Três proeminentes candidatos à Presidência da República – Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (PSD-GO) – apresentaram suas visões e propostas para o agronegócio brasileiro durante a 25ª edição do Congresso Brasileiro do Agronegócio (CBA). O evento, promovido pela Associação Brasileira de Agronegócio (Abag) e pela B3, tornou-se um palco fundamental para que os postulantes ao mais alto cargo do país detalhassem estratégias para um setor vital para a economia nacional.
Realizado nesta segunda-feira (10) em São Paulo, o CBA reuniu líderes e especialistas para discutir os rumos do agronegócio. Os presidenciáveis participaram via vídeos, respondendo a três eixos temáticos cruciais: aprimoramento da competitividade internacional, uso estratégico da tecnologia para fortalecer a liderança brasileira e a criação de condições institucionais e regulatórias estáveis para estimular novos investimentos no campo.
A Relevância do Congresso Brasileiro do Agronegócio para a Pauta Presidencial
O Congresso Brasileiro do Agronegócio representa anualmente um dos principais fóruns de debate sobre as políticas e o futuro do setor no Brasil. A participação de candidatos à Presidência sublinha a importância estratégica do agronegócio, que responde por uma parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB) nacional, gera milhões de empregos e é um dos motores das exportações do país. As questões abordadas no evento refletem as maiores preocupações dos produtores e investidores: como manter a produção eficiente, como acessar mercados globais e como garantir um ambiente de negócios previsível.
A atenção dos presidenciáveis a temas como competitividade, tecnologia e segurança regulatória indica um reconhecimento da complexidade e da necessidade de políticas públicas robustas. As propostas apresentadas oferecem um vislumbre das diferentes abordagens que cada candidato adota para sustentar o crescimento e a sustentabilidade do setor, que enfrenta desafios desde a logística até as dinâmicas do comércio exterior.
Flávio Bolsonaro: Críticas à Gestão Atual e Foco na Responsabilidade Fiscal
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) centrou suas intervenções em críticas diretas ao ambiente econômico e às condições atuais para o produtor rural e o empreendedor. O candidato afirmou que a gestão federal criou um “cenário hostil” para quem produz no país, o que se traduz em entraves diários para a atividade econômica.
Bolsonaro destacou que a alta burocracia, a carga tributária elevada e o aumento do endividamento público são os principais fatores que sufocam a produção. “Seja por causa da alta burocracia, seja por causa da alta carga tributária, seja por causa de termos um governo que é um grande gastador, que se endivida a níveis estratosféricos”, declarou o candidato, enfatizando a necessidade de uma mudança de rumo para o Brasil.
Impacto da Burocracia e Carga Tributária no Setor
A burocracia excessiva impõe custos adicionais e morosidade para o agronegócio, desde o registro de propriedades até a obtenção de licenças e financiamentos. A carga tributária, por sua vez, eleva os custos de produção, reduzindo a margem de lucro dos produtores e a competitividade dos produtos brasileiros no mercado global. O endividamento público, apontado por Bolsonaro, geralmente se reflete em juros mais altos para empréstimos e menor capacidade de investimento do Estado em infraestrutura essencial para o setor.
Para reverter este cenário, o senador defendeu a responsabilidade fiscal como o principal eixo da política econômica. Segundo ele, o controle rigoroso das contas públicas é uma estratégia fundamental para melhorar o ambiente de negócios, atrair investimentos e, consequentemente, impulsionar o agronegócio, gerando maior estabilidade e confiança para os empreendedores do campo.
A Posição do Brasil no Comércio Internacional
Além das questões internas, Flávio Bolsonaro direcionou críticas à atuação do governo federal nas relações comerciais internacionais. O candidato avalia que o país perdeu significativamente sua capacidade de negociação com parceiros estratégicos. Ele citou a China como exemplo, mencionando sobretaxas impostas à carne brasileira.
“O atual presidente da República briga com todo mundo, não tem força para negociar com a China com sobretaxas impostas a nossa carne exposta pra lá. Precisamos mudar essa mentalidade”, afirmou. Essa perda de poder de barganha, segundo Bolsonaro, prejudica diretamente as exportações agrícolas, um pilar do setor, e pode gerar instabilidade nos mercados para os produtores.
Ronaldo Caiado: Segurança Jurídica e Diversificação de Mercados como Prioridades
O candidato Ronaldo Caiado (PSD-GO) colocou a segurança jurídica como um dos pilares para destravar investimentos no agronegócio. Ele apontou que a imprevisibilidade legal tem sido um grande entrave, impedindo o pleno desenvolvimento do setor. As críticas de Caiado se concentraram na insegurança fundiária, na judicialização ambiental excessiva e nas alterações retroativas de regras, que geram um ambiente de incerteza para os produtores e investidores.
