O cheiro de especiarias ancestrais, o som vibrante do samba e a força de uma narrativa histórica envolvente uniram-se em Jundiaí para redefinir o aprendizado. Mais de 650 jovens testemunharam que a história, quando contada de forma viva, pode transformar perspectivas.
Longe das tradicionais salas de aula, o campus do UniAnchieta fervilhou com o Festival Saberes e Sabores – Homenagem a Tereza de Benguela, um evento que provou ser uma experiência multidisciplinar e profundamente humana.
Uma Líder Histórica Revisitada em Jundiaí
O festival, realizado em parceria com a Casa Civil por meio das Assessorias de Políticas para a Igualdade Racial e Juventude do Núcleo de Articulação de Direitos Humanos, integrou a programação do Mês da Juventude.
Este encontro marcou também o lançamento da segunda edição do curso gratuito do UniAnchieta, focado na Educação para as Relações Étnico-Raciais, reforçando o compromisso com a diversidade e o conhecimento.
Jovens estudantes do UniAnchieta e de entidades de aprendizagem do município foram convidados a mergulhar na trajetória de Tereza de Benguela, uma liderança quilombola do século XVIII.
Tereza comandou o Quilombo do Quariterê, localizado no atual estado do Mato Grosso, por cerca de duas décadas, consolidando-se como um símbolo de resistência e organização social em um período de grande adversidade.
Além de aprender sobre a vida de uma figura tão marcante, os participantes foram estimulados a refletir sobre temas cruciais como liderança, resistência, identidade, diversidade e a importância da participação cidadã.
Cultura e Gastronomia Tecem a Resistência Negra
A programação do festival foi um verdadeiro mosaico de experiências, que transportou os presentes para um universo de manifestações culturais e históricas.
Entre as atrações, destacaram-se as apresentações do Roteiro Histórico Afro-jundiaiense e do Grêmio Recreativo Cultural Arco-Iris Acadêmicos do Samba, trazendo ritmo e narração sobre a herança afro-brasileira.
Artesãos locais e representantes da Rota Turística da Cultura Negra de Jundiaí também marcaram presença, expondo seus produtos, compartilhando saberes e oferecendo uma amostra rica da gastronomia regional e ancestral.
A proposta transformou o campus em um dinâmico ponto de encontro, onde diferentes formas de conhecimento se cruzaram, desde performances estudantis até exposições interativas.
Impacto na região
Para os moradores de Jundiaí e cidades vizinhas, iniciativas como o Festival Saberes e Sabores oferecem uma ponte vital entre o passado e o presente, conectando a história nacional com as raízes culturais locais.
A participação ativa do Roteiro Histórico Afro-jundiaiense e da Rota Turística da Cultura Negra de Jundiaí não apenas valoriza as tradições regionais, mas também fomenta o turismo e o reconhecimento da herança africana na cidade.
Esse tipo de evento contribui diretamente para a formação de uma juventude mais consciente e engajada, ao proporcionar acesso a narrativas e expressões culturais que muitas vezes não encontram espaço nos currículos formais.
Ao resgatar figuras como Tereza de Benguela e valorizar a cultura negra, Jundiaí promove um diálogo necessário sobre inclusão e respeito, impactando diretamente a forma como os jovens percebem sua própria identidade e o tecido social que os cerca.
Novas Vozes, Novas Perspectivas
A percepção dos jovens participantes reforça o valor do festival. Nicole de Oliveira Rosário, por exemplo, descreveu a experiência como “muito importante” e inclusiva.
“Abre uma nova página na mente das pessoas e incentiva a gente a conhecer mais, aprender e olhar para essas histórias de uma maneira diferente”, pontuou Nicole, sobre a relevância de eventos como este.
Rodrigo Vieira Garcia também enfatizou a importância do contato com distintas referências culturais e históricas. “Foi uma experiência muito interessante porque mostra uma história que precisa ser conhecida e valorizada”, afirmou ele.
“Ter esse contato com a cultura, com as pessoas e com diferentes formas de expressão faz a gente aprender de um jeito diferente”, completou Rodrigo, resumindo o impacto pedagógico do evento.
O Mês da Juventude e a Construção do Futuro
O prefeito Gustavo Martinelli sublinhou a satisfação em ver tantos jovens reunidos em um mês tão especial, dedicado à juventude de Jundiaí. “Acreditamos que é fundamental aproximar cada vez mais o poder público, as instituições de ensino e os nossos jovens”, disse Martinelli.
Ele destacou a importância de abrir “espaços para participação, aprendizado, troca de experiências e, principalmente, novas oportunidades”, reafirmando o compromisso da administração municipal.
O festival teve apoio do SENAC, que ofereceu cursos de moda e fotografia, enriquecendo ainda mais as atividades propostas e as oportunidades de desenvolvimento para os jovens.
Este evento integra a ampla programação do Mês da Juventude 2026, organizada pelo Conselho Municipal da Juventude (COMJUVE) em parceria com a Prefeitura de Jundiaí.
Ao longo de agosto, a cidade sediou diversas atividades focadas em educação, empregabilidade, saúde, cultura, esporte, cidadania e participação social, em diferentes regiões.
Por Trás das Celebrações: Uma Perspectiva Histórica
A valorização de figuras como Tereza de Benguela e a promoção de eventos que abordam as relações étnico-raciais não são tendências isoladas, mas reflexos de um movimento mais amplo de revisão histórica e inclusão.
Ao longo das últimas décadas, a sociedade brasileira tem se voltado cada vez mais para a reparação de narrativas silenciadas e a celebração de heróis e heroínas que, por muito tempo, foram marginalizados nos livros didáticos.
Este festival, e a própria instituição de um “Mês da Juventude” com foco em diversidade, exemplificam como a educação e a cultura se tornaram ferramentas potentes para desconstruir preconceitos e edificar uma sociedade mais justa.
A demanda por uma educação que reflita a pluralidade étnica e cultural do Brasil impulsionou a criação de cursos e projetos que, como o do UniAnchieta, buscam formar cidadãos com uma compreensão aprofundada das complexas dinâmicas raciais.
Em um cenário global que clama por mais equidade e reconhecimento, a história de Tereza de Benguela e as discussões sobre diversidade tornam-se essenciais, não apenas para honrar o passado, mas para moldar um futuro onde todas as identidades sejam vistas e valorizadas.



