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Gonet escapa de investigação do MPF por sua ligação com Vorcaro

Conselho Superior do Ministério Público decide não investigar Paulo Gonet em caso Daniel Vorcaro

O Conselho Superior do Ministério Público (CSMP) decidiu, por uma margem apertada de 5 votos a 4, não instaurar investigação sobre a conduta do procurador-geral da República (PGR), Paulo Gonet. A deliberação, tomada na tarde desta sexta-feira (25), focou em uma suposta relação de proximidade entre Gonet e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, proprietário do liquidado Banco Master. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro, apreendido em investigação da Polícia Federal, indicavam citações ao nome do PGR, gerando questionamentos éticos e funcionais. Além disso, o Conselho, de forma unânime, rechaçou o pedido de afastamento de Gonet dos processos relacionados ao Banco Master.

A votação, que manteve Paulo Gonet no comando das investigações do Ministério Público Federal (MPF) que possam, eventualmente, cruzar com o caso Banco Master, sinaliza a confiança majoritária do órgão na atuação do PGR. No entanto, a divisão acirrada de votos sobre a necessidade de uma investigação interna revela a complexidade e a controvérsia que o tema suscitou entre os membros do CSMP. A decisão final impacta diretamente a percepção pública sobre a transparência e a autonomia do Ministério Público em apurações de alta relevância.

Votação no CSMP: Uma Análise da Divisão e Consenso

A sessão do Conselho Superior do Ministério Público, presidida pelo vice-presidente do colegiado, o subprocurador-geral Nicolao Dino (irmão do ministro do Supremo Tribunal Federal, Flávio Dino), culminou na não abertura de uma apuração preliminar contra Paulo Gonet. O relator do caso, subprocurador Francisco de Assis Sanseverino, votou contra a investigação e o afastamento, sendo acompanhado pelos subprocuradores Celso de Albuquerque Silva, Alexandre Camanho, Chateaubriand Filho e Nicolao Dino. Essa maioria de cinco votos selou o destino do pedido de apuração.

Em contrapartida, as subprocuradoras Janice Ascari, Samantha Chantal Dobrowolski, Ana Borges Santos e o subprocurador José Adônis Callou de Araújo Sá manifestaram-se favoráveis à designação de um subprocurador para iniciar uma apuração preliminar. Embora divergentes quanto à investigação, todos os membros do Conselho, inclusive aqueles que votaram pela apuração preliminar, concordaram em formar maioria para que Paulo Gonet não seja afastado dos processos que envolvem o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master. Essa unanimidade no afastamento destaca uma preocupação em manter a continuidade da atuação institucional, apesar das dúvidas levantadas sobre a conduta pessoal.

Argumentos da Maioria: Presunção de Inocência e Escassez de Provas

O subprocurador Francisco de Assis Sanseverino, relator do caso, fundamentou seu voto na inexistência de elementos concretos para iniciar um procedimento investigatório. Ele enfatiza que a atuação do Procurador-Geral da República segue os princípios da legalidade, utilidade e eficiência da persecução penal. “Em conclusão, entendo que não cabe dar início ao procedimento de designação. Em consequência, julgo prejudicados os pedidos de afastamento para atuar naqueles casos e todo o exame daquela fundamentação. Indefiro o pedido de instauração”, conclui Sanseverino em seu voto.

Sanseverino defendeu a impossibilidade de impedimento ou suspeição de Gonet em seu cargo, argumentando que a suspeição seria aplicável apenas em casos diretamente relacionados a denúncias formais perante o Supremo Tribunal Federal (STF). Ele fez uma detalhada defesa das amplas atribuições do PGR, que incluem a capacidade de oferecer denúncias até mesmo contra o presidente da República, ressaltando a importância da independência do cargo. As informações divulgadas pela imprensa sobre a relação entre Gonet e Vorcaro, segundo Sanseverino, são “fracas”, sem registro de comunicação direta entre os dois e com citações apenas por terceiros.

“Ou seja, não há registro de comunicação direta entre o investigado Daniel Vorcaro e Paulo Gonet, o que, embora respeitando as razões das notícias, já enfraquece a tese da alegada existência ‘da amizade íntima entre Daniel Vorcaro e o PGR’”, afirmou o subprocurador-geral. Ele também pontuou que não se pode analisar frases ou troca de mensagens de forma isolada, para não criar “uma situação artificial e que não corresponde à realidade dos fatos”.

O subprocurador Alexandre Camanho, embora tecnicamente não tenha acompanhado o relator ao não considerar os pedidos prejudicados, votou para não conhecê-los, ou seja, para não os considerar legítimos. Camanho ressaltou a “escassez absoluta” de suspeitas contra o PGR e defendeu que não cabe ao CSMPF avaliar se Gonet está impedido de atuar no caso Banco Master. Para ele, o princípio da presunção de inocência prevalece, tornando desnecessária a abertura de uma apuração para que Gonet reafirmasse sua posição. A criação de um precedente para investigar questões que classificou como “cosméticas” seria perigosa.

