Pesquisar

Escudo das Américas usa cartéis contra avanço chinês, alertam peritos

A designação de organizações criminosas como o Primeiro Comando do Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como grupos “terroristas” por uma coalizão liderada pelos Estados Unidos acende um alerta nas relações internacionais da América Latina.

Por trás da retórica de combate ao narcotráfico, especialistas em geopolítica veem um movimento estratégico com amplas implicações econômicas e políticas para a região.

Essa é a avaliação de professores de relações internacionais, como Danilo Enrico Martuscelli, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU).

“O Escudo das Américas é uma retomada desse processo de tentativa de anexação colonial ou imperial dos países latino-americanos em relação aos EUA dentro de uma lógica geopolítica de disputa comercial e tecnológica com a China”, afirmou.

Nesta semana, em Nova York, às margens da 81ª Assembleia-Geral da ONU, os 15 países membros da coalizão divulgaram um documento.

O texto informava a intenção de levar a proposta do Escudo das Américas para debate e eventual aprovação na Organização dos Estados Americanos (OEA).

Além disso, as nações concordaram em classificar 24 grupos narcotraficantes como “terroristas”, incluindo as facções brasileiras PCC e CV.

O “Escudo das Américas”: intenções declaradas e bastidores

Criado em março deste ano, o Escudo das Américas já reúne EUA, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

O governo norte-americano, ao anunciar a coalizão, declarou que a iniciativa visa não só combater o narcotráfico, mas também “manter as ameaças externas afastadas”, citando “influências estrangeiras malignas provenientes de fora do Hemisfério Ocidental”.

Para o professor Robson Valdez, do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), o foco principal do Escudo das Américas reside na possibilidade de o narcotráfico ser usado como justificativa.

Ele entende que a verdadeira intenção seria legitimar ingerências dos Estados Unidos na América Latina.

“E, indiretamente, isso sinaliza para a China que a manutenção das suas relações com os países da região teria de ser revista e sob a perspectiva da política externa norte-americana”, ponderou Valdez.

A coalizão, conforme avalia Valdez, buscaria “principalmente, [legitimar] a presença física de tropas americanas na região a pretexto de combater o crime organizado”.

Impacto na região

A classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, ainda que em âmbito de uma coalizão, sinaliza uma mudança na forma como o crime organizado transnacional pode ser tratado.

Para moradores de Jundiaí e cidades vizinhas, a questão se conecta à segurança pública de forma indireta, mas significativa.

A decisão pode influenciar políticas de combate ao crime e cooperação internacional, redefinindo estratégias contra facções que atuam inclusive em São Paulo e região.

A intensificação do controle de fronteiras e das rotas de tráfico, por exemplo, afeta a dinâmica do crime, podendo gerar novos cenários para as forças de segurança locais e a vida nas comunidades.

Brasil em compasso de espera diante da nova coalizão

O Brasil, uma das maiores economias da América Latina, não foi convidado a participar da iniciativa e encara o Escudo das Américas com notável cautela.

Brasília, embora mantenha suas medidas de cooperação internacional no combate ao crime organizado, vê a proposta com ressalvas.

Há uma preocupação de que a iniciativa possa ser utilizada por Washington para obter alinhamentos automáticos no campo econômico, especialmente com possíveis restrições à crescente presença da China na região.

O governo brasileiro aguarda a apresentação formal da proposta na OEA para então decidir se apoiará ou rejeitará uma eventual resolução sobre o tema.

Além das drogas: a disputa pelos recursos estratégicos

O documento da Coalizão, divulgado em Nova York, entrelaça explicitamente o combate às drogas com medidas de “cooperação econômica” entre os países.

Uma parte crucial desse texto defende a proteção das “cadeias de suprimento de minerais críticos por meio de fontes diversificadas e confiáveis”.

Esses minerais, essenciais para as indústrias de tecnologia, defesa e transição energética, são hoje um dos principais focos da acirrada disputa comercial e tecnológica entre Washington e Pequim.

O texto conjunto vai além, ao mencionar: “[Defendemos nossas economias] promovendo regulamentações de fornecedores confiáveis para infraestrutura digital, aplicadas de forma não discriminatória”.

Robson Valdez complementa que o Escudo das Américas pode, ainda, ser usado para impor a venda de equipamentos militares dos EUA, “o que tira dos países a autonomia de escolher os seus parceiros para compras de armamento”.

A estratégia de pressão via OEA

Os países membros do Escudo das Américas informaram que pretendem levar a proposta de ação conjunta ao Órgão de Consulta da OEA, em nível ministerial, para considerar a adoção de uma resolução.

O objetivo é “promover e facilitar a ação coletiva contra organizações narcoterroristas, nos termos do Tratado do Rio [TIAR, Tratado Interamericano de Assistência Recíproca]”.

Assinado em 1947, o TIAR prevê que “a agressão a um Estado americano constitui uma agressão a todos os demais Estados americanos”, refletindo o contexto da Guerra Fria.

Para Danilo Martuscelli, o recurso à OEA tenta conferir legitimidade institucional a uma “política de pressão imperial aberta”, mirando países que ainda não aderiram, como Brasil, México, Uruguai e Canadá.

Um legado de intervenções e a nova geopolítica hemisférica

A atual proposta do Escudo das Américas não surge em um vácuo; ela se insere em um longo histórico de políticas de segurança e intervenção dos Estados Unidos na América Latina.

Desde a Doutrina Monroe, no século XIX, passando pela Guerra Fria com o combate ao comunismo, até as “guerras às drogas” mais recentes, a influência de Washington tem sido uma constante.

O cenário evoluiu para uma complexa teia onde a segurança interna dos EUA se cruza com interesses geopolíticos e econômicos na região.

A iniciativa ganha relevância agora não apenas pela ameaça do narcotráfico, mas também pela intensificação da disputa global por recursos e influência, com a ascensão da China como ator econômico e estratégico.

Críticos da abordagem da Casa Branca, como o professor Danilo Martuscelli, recordam casos contraditórios. Ele questiona, por exemplo, o indulto concedido por Donald Trump ao ex-presidente hondurenho Juan Orlando Hernández, condenado por facilitar o tráfico de cocaína.

“Uma pessoa que está comprometida a combater o narcotráfico vai dar indulto e liberar um narcotraficante? Eles querem combater o narcotráfico, mas no quintal dos outros. Internamente, o que eles fazem para controlar o controle desse crime organizado?”, indagou Martuscelli.

Isso levanta dúvidas sobre a real eficácia e os objetivos subjacentes de tais políticas, mostrando que a complexidade do tema transcende a mera superfície da luta contra o crime.

Leia mais

Destaques

plugins premium WordPress