Irã Lacra Igreja Histórica de São Pedro em Teerã e Intensifica Perseguição a Cristãos
O governo do Irã lacrou, nas últimas semanas, a Igreja Evangélica de São Pedro, localizada em Teerã. Esta ação afeta o templo protestante mais antigo do país, com aproximadamente 150 anos de história, marcando uma escalada na repressão contra minorias religiosas. As autoridades iranianas não apenas fecharam as portas da igreja, mas também interditaram seus escritórios, proibiram reuniões religiosas e exercem pressão para que as famílias residentes no complexo deixem o local.
A medida drástica contra a Igreja de São Pedro não se restringe ao fechamento. Forças de segurança intensificam a vigilância e as ameaças, obrigando moradores a se deslocarem. Sargez Benyamin, secretário executivo do Sínodo da Igreja Evangélica do Irã na Diáspora, confirma que oito famílias já foram forçadas a abandonar a propriedade. Atualmente, apenas três famílias resistem, mas continuam sob forte intimidação para desocupar o complexo.
Confisco e Pressão: A Tática do Regime Iraniano
A ação contra a Igreja Evangélica de São Pedro insere-se num padrão de confiscos de propriedades cristãs no Irã. Sargez Benyamin lamenta a perda, destacando a gravidade da situação: “No momento, não nos resta nenhuma propriedade. [São Pedro] era a última”. Ele ressalta que, em 2023, o país ainda possuía seis igrejas presbiterianas em pleno funcionamento, um número que agora se torna ainda mais incerto com o fechamento do templo em Teerã.
O complexo da igreja, além do templo histórico, abrigava residências e duas escolas, servindo como um centro comunitário vital para a comunidade cristã. Em junho, o governo iraniano emitiu uma escritura oficial declarando que toda a área da Igreja de São Pedro pertence ao regime. Esta decisão é veementemente contestada pelos cristãos iranianos, que afirmam possuir documentação legal que comprova a transferência da propriedade para a igreja décadas antes.
O Histórico da Igreja e a Disputa por Propriedades
Mansour Khajehpour, um ex-presbítero da igreja, refuta o argumento governamental com base nos registros históricos. “As escrituras foram transferidas para [cristãos iranianos] há muitos anos. Já pertence aos iranianos. É nossa propriedade”, afirmou Khajehpour, enfatizando a ilegitimidade da apropriação por parte do Estado. A disputa pela posse da propriedade da Igreja de São Pedro remonta a um período sensível na história iraniana.
Os problemas mais agudos começaram após a Revolução Islâmica de 1979. O governo iraniano alega que o complexo, por ter sido fundado por missionários americanos, pode ser confiscado sob a justificativa de ser uma propriedade estrangeira ou vinculada a interesses externos. Contudo, a liderança da igreja insiste que a posse foi devidamente regularizada tanto antes quanto depois do levante revolucionário, conferindo legitimidade à sua reivindicação.
Este padrão de confisco não é isolado. Sargez Benyamin revela que outras propriedades cristãs foram tomadas ou demolidas nos últimos anos. A Execução da Ordem do Imã Khomeini (EIKO), uma poderosa entidade econômica vinculada ao Estado iraniano e responsável pela gestão de bens confiscados, assumiu o controle de diversos imóveis ligados a igrejas protestantes. Dentre as cidades afetadas por essas ações estão Tabriz, Karaj, Gorgan e Mashhad, evidenciando uma estratégia coordenada de apropriação.
Escalada da Repressão: Consequências da Revolução Islâmica
Nos últimos anos, o governo do Irã ampliou significativamente as restrições contra as igrejas protestantes, endurecendo a vigilância e as proibições. Em 2014, uma medida particularmente impactante proibiu que convertidos do islamismo ao cristianismo participassem de cultos realizados em farsi, a língua oficial do país. Essa proibição forçou muitos fiéis a buscar refúgio em igrejas domésticas, operando na clandestinidade para exercer sua fé.
Sargez Benyamin, que atuou como pastor da Igreja de São Pedro entre 2008 e 2015, testemunha o agravamento da situação desde então. “Infelizmente, a situação continuou a deteriorar-se e chegou ao ponto em que o governo nem sequer tolera a presença de cristãos assírios [e] armênios naquele local de culto histórico”, declara. Esta afirmação sublinha que a repressão transcende os convertidos, atingindo comunidades cristãs tradicionais e reconhecidas, como os assírios e armênios, que historicamente coexistem no Irã.
A intransigência do regime iraniano reflete uma política estatal de controle rígido sobre a prática religiosa, especialmente para aquelas minorias percebidas como potenciais focos de dissidência ou influência ocidental. A perda de um templo com 150 anos de história, como a Igreja Evangélica de São Pedro, não representa apenas o fechamento de um edifício, mas a eliminação de um marco cultural e religioso, e um golpe profundo para a identidade e a liberdade da comunidade protestante no país.
“O Que Está em Jogo”: Liberdade de Culto e Direitos Fundamentais
O confisco da Igreja Evangélica de São Pedro e a crescente repressão aos cristãos no Irã colocam em xeque os direitos fundamentais de liberdade de religião e culto, garantidos por diversas convenções internacionais de direitos humanos. Para o cidadão iraniano, a proibição de expressar publicamente sua fé sem medo de perseguição significa uma restrição severa de sua autonomia individual e coletiva.
No âmbito social, a eliminação de espaços de reunião para minorias religiosas fomenta a fragmentação comunitária e o aumento da clandestinidade, gerando um ambiente de medo e desconfiança. Para o setor religioso, esta política representa a destruição de patrimônio histórico e cultural, além de um desestímulo à manutenção de tradições e instituições centenárias. A comunidade internacional observa com preocupação as ações do Irã, que violam princípios básicos de coexistência e pluralidade religiosa.
O Futuro da Fé: Resiliência Cristã em Meio à Adversidade
Apesar da intensa pressão e dos confiscos de propriedades, a comunidade cristã no Irã demonstra notável resiliência. Mansour Khajehpour, ex-presbítero da Igreja de São Pedro, expressa uma convicção inabalável no futuro da fé cristã no país. Para ele, as medidas repressivas do governo, embora severas, não conseguirão frear o crescimento espiritual.
“Essa é a realidade dinâmica da igreja. A igreja não vai morrer. A igreja vai crescer, e nós fazemos parte dessa igreja”, declara Khajehpour. Sua afirmação reflete uma esperança partilhada por muitos, que acreditam na capacidade da fé de se adaptar e prosperar mesmo diante da adversidade, muitas vezes através de redes de igrejas domésticas e da persistência de suas comunidades.
O fechamento da Igreja Evangélica de São Pedro serve como um doloroso lembrete dos desafios enfrentados pelas minorias religiosas no Irã, mas a mensagem de Khajehpour ecoa a crença de que a fé e a comunidade continuarão a encontrar caminhos para se manifestar e se fortalecer, mesmo sob as mais severas condições.
Contexto
O Irã, uma república islâmica, tem um histórico complexo de relações com minorias religiosas desde a Revolução Islâmica de 1979. Embora reconheça oficialmente cristãos, judeus e zoroastristas, o regime impõe restrições significativas, especialmente sobre convertidos do islamismo. O confisco de propriedades e a repressão de cultos públicos refletem uma política estatal de controle e assimilação, gerando condenação de grupos de direitos humanos internacionais.