Segundo Caiado, esses fatores, que criam um ambiente instável, mantêm mais de R$ 180 bilhões em investimentos parados. Esse montante representa uma perda significativa de capital que poderia ser injetado na produção, tecnologia e infraestrutura do agronegócio, impactando diretamente a geração de empregos e o crescimento econômico do país.
Desafios da Insegurança Fundiária e Judicialização Ambiental
Para enfrentar a insegurança jurídica, Caiado apresentou quatro compromissos que visam garantir maior previsibilidade ao setor. Essas medidas buscam oferecer um arcabouço legal mais estável, essencial para o planejamento de longo prazo dos produtores e para a atração de capital.
- Um marco legal para a segurança fundiária, que estabeleça um prazo único de 180 dias para decisões administrativas, agilizando processos e minimizando disputas.
- A estabilidade do Código Florestal, garantindo que as regras ambientais não sofram modificações que possam inviabilizar projetos já em andamento ou planejados.
- A implementação do licenciamento por adesão, que desburocratiza a obtenção de licenças ambientais para atividades de menor impacto.
- A criação de um comitê interministerial permanente para coordenar todas as políticas voltadas ao agronegócio, assegurando coesão e eficiência na gestão pública do setor.
Estratégias para Ampliar o Poder de Barganha no Comércio Global
Na política externa, Caiado alertou para o risco da concentração das exportações agropecuárias brasileiras. Ele destacou que cerca de 40% das vendas externas do setor têm a China como destino, o que, para ele, é uma vulnerabilidade estratégica. A dependência de um único mercado, mesmo que robusto, expõe o Brasil a riscos geopolíticos e econômicos, como flutuações de demanda ou barreiras comerciais.
O candidato propôs, portanto, a ampliação das relações comerciais com outros mercados. Entre as prioridades, Caiado citou países da Ásia, do Oriente Médio e da África. “Expansão no comércio asiático, adensamento no Oriente Médio e um plano África, com 24 países prioritários; diversificar e ampliar poder de barganha e estabilizar o preço ao produtor”, afirmou. A diversificação busca fortalecer a posição brasileira, aumentar a resiliência do setor e garantir preços mais estáveis para os produtores.
Romeu Zema: Infraestrutura, Ajuste Fiscal e Abertura Comercial
Romeu Zema (Novo-MG) defendeu uma política robusta de expansão da infraestrutura nacional como parte integrante da estratégia para fortalecer o agronegócio. O candidato expressou a intenção de criar o maior portfólio de infraestrutura do país, compreendendo investimentos em rodovias, ferrovias, portos e armazenagem, que são gargalos históricos para o escoamento da produção agrícola.
Uma infraestrutura adequada é fundamental para reduzir os custos logísticos, aumentar a competitividade dos produtos brasileiros no exterior e integrar melhor as diversas regiões produtoras ao mercado nacional e internacional. Sem vias de transporte eficientes, a produção, mesmo que abundante, enfrenta desafios para chegar aos consumidores.
A Crítica ao Plano Safra e a Importância das Contas Públicas
Na esfera econômica, Zema criticou o modelo atual do Plano Safra, principal linha de crédito para o produtor rural. Ele relacionou o custo do crédito rural diretamente ao equilíbrio das contas públicas, argumentando que um governo com alto endividamento não consegue oferecer juros baixos de forma sustentável. A taxa Selic alta, impulsionada pelo desequilíbrio fiscal, eleva o custo de todo o crédito na economia, incluindo o rural.
“Crédito rural barato não se decreta em juros, se constrói com contas públicas em ordem. Por isso, meu compromisso é ajuste fiscal, superávit primário, dívida sob controle e Selic lá embaixo”, afirmou o candidato. A proposta de Zema visa criar um ambiente macroeconômico estável, onde juros baixos são uma consequência natural da solidez fiscal, beneficiando diretamente o produtor com custos de financiamento mais acessíveis.
Flexibilização do Mercosul e Adesão à OCDE
O candidato também defendeu mudanças significativas na política comercial brasileira. Zema propôs a flexibilização das regras do Mercosul, permitindo que o Brasil negocie acordos comerciais de forma independente com outros países. Atualmente, os acordos são negociados em bloco, o que, para alguns, engessa a capacidade brasileira de buscar oportunidades específicas.
Além disso, Zema citou a entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) como uma das prioridades de sua plataforma. Na avaliação do candidato, a adesão à OCDE pode ampliar o acesso do Brasil a mercados mais desenvolvidos e, ao mesmo tempo, pressionar o país a realizar reformas estruturais e modernizar suas práticas regulatórias e econômicas, alinhando-as aos padrões internacionais, o que beneficiaria o ambiente de negócios e a imagem do agronegócio brasileiro globalmente.



