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Folha Jundiaiense

Duplicata escritural trava R$ 11 tri e ainda não decola nas empresas

Apesar de movimentar cerca de R$ 10 trilhões anualmente e ser central para o mercado de antecipação de recebíveis, a duplicata escritural ainda ocupa posição secundária nas prioridades de muitas empresas brasileiras. Às vésperas das primeiras operações oficiais em ambiente controlado, o sistema de registro eletrônico enfrenta um cenário de baixo preparo e desconhecimento generalizado. Essa falta de engajamento, destacada por pesquisas e relatos do setor, ameaça o pleno potencial de um instrumento projetado para trazer maior segurança, transparência e eficiência às transações comerciais no país.

Desconhecimento e Atraso na Adoção da Duplicata Escritural Desafiam Mercado

A digitalização das duplicatas de papel para o formato escritural, uma inovação do Banco Central (BC), promete revolucionar a maneira como as empresas gerenciam seus direitos de crédito. No entanto, o otimismo regulatório se choca com a realidade operacional: uma parcela significativa do setor produtivo brasileiro engatinha na adaptação de seus sistemas para o novo modelo. A transição, que visa modernizar um mercado bilionário, compete por atenção com pautas consideradas mais imediatas, como a complexa discussão da reforma tributária, gerando um preocupante quadro de incertezas.

O resultado desse descompasso é um cenário de profundo desconhecimento e falta de prontidão em toda a cadeia de valor. Uma pesquisa recente conduzida pela fintech Monkey revela a dimensão do problema: metade dos fornecedores consultados declara nunca ter ouvido falar em duplicata escritural. Apenas 15,4% afirmam conhecer bem o assunto. Mesmo entre os participantes cientes da ferramenta, a maioria esmagadora desconhece os prazos regulatórios. Alarmantemente, mais de 70% dos entrevistados não conseguem visualizar as mudanças práticas que a digitalização trará para suas operações.

Esse alto índice de desinformação e despreparo pode gerar sérios gargalos no futuro próximo. A não adaptação implica em riscos de atrasos operacionais, dificuldades na negociação de títulos e até na perda de acesso a linhas de crédito cruciais para o capital de giro das empresas, especialmente as de menor porte, que dependem fortemente da antecipação de recebíveis.

Por Que a Duplicata Escritural Importa: Transparência e Segurança no Crédito

A duplicata escritural é um registro eletrônico de um título de crédito, eliminando o documento físico e centralizando as informações em plataformas digitais. Este sistema traz benefícios substanciais para a economia brasileira. Primeiramente, ele aumenta a transparência nas negociações, pois todas as informações sobre a duplicata – como emissão, aceitação, endosso e pagamento – ficam registradas de forma imutável. Isso reduz drasticamente as chances de fraudes, como a duplicidade de venda de um mesmo título, prática comum no formato em papel.

Em segundo lugar, a nova modalidade confere maior segurança jurídica aos credores e devedores. Com o registro centralizado, a autenticidade e a validade do título são facilmente verificáveis, proporcionando mais confiança aos participantes do mercado de antecipação de recebíveis. Para as empresas, isso se traduz em um acesso mais fácil e, potencialmente, mais barato ao crédito, pois as instituições financeiras terão maior visibilidade sobre a saúde dos recebíveis negociados, diminuindo o risco de operações.

O impacto prático para o setor produtivo é a otimização da liquidez. Com um processo mais rápido e seguro para negociar recebíveis, as empresas podem obter capital de giro com maior agilidade, investindo em crescimento ou honrando compromissos financeiros. Para o cidadão, o reflexo indireto é uma economia mais dinâmica e competitiva, com empresas mais saudáveis e capazes de gerar empregos e inovações.

Ritmos Distintos de Adaptação e o Papel das PMEs

A adaptação à duplicata escritural não ocorre de forma homogênea. A fintech Monkey, que atua conectando uma base de mais de 40 mil fornecedores a sacados e mais de 100 instituições financeiras, observa uma disparidade clara. Empresas de grande porte, que movimentam volumes significativos de títulos, demonstram uma capacidade de adaptação mais rápida. “Quando a gente fala de pequenas e médias, o quadro é um pouco diferente, porque muitas delas nem sabem o que é a duplicata escritural“, pontua Roberta Ferraz, diretora de novos negócios da Monkey.

Essa diferença é crucial, pois as pequenas e médias empresas (PMEs) representam a maioria do tecido empresarial brasileiro e são as que mais dependem da antecipação de recebíveis para manter seu fluxo de caixa. A falta de conhecimento e de recursos para investir em atualização tecnológica pode deixá-las em desvantagem, gerando um gargalo quando a obrigatoriedade do sistema escritural se estender a esses portes, conforme o cronograma escalonado do Banco Central.

Cronograma Detalhado do Banco Central: Transição Gradual para a Digitalização

O Banco Central do Brasil desenhou um cronograma de implementação em fases para a duplicata escritural, uma decisão estratégica para mitigar o senso de urgência e permitir uma transição mais suave. Recentemente, a autoridade monetária realizou um evento em Brasília marcando o lançamento do novo ecossistema. As três registradoras já aptas a atuar como escrituradoras – B3, Núclea e Cerc – ainda aguardam um último aval para iniciar a produção assistida, a fase controlada de testes.

