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Folha Jundiaiense

Dores menstruais afastam 40% das alunas brasileiras da escola

Seis em cada dez estudantes dos ensinos fundamental e médio que menstruam relatam cólicas fortes e moderadas. A dor atrapalha a rotina escolar e exige medicação, revela pesquisa. Quatro em cada dez alunas (37,1%) faltam às aulas mensalmente por esses sintomas.

Os dados, coletados pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info, foram divulgados esta semana, na véspera do Dia Internacional da Dignidade Menstrual. O levantamento envolveu 2.551 estudantes, 303 docentes e 181 gestores escolares de redes pública e privada em todo o país.

A pesquisa focou em 770 estudantes que menstruam, mapeando o impacto direto da dor menstrual na educação.

Absenteísmo e Prejuízo Escolar

A cólica responde por 57,7% das ausências. Cansaço e dores no corpo (30,1%), dores de cabeça (28%) e dor de barriga (20,1%) também figuram entre os principais sintomas que tiram as meninas da sala de aula.

Vergonha e medo de vazamento, citados por 19,3%, somam-se à lista, assim como a falta de banheiro ou produtos de higiene (8,2%).

As estudantes perdem, em média, dois dias de aula por mês. Esse absenteísmo, conforme explica Sofia Reinach, líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, traz consequências sérias.

“Quase 40% das meninas no Brasil estão perdendo pelo menos um dia de aula por mês por conta das dores [menstruais]”, afirmou Reinach. Ela destacou o risco de “defasagem escolar e uma desvantagem crônica na aprendizagem.”

O estudo aponta que as ausências, muitas vezes, são tratadas como questões individuais, algo privado ou inevitável.

O Instituto Alana defende a necessidade de reconhecer a dor como problema coletivo. Sugere a implementação de protocolos de faltas justificadas e a capacitação do corpo docente. A medida visa diminuir o constrangimento das alunas e melhorar o registro dos casos.

Desigualdade Racial e a Dor Silenciosa

A pesquisa trouxe à tona uma disparidade racial. Meninas negras relatam menos cólicas fortes, mas faltam mais às aulas.

14,5% das alunas negras perdem de dois a cinco dias por mês devido a motivos menstruais. Entre as alunas brancas, o índice de faltas cai para 9,6%.

A percepção da dor também difere. 37,5% das entrevistadas brancas descrevem suas cólicas como fortes. Esse índice é menor entre meninas negras, chegando a 25,9%.

16% das meninas negras afirmam não sentir cólicas menstruais, contra 8,5% das brancas. Sofia Reinach explica: “As meninas negras nomeiam menos a sua dor como forte. Aparentemente, elas têm um limiar de dor maior, portanto, reconhecem menos como uma dor incapacitante. Mas, na prática, o impacto da dor as tira de suas atividades e da escola.”

A especialista alerta para o “viés antigo de que corpos negros sentem menos dor”, presente entre profissionais de saúde e educação. A percepção precisa mudar. Meninas negras sentem dor, mas falam menos. A escola deve se integrar a uma rede de cuidado. Professores e gestores devem estar atentos, acionar as famílias e garantir acompanhamento adequado.

Infraestrutura Precária e Pobreza Menstrual

Regiões Norte e Centro-Oeste sofrem mais com a precariedade de infraestrutura e a falta de produtos. A ausência de banheiros adequados e itens de higiene menstrual é um motivo de falta nas aulas, especialmente no Norte (18,9%) e Centro-Oeste (30,2%).

O acesso à infraestrutura é uma condição básica para a permanência escolar.

Em Brasília, a estudante de publicidade Ana Clara Maimoni tomou a iniciativa. Ela mobilizou vizinhos e conhecidos para arrecadar absorventes. “Eu sempre achei um absurdo como os postos dão camisinha de graça, mas não dão absorventes e como isso afeta a nossa vida”, disse Ana Clara.

A ação arrecadou mil absorventes, doados a uma escola na Vila Planalto. O estoque atendeu as alunas por seis meses. O projeto incluiu palestras com profissionais de saúde. “As meninas adoraram e participaram bastante, fizeram várias perguntas”, contou Ana Clara.

A escola, segundo ela, é um local estratégico para debater o tema. A falta de acesso ao mínimo para a dignidade menstrual priva as meninas da educação. “Isso só escancara a nossa desigualdade, principalmente, porque os homens não passam por isso, pessoas que não menstruam não passam por isso e as mulheres acabam tendo que lidar sozinhas.”

O tabu ainda ronda o assunto. “Muitas vezes, elas não falam sobre porque ainda é considerado um tabu em muitos lugares e essas meninas jovens que não tinham condição e muito pouco conhecimento.”

Menarca Precoce e Dores Intensas

A pesquisa demonstra uma menarca cada vez mais precoce no Brasil. 65,2% das meninas entrevistadas menstruaram até os 11 anos; 36,5% até os 10 anos.

O Nordeste (45,5%) e o Sul (43,9%) registram as maiores proporções de menarca precoce. O Centro-Oeste apresenta a menor (16,1%).

