados Unidos não precisam da Europa”, pondera o professor Teixeira. Ele aponta a Alemanha como o país mais pró-EUA, destacando a visita do premier Friedrich Merz à Casa Branca em meio ao conflito. “Mostrou a subserviência da Alemanha, inclusive com o Merz falando que o governo do Irã é assassino e bárbaro, coisa que ele jamais disse do massacre de Israel em Gaza”, completa.

A Exceção Espanhola: “Não à Guerra”

O governo espanhol de Pedro Sánchez adotou uma postura divergente de seus parceiros europeus, criticando duramente a guerra promovida por Donald Trump e Benjamin Netanyahu. Sánchez enfatizou que sua posição não significa apoio ao regime dos aiatolás. “A questão, no entanto, é se estamos ou não do lado do direito internacional e, portanto, da paz”, declarou Sánchez, lembrando os fracassos da Guerra do Iraque.

“A Guerra do Iraque levou a um aumento dramático do terrorismo jihadista, a uma grave crise migratória no Mediterrâneo Oriental e a uma subida generalizada dos preços da energia e, consequentemente, do custo de vida”, argumenta o primeiro-ministro espanhol.

A postura de Sánchez rendeu destaque no jornal britânico The Financial Times, que observou que o líder espanhol disse ao presidente Trump “o que nenhum outro líder europeu se atreve a dizer”. A posição da Espanha irritou Trump, que chegou a ameaçar cortar relações comerciais com Madri, mas o governo americano recuou, afirmando que a Espanha teria concordado em cooperar com a guerra, o que foi negado “categoricamente” pelo governo espanhol.

Portugal e Itália: Uma Posição Ambigua

O governo de Portugal, ao conceder acesso aos Estados Unidos (EUA) às suas bases militares nos Açores, ressalta que não está envolvido nos ataques e cobra do Irã o fim do programa nuclear. “Portugal foi formalmente instado a conceder autorização para a utilização da base, tendo o governo dado uma autorização condicionada”, informou o primeiro-ministro português Luís Montenegro.

A Itália também não condenou a agressão contra o Irã, mas sim as retaliações de Teerã que atingiram bases dos EUA no Oriente Médio, fornecendo apoio aos países do Golfo para suas defesas. O governo italiano expressou solidariedade à “população civil” iraniana que, “corajosamente”, exige o respeito a seus direitos “apesar de sofrer repressão violenta e injustificável”.

Contexto

O aumento das tensões entre o Irã, os Estados Unidos e seus aliados europeus ocorre em um momento de crescente instabilidade no Oriente Médio, com conflitos em andamento na Síria, Iêmen e outros países. A disputa em torno do programa nuclear iraniano e as acusações de apoio a grupos militantes na região exacerbam as tensões, aumentando o risco de uma escalada militar em larga escala com consequências imprevisíveis para a paz e a segurança global.

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