O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, criticou nesta quinta-feira (20) a decisão do governo Lula (PT) de elevar o porcentual de etanol anidro na composição da gasolina. Em julho, uma resolução do Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), órgão interministerial que formula políticas para o setor de energia, determinou o aumento de 30% para 32% na mistura obrigatória do biocombustível ao derivado de petróleo. A medida tem validade inicial de 180 dias, com possibilidade de prorrogação por igual período.
A manifestação de Bolsonaro ocorreu durante sua tradicional transmissão ao vivo semanal no YouTube. Ao lado do deputado federal Guilherme Derrite (PP), que disputa uma vaga ao Senado por São Paulo, o senador posicionou a alteração como um reflexo de uma suposta desvalorização para o consumidor, ecoando um discurso sobre a diminuição de produtos no mercado sem a correspondente redução de preço.
Decisão do CNPE: Detalhes da Nova Proporção
A alteração no teor de etanol na gasolina, de 30% para 32%, representa um ajuste na política energética nacional. O etanol anidro, uma forma de álcool etílico com baixa concentração de água, é adicionado à gasolina para aumentar a octanagem e reduzir a emissão de poluentes. Historicamente, o Brasil tem uma das maiores proporções de biocombustíveis em sua matriz de transportes, um fator estratégico para a economia e para metas ambientais.
A resolução do CNPE, emitida em julho, fixou o novo patamar de 32% para a mistura. Este percentual se enquadra dentro da faixa estabelecida pela legislação brasileira, que permite variações entre 18% e 35% de etanol anidro na gasolina comum. A validade de 180 dias, com a ressalva de prorrogação, indica que a medida pode ser vista como um ajuste temporário, passível de revisão conforme as condições de mercado, oferta de matéria-prima e os objetivos da política energética.
O Argumento de Flávio Bolsonaro: “Gasolina Virou Etanol”
A crítica de Flávio Bolsonaro focou na percepção de valor para o consumidor. Ele utilizou uma série de exemplos de produtos que, segundo sua análise, tiveram seus volumes reduzidos sem uma alteração aparente nos preços. “É verdade. Uma coisa que a gente vai ter que discutir, essa quantidade de etanol que tem dentro da gasolina”, afirmou o senador, introduzindo sua linha de raciocínio.
O parlamentar exemplificou com produtos do cotidiano: “as pessoas vão comprar uma barrinha de chocolate no mercado, era de 200 gramas, agora, 160. Vai comprar um rolo de papel higiênico, que era de 40 metros, hoje tem 36. Caixa de Bis, que vinha com 20, agora vem com 16. Dúzia de ovos passou a ter dez.” Para Flávio Bolsonaro, a elevação do percentual de etanol na gasolina se enquadra nesse mesmo padrão de “encolhimento” ou diluição percebida pelo consumidor, culminando na frase enfática: “A gasolina virou etanol. Nem o combustível esse governo tá poupando.”
Esta analogia busca criar um elo direto entre a política governamental e a suposta perda de poder de compra ou qualidade por parte do cidadão, associando a medida a uma percepção negativa sobre a integridade do produto final.
Consequências Práticas para o Consumidor e o Mercado de Combustíveis
O aumento de 2% no teor de etanol anidro na gasolina tem implicações diretas para diversos elos da cadeia. Para o consumidor, a principal questão reside no rendimento e no custo-benefício. Embora o etanol seja geralmente mais barato que a gasolina pura, a mistura em maior proporção pode alterar o consumo por quilômetro rodado, dependendo do veículo e do motor.
A percepção de que a gasolina está “diluída” com mais etanol pode gerar questionamentos sobre a autonomia dos veículos e a qualidade do combustível. Esse cenário alimenta o debate sobre a transparência na composição dos combustíveis e os impactos financeiros para o motorista, que busca otimizar seus gastos com transporte. A medida visa, muitas vezes, equilibrar a oferta e demanda, e também responder a variações de preços internacionais do petróleo.
No mercado, a demanda por etanol anidro tende a aumentar. Essa elevação pode influenciar os preços do biocombustível, beneficiando o setor sucroenergético, que verá um maior escoamento de sua produção. Contudo, essa dinâmica pode levar a discussões sobre a estabilidade dos preços do etanol e da própria gasolina, que são fatores cruciais para a inflação e para o poder de compra da população.
O Setor Sucroenergético: Incentivo e Alternativas Propostas
O setor sucroenergético brasileiro, um dos maiores produtores de etanol do mundo, tradicionalmente defende percentuais mais elevados de biocombustíveis na matriz energética. O aumento na mistura da gasolina é visto como um incentivo direto, garantindo maior volume de vendas para a produção de cana-de-açúcar destinada ao etanol. A medida contribui para a sustentabilidade econômica das usinas e para a manutenção de empregos na cadeia produtiva.
Apesar de reconhecer a importância do setor, Flávio Bolsonaro argumenta que existem “outras formas” de incentivar a indústria, sem necessariamente recorrer ao aumento do porcentual de mistura na gasolina. Embora não tenha detalhado quais seriam essas alternativas durante a transmissão, tais propostas geralmente giram em torno de políticas fiscais, linhas de crédito diferenciadas, investimentos em pesquisa e desenvolvimento para novas tecnologias de produção ou expansão do uso do etanol em outros modais, como frotas de transporte público ou de carga.
O debate sobre o melhor caminho para incentivar o setor é contínuo, envolvendo questões de competitividade, tecnologia e alinhamento com as políticas ambientais e energéticas de longo prazo do país. A busca por um equilíbrio entre o estímulo à produção nacional e a oferta de um produto de qualidade percebida pelo consumidor final permanece no centro das discussões.



