O Festival Internacional do Documentário Musical, In-Edit Brasil, inicia sua 18ª edição nesta quarta-feira, dia 17, em São Paulo, e exibe filmes sobre ícones e narrativas da música nacional e internacional. O evento, consolidado como vitrine para o gênero, apresenta cerca de dez títulos inéditos, incluindo a aguardada produção A Noite de Alaíde Costa, que revisita a trajetória da cantora.
O documentário, dirigido por Liliane Mutti, mergulha no racismo enfrentado por Alaíde Costa, uma das grandes vozes da bossa nova. Ele expõe o descaso de gravadoras e a exclusão da artista de uma apresentação histórica no Carnegie Hall, em Nova York, em 1962.
A produção acompanha a cantora em 2023, aos quase 90 anos, quando finalmente pisou naquele palco. Um ato de reparação histórica, décadas após o preconceito silenciar sua participação original.
Além de retratar artistas, bandas e gêneros, o festival foca em locais icônicos da música brasileira. É o caso de Canecão – Tantas Emoções, filme de Bruno Levinson que resgata a história do lendário palco carioca, inaugurado no fim dos anos 1960, celeiro de grandes nomes.
In-Edit Expande o Olhar sobre a Diversidade Musical Brasileira
Marcelo Aliche, diretor do In-Edit Brasil, ressalta a vasta diversidade de ritmos e estilos da música brasileira, visível nos mais de duzentos documentários nacionais inscritos.
“A gente fica muito contente, porque o Brasil tem uma cultura muito diversa, assim, de norte a sul, a gente tem muitas maneiras de se expressar do ponto de vista musical, cultural”, declarou Aliche.
A curadoria abrange do rock ao erudito, do punk de bandas como Inocentes até o samba de Ary Barroso. O festival traz obras sobre artistas de projeção internacional, como Airto Moreira e Flora Purim, e também ícones regionais, como Dona Onete e Alceu Valença. Aborda ainda figuras importantes dos bastidores, como o produtor Ezequiel Neves e Ricardo Amaral, conhecido como o “Rei da Noite”.
Essa amplitude espelha a riqueza sonora do país, com filmes que percorrem geografias e gerações distintas.
Entre os títulos nacionais, a programação reserva espaço para veteranos da música brasileira. Universo Circular – Jocy de Oliveira, dirigido por Dácio Pinheiro, narra a trajetória de uma das figuras pioneiras na música eletrônica do país. Aos quase 90 anos, Jocy rememora sua inovadora carreira.
Outro filme de destaque é Pontos de Força, de Vânia Lima. A produção acompanha Mateus Aleluia, músico octogenário e um dos fundadores do lendário grupo Os Tincoãs. O documentário segue Aleluia por lugares sagrados do candomblé em Cachoeira, sua terra natal na Bahia, revelando a profunda ligação entre música, espiritualidade e ancestralidade.
Essas obras não apenas celebram a longevidade desses artistas, mas também documentam o legado e a persistência de suas vozes, muitas vezes esquecidas ou subvalorizadas pela indústria cultural mainstream.
Festival Amplia Alcance com Shows e Acessibilidade
Além das exibições em salas como Cinemateca, Cine Sesc, SP Cine Paulo Emílio, SP Cine Olido, Matilha Cultural, Cine Bijou e Patuá Discos, o festival oferece uma série de atividades paralelas. A programação inclui uma feira de vinil na Cinemateca e apresentações de artistas como Alaíde Costa, Fernanda Abreu, Odair José e as bandas Inocentes e DZK em diversas casas de show da cidade.
A iniciativa permite que o público estabeleça um elo direto com os artistas retratados nos filmes.
Marcelo Aliche explicou que a programação paralela surge dos temas dos filmes. Eu sempre brinco que a nossa função é trazer a música para dentro do cinema. E aí esse ano aconteceu de a gente levar o cinema para as casas de música”, declarou o diretor. Ele acrescentou que os shows, bate-papos e debates expandem o conteúdo dos documentários, proporcionando ao público uma visão mais completa.
O In-Edit Brasil reforça seu compromisso com a inclusão, oferecendo mais de 100 sessões com recursos de acessibilidade. Há opções com Libras, legendas descritivas e audiodescrição.
Para quem não está em São Paulo, parte da programação estará disponível online. As plataformas Itaú Cultural Play, Sesc em Casa e SP Cine Play transmitem os filmes, democratizando o acesso ao festival.
O evento segue até 28 de junho, com todas as sessões gratuitas. Os ingressos devem ser retirados uma hora antes. Detalhes completos da programação estão no site oficial.
Contexto
Festivais de documentários musicais como o In-Edit Brasil consolidaram-se como espaços cruciais para a preservação e difusão da memória sonora e audiovisual. Ao longo de quase duas décadas, o evento tem mapeado a produção cinematográfica do gênero, revelando histórias de artistas, movimentos e locais que definiram a cultura brasileira e global. Sua relevância transcende a exibição de filmes, fomentando o debate sobre representatividade, justiça social e a própria trajetória da música, enquanto oferece uma plataforma para que novas gerações de cineastas e músicos encontrem inspiração e projeção.