Há uma associação direta entre menarca precoce e dores mais intensas. 43% das alunas que menstruaram aos 10 anos relataram cólicas fortes. O índice cai para 27% entre aquelas que menstruaram aos 11 ou 12 anos. Entre as estudantes que menstruaram aos 13 anos, um quarto sente cólicas fortes.

Para muitas meninas, menstruar não significa apenas lidar com uma nova fase do corpo, mas também com dores que podem afetar a frequência às aulas, a concentração, a prática de esportes e a convivência com colegas”, aponta o estudo do Instituto Alana.

Muitas jovens chegam à primeira menstruação sem qualquer orientação. Sofia Reinach reforça a necessidade de antecipar o debate sobre saúde menstrual nas escolas, começando no ensino fundamental 1. “Ter um olhar cuidadoso, ampliar as estratégias de cuidado para essa faixa etária, em especial, para que as meninas com muita dor com menarca precoce tenham um acompanhamento mais próximo”, prioriza Reinach.

Impacto nos Educadores e a Rede de Apoio

As escolas sofrem com faltas de alunas e professoras. 28,3% das gestoras escolares relataram cólicas fortes; 16,9% já faltaram ao trabalho por motivos menstruais. Entre as professoras, 15,8% descreveram cólicas fortes, e 12,1% faltaram ao menos uma vez no último ano.

Ainda que o percentual seja menor que entre as estudantes, pode refletir maior acesso a diagnósticos e tratamentos, além da responsabilidade adulta. “As professoras se esforçam mais para conviver com essa dor no seu ambiente profissional”, observa o estudo.

Reinach defende políticas de saúde menstrual nas escolas, incluindo estudantes e trabalhadoras. “Precisamos entender que a dor menstrual tira meninas e mulheres do cotidiano escolar e torna isso um fenômeno cumulativo. As escolas estão sofrendo duplamente com essas faltas, tanto de alunas quanto professoras.”

O Desconhecimento Masculino

A menstruação permanece pouco compreendida como questão coletiva. 36,8% dos estudantes do sexo masculino afirmam não pensar muito sobre o tema, quase o dobro do registrado entre as meninas (19,7%).

Apenas 23,7% dos meninos e adolescentes acreditam que a menstruação pode atrapalhar a escola ou o esporte. 41,2% das alunas reconhecem esse efeito negativo.

O Instituto Alana defende o envolvimento dos meninos. “É fundamental que o assunto menstruação deixe de ser um tabu. E para isso, a gente precisa trazer os meninos para as conversas cotidianas. Não tem mais como menstruação ser um assunto apenas de meninas e mulheres na sua intimidade”, constatou Sofia.

A ideia é transformar meninos de espectadores passivos em parte de uma rede de apoio.

Naturalização da Dor e Atraso em Diagnósticos

Tratar a dor menstrual como normal na adolescência gera impactos duradouros. A invisibilidade das cólicas pode levar a faltas, afastamento de atividades físicas, perda de concentração e queda no rendimento escolar. A médio e longo prazo, prejudica a saúde, a renda e a qualidade de vida das mulheres.

Mulheres que aprenderam a conviver com dores intensas tendem a seguir trabalhando apesar dos sintomas.

Essa naturalização atrasa o diagnóstico de condições mais graves. “A normalização da dor faz com que uma menina aprenda que cólica é normal. Ela para de reclamar e, no entorno, os adultos param de investigar se essa dor poderia ter um tratamento ou não”, relata Sofia Reinach.

Dores incapacitantes, tratadas como “normais” desde a adolescência, podem piorar. A investigação ocorre, muitas vezes, apenas na vida adulta, quando já evoluíram para doenças ginecológicas ou outras condições severas. A endometriose é um exemplo. Afeta uma em cada dez mulheres, geralmente começa silenciosamente na adolescência, mas pode levar até 12 anos para ser diagnosticada.

O Instituto Alana reitera: investir em saúde menstrual nas escolas é essencial. Garante o direito à aprendizagem e reduz desigualdades. “Incluir saúde menstrual nos protocolos, no currículo e na infraestrutura, priorizando as estudantes mais afetadas, é uma oportunidade de promover equidade e favorecer uma escola que reconhece a realidade de todas as crianças e adolescentes”, destacou a instituição.

Contexto

A dignidade menstrual transcende o acesso a absorventes. Envolve uma questão de saúde pública, equidade educacional e combate ao estigma social. O ciclo menstrual, frequentemente alvo de tabus, impacta diretamente a permanência escolar, o desempenho acadêmico e o desenvolvimento social de milhões de meninas e jovens. A naturalização da dor e a falta de conhecimento sobre a saúde menstrual contribuem para atrasos diagnósticos de condições como a endometriose, afetando a qualidade de vida feminina a longo prazo e perpetuando desigualdades de gênero e raciais dentro do sistema educacional e da sociedade. A escola, nesse cenário, emerge como um espaço estratégico para intervenções que promovem informação, infraestrutura e apoio, quebrando ciclos de desinformação e negligência.

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