A autorização final para B3, Núclea e Cerc deve ser concedida ainda neste mês, permitindo que as três iniciem a nova etapa simultaneamente. Além dessas, outras empresas como SPC Grafeno e Quick Soft estão em fase avançada de testes e devem avançar no processo ao longo do segundo semestre. Essa abordagem multifacetada visa garantir que a infraestrutura e os processos estejam robustos antes da plena obrigatoriedade.

Na **produção assistida**, um grupo seleto de clientes realizará as primeiras operações sob o novo modelo em um ambiente rigorosamente controlado, com previsão de início em julho de 2026. A partir de meados do ano que vem, a adoção obrigatória será instituída de forma escalonada. Em junho de 2027, a exigência começa para os bancos que operam com grandes empresas. Em dezembro de 2027, a obrigatoriedade se estenderá para empresas médias, e finalmente, em junho de 2028, incluirá as pequenas empresas, completando a transição.

O cronograma oficial para a implementação da duplicata escritural, segundo o Banco Central, é o seguinte, sujeito a eventuais ajustes:

  • Julho/2026: Início da fase de produção assistida.
  • Dezembro/2026: Término da fase de produção assistida.
  • Junho/2027: Início da obrigatoriedade oficial para grandes empresas.
  • Dezembro/2027: Início da obrigatoriedade para empresas médias.
  • Junho/2028: Início da obrigatoriedade para pequenas empresas.

Neste primeiro momento, a participação é voluntária e limitada, com as poucas corporações prontas realizando operações simples com um conjunto restrito de sacados. Uma movimentação de volume maior é esperada apenas para o começo do próximo ano. “As empresas não estão preparadas agora, à exceção de alguns clientes com operações pontuais”, reitera Roberta Fortunato, superintendente de Duplicata Escritural da B3, refletindo a cautela predominante no mercado.

Lições Aprendidas: O Diferencial da Abordagem Gradual do BC

A opção pela implementação gradual da duplicata escritural é uma decisão deliberada do Banco Central para evitar os contratempos vivenciados na regulamentação dos recebíveis de cartões de crédito em 2021. Naquela época, a entrada em operação dos sistemas ocorreu de forma abrupta e unificada, o que gerou uma série de problemas, incluindo lentidão no processamento e dificuldades no acesso aos pagamentos recebidos. A interoperabilidade, que deveria garantir acesso equânime às informações, também não funcionou adequadamente, causando fricções no mercado.

A principal diferença entre os dois mercados, e que justifica a abordagem mais cautelosa para as duplicatas, reside no volume e na diversidade de participantes. O mercado de duplicatas envolve um número exponencialmente maior de empresas e instituições financeiras. A adaptação, neste caso, exige o envolvimento de um universo diversificado de empresas de múltiplos portes, cada qual com suas particularidades operacionais. “Vai ser muito mais difícil escalar o modelo, porque envolve mais empresas com diferentes formas de trabalho”, analisa Izaias Miguel, CEO da V360, empresa especializada na automação do processo de contas a pagar.

Prontidão dos Sistemas e Novos Gargalos Operacionais

A preocupação com a prontidão dos sistemas não se limita ao desconhecimento. A V360 estima que, dos R$ 600 bilhões transacionados anualmente em sua plataforma de antecipação de recebíveis, cerca de 70% dos títulos gerados atendem aos critérios para negociação como duplicatas escriturais. Contudo, aproximadamente 10% desses títulos apresentam algum tipo de erro cadastral, como cálculo equivocado de impostos ou divergência no Cadastro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ).

Essas inconsistências cadastrais criam um atraso significativo. Em média, as empresas levam 22 dias para validar uma nota fiscal e lançá-la como título em seu contas a pagar. Pelo novo regime escritural, entretanto, os compradores terão um prazo muito mais curto, de apenas 10 dias, para aceitar ou rejeitar a duplicata. Caso esse período seja excedido sem uma manifestação formal da companhia, a duplicata será considerada aceita automaticamente. “Esse é um dos principais gargalos, porque o pagador demora muito para validar a nota fiscal”, alerta Miguel, ressaltando o risco de sobrecarga e inadimplência gerado pela incompatibilidade de ritmos entre o fluxo atual e as novas exigências.

Contexto

A duplicata escritural representa um passo fundamental na modernização do sistema financeiro brasileiro, visando digitalizar e conferir maior segurança a um dos principais instrumentos de crédito do país. Com um mercado de antecipação de recebíveis que movimenta trilhões de reais, a transição para o modelo digital é crucial para mitigar fraudes, aumentar a transparência e otimizar o acesso a crédito para empresas de todos os portes. O Banco Central adota uma abordagem gradual para a implementação, aprendendo com experiências anteriores, buscando assegurar uma transição robusta e eficiente que minimize impactos negativos e maximize os benefícios de longo prazo para a economia.

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