O Contraponto: A Necessidade de Apuração e Transparência

As subprocuradoras que votaram pela abertura da apuração apresentaram argumentos focados na necessidade de esclarecer as referências a Paulo Gonet nas mensagens apreendidas. A subprocuradora Janice Ascari questionou pontualmente diversos aspectos das comunicações, buscando detalhamento sobre as supostas ligações e encontros. Ela cobra explicações sobre: “quem iniciou a consulta sobre a participação de Pedro Gonet, se houve convite, reserva, pagamento, comunicação sobre eventual custeio? Qual foi o conteúdo daquela breve ligação entre Vorcaro e Gonet realizada por intermédio de Ciro? Se houve outras ligações; se houve outras conversas entre Ciro e Paulo; quem é a pessoa e a qual encontro se referia a expressão que Ciro se utilizou ao dizer ‘estou indo ao PG’”.

Samantha Chantal Dobrowolski, por sua vez, defendeu que Paulo Gonet deveria ter se declarado impedido de emitir qualquer parecer, especialmente em relação ao pedido de nulidade total do relatório da Polícia Federal que apontou citações ao seu nome nas mensagens do celular de Daniel Vorcaro. Ela afirma que “O procurador-geral da República pediu a nulidade com razões técnicas por ele apontadas, discutíveis ou não, […] mas que não excluiu a si próprio. Além de interferir no destino do material que se referia também a várias pessoas, não exclui a si próprio”, citando ainda que Gonet deveria ter se declarado suspeito e se abstido de opinar sobre o caso. A ausência de autoimpedimento, segundo a subprocuradora, comprometeria a imparcialidade.

O Que Estava em Jogo: Implicações da Decisão para o Ministério Público

A análise da conduta de um Procurador-Geral da República pelo Conselho Superior do Ministério Público representa um momento de escrutínio inédito na história do órgão, sendo a primeira vez que isso ocorre. Os nove integrantes do Conselho tinham em suas mãos a decisão de aprofundar ou arquivar as referências a Paulo Gonet, o que carregava implicações significativas.

A abertura de uma investigação, mesmo que preliminar, poderia ter desencadeado uma série de consequências nos processos dos envolvidos no caso Banco Master. Especialistas avaliam que tal medida poderia, inclusive, gerar pedidos de anulação de provas que tivessem alguma relação com atos do PGR, especialmente aquelas que ele próprio tentou anular. A decisão de não investigar, portanto, evita essa cadeia de eventos e reforça a presunção de ausência de irregularidade na conduta de Gonet, mas também pode suscitar questionamentos sobre a profundidade da apuração interna do MPF diante de evidências contextuais.

A Base das Suspeitas: Mensagens da Polícia Federal

As suspeitas sobre Paulo Gonet surgem de material apreendido pela Polícia Federal (PF), que revelou diálogos de Daniel Vorcaro com seus interlocutores. Nesses intercâmbios, Vorcaro faz referências a “Paulo e Andrei”, bem como a “Gonet”, que a PF interpretou como alusões ao procurador-geral da República, Paulo Gonet, e ao diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Essas menções, embora indiretas na maioria dos casos, alimentaram os questionamentos sobre possível influência ou proximidade indevida.

Um dos pontos cruciais envolve o advogado Ciro Soares, interlocutor de Vorcaro. Em março de 2025, o advogado envia uma foto com Gonet e solicita que Vorcaro ligue, afirmando que “ele quer falar com você”. A PF registra quatro chamadas de voz subsequentes a essa interação. Outro episódio é um evento em Londres, em abril de 2024, onde Gonet teria sido citado com a frase “Oba! Tomara que tenha charuto e Macalan”, e supostamente solicitou que seu filho também participasse da viagem em 2025.

Paulo Gonet reconheceu ter encontrado Daniel Vorcaro no evento de Londres em 2024, mas classificou o encontro como breve, “social”, “superficial” e ocorrido em um evento jurídico patrocinado, entre outros, pelo Banco Master. Sobre as “gentilezas” nas mensagens, Sanseverino afirmou que não houve qualquer tipo de relação mais aproximada. Em relação ao convite para seu filho, Gonet refutou a alegação, afirmando que “não pedi ao senhor Vorcaro que convidasse meu filho e tampouco custeasse sua viagem”, classificando as menções como “meras especulações”. Ele também argumentou que, na época do encontro e das mensagens, não existia qualquer procedimento contra o Banco Master no Ministério Público ou na Justiça, o que viria a ocorrer apenas a partir de abril.

Ainda nas mensagens do contato “Alexandre de Moraes”, Vorcaro menciona que o Banco Central (BC) estaria sob pressão do MPF e da PF para tomar decisões sobre o Banco Master, apesar de sua boa situação econômica. Neste contexto, Vorcaro pede: “É importante reforçar com Andrei e Paulo para não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem, que aí vai tudo pro saco. […] Vou te mandar os nomes que têm ido ao Bacen alegando que farão algo em breve”. Em seguida, uma lista de nomes de procuradores, agentes da PF e delegados é enviada. Essas mensagens sugerem uma tentativa de Vorcaro de influenciar decisões, colocando o nome de Paulo Gonet no centro da discussão sobre a lisura e a imparcialidade das instituições.

Contexto

A decisão do Conselho Superior do Ministério Público de não investigar o procurador-geral da República, Paulo Gonet, sobre sua suposta proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, marca um precedente importante para a autonomia e a fiscalização interna do MPF. O desfecho, embora com uma votação apertada para a não apuração, reafirma a confiança da maioria do colegiado na atuação do chefe da instituição. Contudo, a controvérsia em torno das mensagens da Polícia Federal continua a levantar questões sobre a necessidade de maior transparência nas relações de autoridades públicas com investigados, impactando a percepção de integridade do Ministério Público.

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