Um acervo de mais de 300 livros, cuidadosamente reunidos ao longo de uma vida, pode parecer apenas uma coleção particular. No entanto, em Olímpia, no interior de São Paulo, este tesouro pessoal se tornou o pilar de uma iniciativa grandiosa: uma biblioteca popular, aberta a todos e nascida de um sonho póstumo.
A história por trás da Biblioteca Popular Professora Télia é um eco potente da paixão pela leitura, demonstrando como a persistência de uma ideia, mesmo anos após seu idealizador partir, pode florescer e impactar uma comunidade inteira. Este legado não só oferece acesso gratuito à cultura, mas também inspira.
O Legado que Brotou em um Jardim
Localizada no Jardim Menina Moça I, a Biblioteca Popular Professora Télia não é um prédio público imponente, mas a residência de Iuri Rodrigues Pitombo. Foi ali que a ideia, concebida por sua avó, finalmente ganhou vida, perpetuando uma paixão que transcendeu gerações.
A professora Télia, pedagoga e integrante da Academia Olimpiense de Letras, dedicou a vida à educação. Entre seus muitos projetos, estava a criação de uma biblioteca popular para instigar o gosto pela leitura em crianças, jovens e adultos.
Ela atuou em diversas frentes, da alfabetização a trabalhos voluntários, sempre com foco nas crianças de Olímpia. Seu falecimento em 2014, contudo, impediu que o sonho da biblioteca se concretizasse em vida.
Anos depois, seu neto Iuri Rodrigues Pitombo assumiu a missão. A biblioteca, que leva o nome da avó, disponibiliza gratuitamente uma diversidade de gêneros literários para os moradores da cidade, tornando o sonho uma realidade palpável.
O acervo é vasto, incluindo clássicos como “O Menino Maluquinho” e “O Pequeno Príncipe”, obras de peso como “Capitães da Areia” e “O Nome da Rosa”, além de sucessos contemporâneos como “As Crônicas de Gelo e Fogo” e “O Hobbit”.
Para retirar um exemplar, basta fazer um cadastro simples via Instagram, no perfil @bibliotecaproftelia. O empréstimo é totalmente gratuito, sem cobrança de taxas ou multas financeiras, democratizando o acesso ao conhecimento.
A única exigência é a devolução do livro nas mesmas condições em que foi retirado. Danos, como páginas rasgadas, podem resultar na suspensão temporária de novos empréstimos, garantindo a conservação do acervo.
A biblioteca também aceita doações de livros em bom estado. Revistas, didáticos desatualizados, enciclopédias antigas ou exemplares danificados não são recebidos, mantendo a qualidade e relevância do acervo disponível.
Funcionando de terça a domingo, das 13h às 20h, na Rua do Rouxinol, nº 316, no Jardim Menina Moça I, a iniciativa hoje se dedica à retirada e devolução. No futuro, a proposta é expandir para oferecer um espaço de permanência e atividades culturais.
Impacto na região
A efervescência literária observada em Olímpia, com a Festa Literária e a Biblioteca Popular, ecoa a necessidade crescente de iniciativas culturais em diversas regiões do país. Embora os eventos se concentrem em Olímpia, o conceito de bibliotecas comunitárias e o fomento à leitura são bandeiras levantadas por ativistas culturais e educadores em todo o Brasil.
A inspiração de um projeto como o da Professora Télia, nascido do esforço individual e do legado familiar, pode servir de modelo para outras comunidades, incluindo municípios da região de Jundiaí. A carência de acesso a livros e espaços culturais públicos é uma realidade compartilhada, e ações como essa mostram o potencial transformador da sociedade civil.
Festa Literária de Olímpia: Um Palco para a Palavra
Paralelamente ao florescimento da biblioteca, a terceira edição da Festa Literária de Olímpia (FLO 2026) movimentou a ECO – Estação Cultural. O evento, realizado pela Associação Olímpia para Todos com o apoio da Secretaria de Cultura e Defesa do Folclore, reforçou a importância de ampliar o acesso e incentivar o hábito da leitura.
