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Flávio Bolsonaro centraliza segurança com “Padrão Bukele” em campanha presidencial

A equipe de campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República define o endurecimento contra o crime como um dos pilares estratégicos da disputa, adotando o controverso modelo de segurança de El Salvador, conhecido como “padrão Bukele”, como principal referência. O candidato promete, se eleito, uma série de medidas rigorosas: ampliar presídios, aumentar o tempo de cumprimento de penas e restringir benefícios para integrantes de organizações criminosas. A estratégia ganha força em um cenário onde a segurança pública emerge como a maior preocupação dos brasileiros, influenciando diretamente o debate eleitoral.

Uma pesquisa Quaest, divulgada em 14 de agosto de 2026, corrobora a relevância do tema: 33% dos entrevistados citam a violência como principal problema do país. Este índice supera amplamente outras preocupações históricas como economia (15%), saúde (14%) e corrupção (14%). Os dados indicam uma mudança significativa na percepção do eleitorado, pressionando os candidatos a apresentarem soluções robustas para a criminalidade.

A Virada na Campanha: Segurança Pública como Eixo Central

A percepção de que a segurança pública domina o topo das preocupações nacionais impulsiona a equipe de Flávio Bolsonaro a capitalizar sobre o tema. Ao fazer da criminalidade o cerne de sua agenda, a campanha busca dialogar diretamente com uma parcela significativa do eleitorado que anseia por respostas efetivas e urgentes. Este posicionamento visa não apenas atrair eleitores, mas também moldar a narrativa da disputa presidencial, forçando adversários a se posicionarem sobre propostas mais incisivas no combate ao crime.

O Endurecimento do Discurso e Seus Alvos

Flávio Bolsonaro associa sua proposta de endurecimento à ideia de “recuperar o controle das ruas”. Durante uma transmissão ao vivo em 20 de agosto, o candidato declarou a intenção de “devolver as ruas” à população, afirmando que “hoje, o bandido domina a rua, domina até o governo”. A retórica busca criar um senso de urgência e um contraste direto com a atual gestão.

Em um evento público em Nova Iguaçu, no dia 21, o candidato reiterou o tema com um apelo direto às organizações criminosas. “Metam o pé até o final do ano, enquanto vocês têm um presidente da República que passa a mão na cabeça de vocês”, disse. Esta fala visa reforçar a imagem de um líder com mão forte, pronto a confrontar a criminalidade sem hesitações. A mensagem polarizadora busca solidificar o apoio de eleitores que se sentem desprotegidos e desejam uma postura mais ostensiva do Estado.

O “Padrão Bukele” no Brasil: Propostas e Implicações

A campanha do PL intensifica a associação de seu discurso de endurecimento com o modelo implementado por Nayib Bukele, presidente de El Salvador. O país centro-americano registrou uma queda drástica nos índices de homicídios sob sua gestão, tornando-se uma referência para políticos latino-americanos que defendem respostas mais rigorosas à criminalidade. No entanto, o “padrão Bukele” também é alvo de críticas severas de organizações de direitos humanos, que denunciam prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia do Estado.

As propostas de Flávio Bolsonaro para aplicar este modelo no Brasil são ambiciosas e abrangem diversas áreas do sistema penal. A linha de endurecimento inclui classificar o PCC (Primeiro Comando da Capital), o Comando Vermelho e as milícias como organizações terroristas. Esta medida, se aprovada, implica uma alteração significativa na legislação, permitindo que os integrantes dessas facções sejam processados e condenados sob a Lei Antiterrorismo, que prevê penas mais severas e restrições adicionais.

Medidas Penais Específicas e a Crítica Direta

Além da classificação de organizações, o plano de governo do senador Flávio Bolsonaro propõe a ampliação do sistema prisional e o aumento do tempo de cumprimento das penas, visando um maior rigor na execução das condenações. Em Nova Iguaçu, o candidato do PL defendeu a pena mínima de oito anos para ladrões de celulares e receptadores. “Eu não vou mais admitir passar a mão na cabeça de ladrão de celular. Ladrão de celular vai ter que trabalhar para pagar a sua estadia. Para dar valor e saber como é difícil comprar um celular”, discursou. Esta medida, se implementada, representa um endurecimento substancial em crimes patrimoniais de alta incidência, buscando coibir a prática e reduzir o ciclo de reincidência, embora demande um aumento significativo da capacidade carcerária.

O programa do candidato também prevê mudanças no regime de cumprimento das penas para condenados por crimes hediondos, com o objetivo de restringir a possibilidade de progressão de regime. A campanha apresenta a medida como parte de uma política de maior rigor, eliminando a percepção de “impunidade” e garantindo que criminosos perigosos permaneçam mais tempo em regime fechado. Este ponto pode gerar debates sobre o papel da ressocialização e os custos de manutenção da população carcerária.

Outra proposta, igualmente polêmica, é a retomada da discussão sobre castração química para condenados por crimes sexuais. A medida aparece entre as pautas que Flávio Bolsonaro tem levado aos atos de campanha, defendendo uma política penal mais severa para crimes considerados de maior gravidade. A implementação dessa medida levanta questões éticas profundas e a necessidade de avaliações médicas e psicológicas, além de debates sobre sua constitucionalidade e eficácia como ferramenta de prevenção da reincidência.

