A Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip) eleva sua projeção para o mercado de crédito imobiliário em 2026. A entidade agora estima que as concessões no setor totalizem aproximadamente R$ 411 bilhões neste ano, um crescimento de 25% em relação a 2025. A estimativa anterior apontava para uma alta de apenas 16%, o que representa uma revisão significativa de nove pontos percentuais.
Esta reavaliação positiva surge impulsionada principalmente pelo reforço de recursos do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) e pela injeção de verbas do Fundo Social do Pré-Sal. O primeiro semestre de 2026 superou as expectativas, com um volume de concessões de crédito imobiliário que alcançou R$ 180,9 bilhões entre janeiro e junho, registrando um avanço de 23% na comparação com o mesmo período do ano anterior.
FGTS Impulsiona Nova Projeção e Assume Protagonismo
O FGTS emerge como o principal motor desta mudança de cenário no crédito imobiliário brasileiro. No início do ano, a Abecip previa um crescimento modesto de apenas 5% nas operações financiadas com recursos do fundo. Contudo, a nova projeção aponta para uma expansão robusta de 38%, um salto expressivo que reflete o impacto direto da ampliação do orçamento habitacional e do reforço de verbas provenientes do Fundo Social do Pré-Sal.
O Fundo Social, responsável por gerir recursos da exploração do pré-sal, tem direcionado parte de seus rendimentos para setores estratégicos, incluindo habitação, o que se traduz em maior disponibilidade de crédito. A expectativa é que as concessões utilizando recursos do FGTS e do Fundo Social atinjam cerca de R$ 195 bilhões em 2026. Com este volume, o FGTS consolida-se como a principal fonte de financiamento habitacional do país neste ano, superando outras modalidades e democratizando o acesso à moradia para milhões de brasileiros.
Essa dependência crescente dos recursos públicos para sustentar o avanço do setor sinaliza uma tendência importante. Significa que, mesmo em um contexto de juros elevados, a capacidade de o cidadão comum acessar financiamento para a casa própria é diretamente impactada pela alocação de verbas desses fundos, garantindo a continuidade do aquecimento do mercado.
Michel Cury, presidente da Abecip, reforça a resiliência do setor. “O primeiro semestre mostrou que a demanda por financiamento imobiliário continua consistente, mesmo em um ambiente de juros elevados. O desempenho do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e a ampliação dos recursos destinados à habitação nos permitiram revisar as nossas estimativas”, afirma Cury, sublinhando que a necessidade habitacional se mantém forte.
SBPE Registra Desempenho Sólido e Supera Expectativas
Embora o FGTS lidere a revisão das projeções, os financiamentos originados pelo Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) também exibem um desempenho acima do previsto. O SBPE, que capta recursos por meio da poupança dos brasileiros, representa uma das bases tradicionais do crédito imobiliário.
A Abecip eleva sua projeção de crescimento para esta modalidade de 15% para 18% em 2026. Em termos de valores absolutos, espera-se que as concessões com recursos da poupança alcancem R$ 185 bilhões neste ano. Isso demonstra a vitalidade do sistema de poupança e sua importância contínua para o financiamento da moradia no Brasil.
O ajuste na projeção reflete um primeiro semestre notavelmente robusto para o SBPE. Entre janeiro e junho, os financiamentos via SBPE somaram R$ 93,7 bilhões, um crescimento expressivo de 29% em relação ao mesmo período de 2025. Dentro desta categoria, o crédito para aquisição de imóveis avançou 12%, indicando uma recuperação na compra e venda de propriedades.
Adicionalmente, os financiamentos à produção de imóveis mais que dobraram na comparação anual. É crucial, no entanto, contextualizar este aumento: parte da forte expansão do crédito à produção decorre de uma base de comparação enfraquecida observada no início do ano passado. Essa condição reduz a probabilidade de manutenção do mesmo ritmo de crescimento acelerado no segundo semestre, sugerindo uma normalização gradual.
Recursos Livres Mantêm Projeção Estável
Na modalidade de recursos livres, a estimativa de crescimento de 31% para o ano permanece inalterada, projetando um volume próximo de R$ 31 bilhões. Esses recursos, diferentemente do FGTS e do SBPE, dependem diretamente da captação de mercado e não contam com o mesmo nível de subsídios ou direcionamento de verbas.
A manutenção da projeção para os recursos livres reflete um ambiente ainda desafiador. As linhas de financiamento que não possuem o amparo de fundos específicos ou políticas de incentivo enfrentam maior volatilidade e sensibilidade às condições macroeconômicas, como as taxas de juros, que impactam diretamente a atratividade e o custo desses empréstimos.
Juros Elevados Persistem no Radar do Mercado Imobiliário
Mesmo diante da revisão otimista das projeções, a Abecip mantém uma postura de cautela para os próximos meses. A entidade avalia que a demanda por moradia permanece sustentada por fatores macroeconômicos como o nível de emprego e a renda da população. No entanto, ressalta que o patamar elevado dos juros continua a ser um dos principais fatores de risco para a evolução do crédito imobiliário no país.
Juros altos encarecem o financiamento, aumentam as parcelas mensais e podem reduzir o poder de compra das famílias, impactando o volume de novas contratações. Essa realidade força o mercado a buscar alternativas e a depender de mecanismos que mitiguem o efeito do custo do dinheiro.
O Que Está em Jogo: A Nova Composição do Funding Imobiliário
Os novos números da Abecip revelam uma mudança substancial na composição do funding habitacional brasileiro. Se, no início do ano, a expectativa era de um crescimento relativamente equilibrado entre as diversas fontes de recursos, a revisão para 2026 indica que o avanço do mercado dependerá cada vez mais do FGTS e dos recursos públicos destinados à habitação. Essa alteração estrutural posiciona o FGTS não apenas como um financiador, mas como o principal protagonista do crescimento do crédito imobiliário. Ele assume o papel de compensar a pressão exercida pelos juros elevados, garantindo que o setor consiga sustentar uma projeção que o levará a superar a marca de R$ 400 bilhões em concessões.
Esta reorientação do financiamento tem implicações diretas para a política habitacional e para o acesso à moradia. A maior participação do FGTS pode assegurar a continuidade dos investimentos no setor, mas também levanta debates sobre a sustentabilidade a longo prazo e a diversificação das fontes de recursos, tornando o mercado mais dependente de decisões governamentais e alocações de fundos públicos.
Contexto
O mercado de crédito imobiliário no Brasil vive um momento de redefinição, com o FGTS e o Fundo Social do Pré-Sal assumindo um papel cada vez mais central na oferta de financiamento. Esta mudança permite ao setor manter uma trajetória de crescimento robusta, apesar dos desafios impostos pelo ambiente de juros elevados. A maior dependência de recursos públicos para impulsionar o acesso à moradia sublinha a importância das políticas governamentais na dinâmica do setor, reforçando sua capacidade de superar adversidades e atender à demanda habitacional da população.