Com um público estimado entre 30 e 50 pessoas, a FLO foi um caldeirão de manifestações artísticas. Os temas “Histórias de todos nós – relatos de experiências de vida” e “Poesia nossa de cada dia” guiaram a programação, convidando à reflexão e à criatividade.
A abertura, conduzida pela presidente da Associação Olímpia para Todos, contou também com a secretária de Cultura e Defesa do Folclore, Priscila Foresti. O destaque inicial foi uma roda de contação de histórias, com a participação dos escritores olimpienses Bibi Mathias Neto, William Zanolli e Maria Antonia de Oliveira.
Nesta roda, foram resgatados relatos de brincadeiras infantis em Olímpia, algumas marcadas por ousadia e situações de risco, além de curiosidades locais. A memória afetiva foi um dos pontos altos da atividade, conectando passado e presente.
Um dos projetos lançados foi o “Histórias de todos nós – relatos de experiências de vida”. A iniciativa busca coletar narrativas de moradores e visitantes da região, com as selecionadas sendo gravadas em áudio e divulgadas em plataformas como o YouTube.
O professor e escritor Severino Antonio Moreira Barbosa, doutor em Educação pela Unicamp, também marcou presença virtual. Em um vídeo gravado para a FLO, ele enfatizou a necessidade de manter um olhar renovado sobre a realidade, como o das crianças, para descobrir novos significados no cotidiano.
Outro destaque foi o lançamento do concurso “Poesia nossa de cada dia”. A proposta incentiva a criação de textos narrativos a partir de vivências pessoais ou de terceiros, revelando a poesia inerente às situações mais comuns. Os três melhores trabalhos serão premiados com caixas de livros, escolhidas em conjunto com os vencedores.
Memória e representatividade no palco
A relação entre literatura, memória e representatividade ganhou voz com Agnes Marques, filha do artista Wadão Marques. Ela apresentou um vídeo com indicações bibliográficas essenciais sobre o tema “Mulheres Negras”, enriquecendo o debate cultural.
O encerramento emocionante ficou por conta da apresentação teatral “Vozes Femininas”, estrelada pela atriz Gleici Cruz. Inspirado na poesia atemporal de Cora Coralina, o espetáculo criou um ambiente que homenageou a vida e obra da célebre poetisa brasileira.
Durante todo o evento, a tradicional Troca de Livros permaneceu ativa. Os participantes puderam levar seus exemplares e trocá-los gratuitamente por outras obras, promovendo a circulação da leitura e o acesso a novos títulos.
Olhar Ampliado sobre o Hábito da Leitura
A vitalidade observada em Olímpia, com uma festa literária robusta e o surgimento de uma biblioteca popular em ambiente doméstico, reflete uma tendência global: o crescente reconhecimento da leitura como ferramenta essencial não apenas para a educação formal, mas para a construção da cidadania e o bem-estar social.
Historicamente, o acesso ao livro esteve restrito a elites ou a grandes centros urbanos. Contudo, nas últimas décadas, movimentos sociais e iniciativas comunitárias têm lutado para descentralizar a cultura. A internet e as redes sociais, inclusive, oferecem novas plataformas para a divulgação literária, como visto nos projetos da FLO de gravar relatos e publicar poesias.
A relevância desses projetos em 2026 não reside apenas na oferta de livros, mas na criação de um ecossistema cultural que estimula a produção e a fruição. Em um mundo cada vez mais digital, iniciativas que valorizam o contato físico com a obra e a interação humana em torno dela tornam-se faróis para o resgate do hábito leitor.
Este cenário de efervescência cultural local importa agora porque ele sublinha uma verdade inegável: a sede por conhecimento e por histórias é intrínseca ao ser humano. Promover a leitura é investir em mentes mais críticas, em sociedades mais engajadas e em futuros mais promissores, a partir da base de cada comunidade.



