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Estudo na Amazônia desmente savanização e aponta futuro resiliente à floresta.

Um estudo de 22 anos em Querência, no Mato Grosso, área de fronteira da Amazônia sob forte pressão do agronegócio, reverteu uma tese consolidada sobre o futuro da floresta. Pesquisadores constataram que a Amazônia, mesmo após secas e queimadas severas, demonstra alta resiliência e retoma seu espaço com as mesmas espécies florestais, contrariando a expectativa de savanização.

O trabalho, iniciado em 2004, desmistifica a ideia de que a floresta seria substituída por vegetação típica de savana. O achado, liderado por cientistas da Universidade de Yale e apoiado pelo Instituto Serrapilheira, oferece uma nova perspectiva para a conservação e restauração da maior floresta tropical do mundo.

Floresta Reage e Desafia Previsões

Desde os anos 1990, parte da comunidade científica aventava a hipótese da savanização da Amazônia. Essa tese previa que o desmatamento, as secas e os incêndios recorrentes levariam a floresta a ser substituída por gramíneas e arbustos, alterando drasticamente o bioma.

A pesquisa em Querência, contudo, traça um cenário distinto.

Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale, declarou que o estudo comprova a capacidade de recuperação da floresta.

“O que a gente está mostrando é que a floresta recupera, que ela é altamente resiliente e tem essa capacidade de voltar e de retornar aos espaços altamente degradados”, afirmou Maracahipes.

Essa capacidade de recuperação não vem sem condições. A interrupção dos incêndios se mostra a mais crítica. A presença de florestas intactas nas proximidades também se revela essencial.

Maracahipes explicou a necessidade de um ambiente favorável: “É preciso que você tenha uma fonte de dispersão próxima pra poder recuperar essa área. Porque tem que ter uma matriz de vegetação nativa próxima, animais para poder dispersar essas sementes com o vento. Se não tiver, vai ser mais difícil e mais lento.”

O Método da Recuperação

O estudo montou uma estrutura complexa em 2004. Uma área de 150 hectares foi selecionada e dividida em três espaços de 50 hectares cada. Antes de qualquer intervenção, os cientistas documentaram a vegetação, os animais e os insetos originais do local.

Duas das frações foram submetidas a queimadas controladas. Uma delas era queimada a cada três anos. A outra, anualmente, até 2010. A terceira fração, não atingida pelo fogo, serviu como controle.

A observação pós-incêndio foi imediata. A biodiversidade sofreu um impacto acentuado.

A riqueza de espécies caiu 20,3% nas áreas queimadas anualmente. Nas frações queimadas a cada três anos, a queda foi ainda maior: 46,2%.

Em 2012, uma tempestade de vento adicionou outro distúrbio, causando a morte de 5% das árvores.

Inicialmente, o cenário era de transformação drástica. Com o tempo, a resiliência da floresta emergiu.

O dossel – a cobertura formada pelas copas das árvores – fechou gradualmente. A presença de gramíneas, que havia aumentado com a abertura da floresta, recuou para 10%. “O ambiente parece muito mais um ambiente florestal”, disse o pesquisador. A composição de espécies começou a retornar, especialmente no interior da área.

Floresta Regenerada, mas Vulnerável

Apesar da recuperação notável, a floresta de Querência não é idêntica à original. A margem de espécies perdidas varia entre 31,3% e 50,8%, dependendo do grau de impacto sofrido. O ecossistema se recompôs, mas em uma nova condição.

Essa nova formação apresenta maior vulnerabilidade. “As espécies que fazem parte dessa nova composição, elas têm casca fina e densidade da madeira baixa e morrem muito mais facilmente”, explicou Maracahipes. Isso significa menor resistência a novos eventos de fogo, doenças ou mesmo ventos fortes.

A recuperação da Amazônia em Querência surge em um momento de crescentes desafios. As secas extremas, intensificadas pelas mudanças climáticas, exercem pressão adicional. Embora as espécies florestais mantenham a capacidade de hidratação durante a regeneração, a pesquisa aponta para a necessidade de expandir as áreas degradadas recuperadas. Mais floresta significa mais acesso à água e maior estabilidade climática.

O pesquisador finaliza com uma visão otimista. “Essa região que era conhecida como Arco do Desmatamento, agora tem sido chama de Arco da Restauração, que é essa possibilidade de restaurar aproveitando a capacidade da floresta de se recuperar.” O estudo em Querência lança uma luz sobre essa possibilidade, mostrando que a batalha pela Amazônia pode ser vencida com estratégias de conservação e restauração focadas na sua capacidade intrínseca de reverter o dano.

Contexto

A região do Arco do Desmatamento, onde se insere Querência, no Mato Grosso, representa a fronteira agrícola da Amazônia brasileira, historicamente marcada pela conversão da floresta em pastagens e lavouras, principalmente de soja. A expansão agropecuária aliada a secas prolongadas e incêndios florestais tem sido o principal motor da destruição. O desmatamento nessa faixa da Amazônia contribui para a alteração do regime de chuvas, impactando tanto o bioma quanto a produção agrícola do país. Estudos como o de Leandro Maracahipes oferecem dados essenciais para embasar políticas públicas e iniciativas de restauração que buscam reverter o processo de degradação e garantir a manutenção dos serviços ecossistêmicos fornecidos pela floresta a longo prazo.

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