A descoberta foi tardia, mas o impacto, imediato: uma família tradicional de São Paulo viu uma de suas propriedades mais valiosas, uma fazenda de 5,8 mil hectares no coração de Mato Grosso, ser vendida sem seu conhecimento. O instrumento da complexa negociação, segundo os proprietários, foi uma procuração que jamais foi assinada por eles.
As ramificações deste caso, que envolvem um empresário de São José do Rio Preto e diversas ações judiciais, desenham um cenário de **suposta fraude milionária** no agronegócio brasileiro, desafiando a segurança jurídica de grandes transações de terras.
A Venda Secreta e a Teia de Documentos Falsos
Tudo começou em outubro de 2020. A família Spinola Cunha prometeu vender metade da Fazenda Camila, localizada em Pontal do Araguaia (MT), à M2W Properties, então empresa de Matheus Furia Buzetti, por R$ 15 milhões.
Este valor, no entanto, nunca foi integralmente quitado. Pouco mais de cinco meses depois, a Trust Agro Company Holding, nova razão social de Matheus e da qual ele é o único sócio, prometeu revender a **fazenda inteira** a um casal de Barra do Garças (MT) por um preço significativamente maior: R$ 35,5 milhões.
A escritura definitiva foi lavrada em maio de 2021, mas o que chocou os herdeiros foi a descoberta de uma procuração. O documento, supostamente assinado pelos quatro proprietários, foi autenticado em um cartório do interior de Minas Gerais, no mesmo dia da escritura e a centenas de quilômetros de distância do local da transação.
Um **laudo grafotécnico**, contratado pela família paulistana, revelou uma conclusão alarmante: nenhuma das assinaturas presentes na procuração era autêntica. Em um dos casos, o nome de uma das proprietárias, “Gorete”, aparecia incorretamente grafado como “Goerete”.
Os Spinola Cunha só tomaram conhecimento da venda em abril de 2025, quase quatro anos após a lavratura da escritura. A partir daí, registraram um boletim de ocorrência em São Paulo, e a Justiça criminal rapidamente decretou a **indisponibilidade das matrículas** da fazenda, em um esforço para proteger a propriedade.


A Dívida Milionária e a Dança das Garantias
Diante da descoberta da suposta fraude, a Trust Agro Company Holding reconheceu, em julho de 2025, uma **dívida de R$ 41 milhões** com a família Spinola Cunha. Para garantir o pagamento, a empresa ofereceu três fazendas localizadas em Comodoro (MT) como garantia.
Contudo, nenhuma parcela dessa dívida foi paga. O que veio a seguir surpreendeu novamente os herdeiros: em fevereiro de 2026, as matrículas das três fazendas mostravam que elas haviam sido vendidas ou dadas em pagamento a outros compradores, desta vez de Jales (SP).
A aquisição de duas dessas propriedades, em 2025, havia sido assinada por Benedito Aparecido Buzetti, pai de Matheus Furia Buzetti, atuando como procurador do filho. A manobra levantou questionamentos adicionais sobre a seriedade das garantias.
“Ele ofereceu as fazendas como garantia e, assim que deixou de pagar, vendeu as mesmas fazendas a terceiros. É mais uma prova de que o acordo nunca foi feito para ser cumprido”, afirmou Fernando Jacob Netto, advogado que representa a família Spinola Cunha, enfatizando a **gravidade da situação**.
Impacto na região
A repercussão de um caso como o da Fazenda Camila, que tramita em varas paulistas e federais, transcende as fronteiras geográficas do Mato Grosso. A complexidade de supostas fraudes envolvendo procurações falsas e múltiplos negócios imobiliários **reverbera intensamente no ambiente de negócios de São Paulo**.
Em polos econômicos como **Jundiaí**, que abrigam uma significativa parcela de investidores no agronegócio e proprietários de grandes terras, a análise desses processos é crucial. Eles servem de alerta para a necessidade de **redobrar a cautela** em transações rurais de alto valor, reforçando a importância de uma **diligência minuciosa** e da verificação de todos os documentos.