A proteção às mulheres também foi incorporada ao discurso de segurança. Em Nova Iguaçu, Flávio Bolsonaro afirmou que pretende usar tecnologia para ampliar a capacidade de resposta policial em casos de violência contra mulheres. “Nós vamos garantir com tecnologia que a mulher não seja mais vítima desse machismo, porque, se chegarem perto delas, a polícia é acionada automaticamente”, disse. A iniciativa sugere o uso de dispositivos de monitoramento e botões de pânico conectados diretamente às forças de segurança, visando uma intervenção rápida e eficaz em situações de risco, buscando dar mais autonomia e segurança às vítimas.

Maioridade Penal: O Debate Acelerado no Congresso

A estratégia de Flávio Bolsonaro de explorar a redução da maioridade penal se alinha ao amplo apoio da medida entre o eleitorado brasileiro. Uma pesquisa Real Time Big Data, divulgada em maio de 2026, revelou que 90% dos brasileiros são favoráveis à redução da idade de responsabilização penal para 16 anos. Apenas 8% se declaram contrários e 2% não souberam responder. O apoio massivo, que se estende inclusive a parcelas do eleitorado de esquerda (81% dos eleitores de Lula apoiam a medida, contra 16% que se posicionam contra), confere à proposta um forte apelo popular.

A avaliação entre assessores da campanha do PL é que o tema pode expor o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem um histórico de ser contra a medida. Este contraste cria um ponto de divergência claro e uma oportunidade para Flávio Bolsonaro consolidar a imagem de defensor da ordem. Para os eleitores do senador, a taxa de apoio à redução da maioridade penal chega a 96%, demonstrando a sintonia da pauta com sua base eleitoral.

Além de incluir o tema em seu plano de governo, integrantes do PL pretendem explorar a articulação da direita para tentar avançar com uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que tramita no Congresso Nacional. Em 12 de agosto, uma comissão especial foi instalada na Câmara dos Deputados para discutir o projeto, mas a votação final está prevista apenas para depois do período eleitoral. Mendonça Filho (PL-PE), relator da proposta na Câmara, afirmou: “É um debate importante, elevado e vamos tratar esse tema com absoluta responsabilidade. Eu defendi que esse tema fosse deliberado pela comissão especial e pelo plenário da Casa pós-eleição. Porque se houvesse uma aprovação anterior ao processo eleitoral se diria que estávamos querendo politizar e levar à eleição um tema que impacta fortemente na sociedade. Vamos fazer como acordado”.

A expectativa dentro do PL é de que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro na disputa presidencial amplie a mobilização para que o texto seja aprovado. Para ilustrar a urgência da reforma, o candidato tem citado um caso recente ocorrido em uma escola de Pernambuco, onde cinco adolescentes foram apreendidos sob a acusação de estupro coletivo contra duas estudantes de 14 anos. “Eu não quero só para 16 anos a maioridade penal. Eu quero a maioridade penal para 14 anos em casos de crimes hediondos como este. Por isso quero pedir para que só votem em deputados federais e senadores que sejam a favor da redução da maioridade penal”, disse Flávio durante sua live semanal. O tema da maioridade penal para 14 anos em crimes hediondos adiciona uma camada de urgência e rigor ao debate, visando proteger vítimas jovens e garantir punições mais severas para agressores adolescentes.

Desafios e Críticas ao Modelo de Segurança de Endurecimento

Apesar do esforço do PL em usar o modelo Bukele como referência, especialistas questionam os limites e os custos de uma política de segurança baseada no endurecimento. Em El Salvador, a estratégia reduziu drasticamente os homicídios, mas gerou críticas severas por causa da suspensão de garantias constitucionais e da possibilidade de prisões sem ordem judicial. Isso significa que direitos fundamentais, como o devido processo legal e a presunção de inocência, foram flexibilizados em nome da segurança, gerando um custo elevado em termos de direitos civis.

Como reportou a Gazeta do Povo, cerca de 84 mil pessoas foram presas sob o regime de exceção adotado por Bukele. Organizações como a Anistia Internacional e a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) denunciaram casos de prisões arbitrárias, tortura e mortes sob custódia do Estado. O principal símbolo dessa política é o Centro de Confinamento do Terrorismo (CECOT), uma megaestrutura com capacidade para 40 mil detentos, inaugurada em 2023. Embora inspire iniciativas em outros países da América Latina, o modelo enfrenta questionamentos sobre seus efeitos institucionais e sociais a longo prazo. Além disso, o próprio desempenho de El Salvador apresenta desafios em outras áreas: o número de domicílios em situação de pobreza extrema quase dobrou entre 2019 e 2022, indicando que o foco unilateral na segurança pode não resolver problemas sociais estruturais, ou até mesmo agravá-los.

Metodologias das Pesquisas Citadas

A pesquisa Quaest realizou o levantamento por meio de entrevistas presenciais com 2.004 pessoas, aplicadas em âmbito nacional entre 10 e 13 de agosto de 2026. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O levantamento foi contratado pela Rede Globo e registrado no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número BR-06773/2026.

O levantamento Real Time Big Data ouviu 2 mil pessoas em todo o país entre os dias 2 e 4 de maio. A margem de erro é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi realizada com recursos próprios do instituto e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-03627/2026.

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