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Flávio Bolsonaro vence Lula no Litoral Norte; região perde vaga no Congresso

Em um território onde a preservação ambiental e a cultura caiçara ditam o ritmo da vida, o resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 trouxe um cenário que desafia as expectativas tradicionais.

No Litoral Norte de São Paulo, uma região historicamente associada a pautas de esquerda, o candidato Flávio Bolsonaro (PL) conquistou uma vitória significativa sobre Luiz Inácio Lula da Silva (PT), invertendo a tendência nacional e reacendendo debates cruciais sobre o futuro da costa brasileira.

O Litoral Norte e o Voto Divergente

As quatro cidades do Litoral Norte — Caraguatatuba, São Sebastião, Ilhabela e Ubatuba — demonstraram uma preferência clara pelo candidato do PL. Flávio Bolsonaro superou Lula, somando 47,33% dos votos válidos na região, contra 44,8% do petista.

Essa diferença, mais ampla do que a registrada nacionalmente, destaca a complexidade do eleitorado local. Em São Sebastião, Flávio obteve 50,02% dos votos, enquanto Lula alcançou 41,68%. A situação se repetiu em Caraguatatuba, onde o candidato do PL garantiu 55,89% dos eleitores.

Ilhabela também registrou maioria para Bolsonaro, com 53,51% dos votos, superando os 37,39% de Lula. O cenário mais acentuado foi em Ubatuba, que deu 59,36% para Flávio, contra 33,15% para o ex-presidente.

Esses números são especialmente notáveis em um contexto de discussões intensas sobre a preservação da Mata Atlântica, a proteção das comunidades tradicionais e o avanço da especulação imobiliária, temas geralmente vinculados à agenda ambientalista.

Impacto na região

O direcionamento do voto na região do Litoral Norte, contrastando com pautas historicamente associadas à esquerda, tem implicações diretas para os moradores e o ecossistema local. A escolha do eleitorado reflete nuances que vão além da polarização nacional, tocando em pontos nevrálgicos do desenvolvimento costeiro.

A forma como questões como a ocupação da orla, a expansão do turismo e a proteção da **cultura caiçara** serão tratadas no cenário político nacional pode sofrer um impacto considerável. A ausência de um alinhamento claro entre as prioridades locais e a representação eleita em nível presidencial pode gerar tensões e desafios na implementação de políticas públicas.

Para quem vive da pesca, do turismo sustentável ou simplesmente usufrui das belezas naturais, a governança dessas áreas é vital. As decisões tomadas em Brasília, muitas vezes influenciadas por figuras como o relator da PEC das Praias, moldam a realidade de quem mora na costa, definindo o acesso, a propriedade e o futuro de um patrimônio natural e cultural insubstituível.

A PEC das Praias: Disputa Aberta Pelo Litoral

Um dos pontos mais sensíveis que emerge desse debate eleitoral é a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) das Praias. Com Flávio Bolsonaro como relator no Senado, a proposta tem gerado discussões acaloradas sobre o futuro das terras de Marinha.

A PEC visa transferir a propriedade desses terrenos, atualmente da União, para estados, municípios e até mesmo para ocupantes particulares. A medida, que avançou na Câmara e está em análise no Senado, levanta questionamentos profundos sobre o acesso e a proteção dos espaços costeiros.

O senador nega que a proposta represente uma privatização das praias, garantindo que o acesso à faixa de areia permanecerá público. Contudo, o governo federal já alertou que, embora as praias sejam bens de uso comum, a transferência de áreas contíguas pode, sim, dificultar o acesso público em certos pontos.

É precisamente nesse aspecto que ambientalistas e setores de defesa do litoral enxergam grandes riscos. O temor é de um aumento da ocupação privada da costa, culminando em barreiras para a população e na descaracterização de ecossistemas frágeis.

Essa discussão ganha contornos ainda mais dramáticos no Litoral Norte, onde a Mata Atlântica, praias intocadas, comunidades caiçaras e grandes empreendimentos turísticos coexistem sob uma intensa pressão imobiliária. A decisão sobre as terras de Marinha define não apenas quem as possui, mas como elas serão usadas e protegidas.

Sem Representantes Locais em Brasília e na Alesp

No mesmo pleito, o Litoral Norte enfrentou outro desafio: a ausência de representantes eleitos para a Assembleia Legislativa de São Paulo ou para a Câmara dos Deputados. Essa falta de voz direta no Legislativo federal e estadual levanta preocupações sobre a defesa dos interesses específicos da região.

Entre os candidatos com laços no Litoral Norte, o ex-prefeito de Caraguatatuba, Antonio Carlos da Silva (PSD), teve o melhor desempenho para deputado estadual, com 23.464 votos. No entanto, não foi o suficiente para assegurar uma cadeira.

Para a Câmara Federal, Felipe Augusto (PSDB), ex-prefeito de São Sebastião, obteve 14.748 votos, mas também não conseguiu a eleição. A concentração de votos nas cidades de origem desses políticos, como os 16.446 votos de Antonio Carlos em Caraguatatuba, mostra a força local, mas não a nacional.

Outros nomes, como Charles Medeiros (PSD) em Ubatuba, Manoel Marcos (PP) em Ilhabela, João Colucci (União Brasil) e Danster Fernandes (PV) em Caraguatatuba, também tiveram votações significativas em suas bases. Apesar de uma ampla participação, com pelo menos 17 candidatos regionais na disputa, nenhum garantiu representação.

Essa lacuna pode significar que as particularidades do Litoral Norte — sejam elas a necessidade de investimentos em infraestrutura, a defesa de políticas ambientais ou o fomento ao turismo sustentável — terão menos eco nas grandes casas legislativas. A articulação de pautas importantes dependerá da capacidade de outros parlamentares abraçarem os temas da região.

Terras de Marinha e o Futuro da Costa Brasileira

A discussão sobre as terras de Marinha não é um fenômeno recente, mas uma pauta que se arrasta por décadas, refletindo a complexidade da gestão territorial brasileira. Originárias de um período colonial, essas faixas de terra próximas ao mar foram criadas para fins de defesa e, posteriormente, passaram a ser vistas como patrimônio da União, com o objetivo de garantir o acesso público e a preservação costeira.

A evolução do debate, especialmente nas últimas décadas, tem sido impulsionada pela crescente pressão imobiliária, pelo desenvolvimento do turismo e pela urbanização desordenada das áreas costeiras. Essas forças econômicas, muitas vezes em choque com os princípios de preservação ambiental e equidade social, alimentam a busca por uma nova regulamentação.

A relevância desse assunto agora, no ano de 2026, é amplificada pela urgência das mudanças climáticas e pela necessidade de proteger ecossistemas costeiros vitais. As decisões sobre a gestão dessas terras terão consequências a longo prazo para a biodiversidade, a segurança das comunidades costeiras contra eventos extremos e a própria identidade cultural de regiões como o Litoral Norte.

A agenda ambiental, que voltou com força nas campanhas presidenciais, destaca a divergência de visões: de um lado, propostas de flexibilização de regras, de outro, a defesa intransigente das normas de proteção e das metas de descarbonização. O futuro das terras de Marinha, portanto, não é apenas uma questão de propriedade, mas um termômetro do compromisso do país com seu litoral e com as gerações futuras.

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