A fragilidade da segurança jurídica em um setor tão vital pode abalar a confiança de quem busca investir ou negociar propriedades, impactando o fluxo de capital e as práticas comerciais em todo o estado.
O Império em Disputa: Faturamento Bilionário e Inúmeras Ações
Benedito Buzetti, pai de Matheus, é uma figura conhecida em Rio Preto, com décadas de atuação no mercado de compra e venda de imóveis rurais. Ele, inclusive, expandiu seus negócios para Mato Grosso, onde as terras eram mais acessíveis, e posteriormente, seu filho Matheus assumiu a liderança das operações.
Em uma reportagem de 2023 do site AgFeed, Matheus Furia Buzetti chegou a declarar um faturamento impressionante de **R$ 600 milhões** para a Trust Agro Company em 2022, indicando o porte da empresa no setor.
Contudo, um contraste notável surge de publicações oficiais da Justiça. Desde 2025, Matheus e a Trust Agro Company respondem a **dezenas de execuções e ações de cobrança**, pintando um quadro financeiro mais desafiador do que o apresentado publicamente.
Em Rio Preto, a Trust foi alvo de um pedido de falência, que posteriormente foi retirado pelo credor. Além disso, a empresa e Benedito Buzetti são réus em uma execução movida pelo Bradesco, que aponta vendas de imóveis que, segundo o banco, teriam ocorrido em **fraude à execução**. Outra ação relevante tramita em Jales, movida pelo antigo dono das fazendas de Comodoro contra Matheus, Benedito e a empresa.
Disputas judiciais em várias frentes
A família Spinola Cunha não mede esforços na Justiça. Na ação que tramita na 6ª Vara Cível de Rio Preto (processo 4038836-84.2026.8.26.0576), eles pedem a **rescisão do contrato original de 2020**, a extinção de todos os direitos da Trust sobre a Fazenda Camila, uma indenização robusta e o bloqueio de bens da empresa e de Matheus.
Paralelamente, na 8ª Vara Federal Cível de Mato Grosso (processo 1043019-30.2026.4.01.3600), os herdeiros buscam a **anulação da venda da fazenda** e de todas as hipotecas registradas sobre o imóvel em favor da Caixa e do Bradesco.
Em uma decisão crucial de 19 de outubro, o juiz Sergio Martins Barbatto Junior, da 6ª Vara Cível de Rio Preto, agiu para impedir novas transações sobre a propriedade. Ele determinou o **arresto das matrículas da Fazenda Camila** como uma “cautela extra” e ordenou a citação dos réus para se manifestarem sobre as acusações.
Até o momento, os réus, Matheus Furia Buzetti e a Trust Agro Company Holding, ainda não apresentaram defesa nos processos, deixando em aberto muitos questionamentos sobre o futuro da Fazenda Camila e do vasto império rural em questão.


O Cenário de Milhões por Trás das Disputas de Terra
O caso da Fazenda Camila não é um evento isolado, mas um reflexo das complexidades e desafios crescentes no mercado de terras brasileiro. Com o avanço do agronegócio e a valorização das commodities, as **propriedades rurais se tornaram ativos de altíssimo valor**, atraindo investimentos e, infelizmente, também esquemas de fraude cada vez mais sofisticados.
Historicamente, disputas por terras são uma constante no Brasil, mas a era digital e a interconexão de cartórios e sistemas financeiros trouxeram novas dimensões a esses conflitos. A suposta falsificação de procurações, como neste caso, evidencia uma vulnerabilidade que pode ser explorada para movimentar milhões sem o consentimento dos legítimos proprietários.
A relevância deste assunto hoje se amplifica pela necessidade de **segurança jurídica** para um setor que é o motor da economia brasileira. A capacidade de empresários e famílias de confiarem na integridade dos documentos e na solidez das transações é fundamental para o desenvolvimento e a atração de investimentos responsáveis.
As decisões tomadas nos processos envolvendo a família Spinola Cunha e a Trust Agro Company Holding podem estabelecer **precedentes importantes**. Elas poderão não apenas redefinir a proteção de bens rurais, mas também servir como um alerta crucial para todos os envolvidos no vasto e valioso mercado de terras do país.



