Há mais de quatro séculos, Dom Quixote de la Mancha, de Miguel de Cervantes, descreve um homem que, tomado por ideais nobres e leituras excessivas, passa a confundir a realidade com suas próprias projeções. Os moinhos de vento tornam-se gigantes; a boa intenção vira obstinação; o heroísmo, delírio. A metáfora atravessou o tempo porque continua atual — e, na política local brasileira, ela encontra terreno fértil.
Em câmaras municipais, prefeituras e conselhos, vemos diariamente personagens que entram na vida pública movidos por vocação legítima. Querem resolver problemas reais: buracos nas ruas, filas na saúde, transporte precário, insegurança, falta de creches. O problema começa quando a dureza do cotidiano político — pressão social, escassez orçamentária, burocracia, disputas internas e exposição permanente — cobra seu preço. É aí que surgem os “moinhos de vento”: inimigos imaginários, conspirações sem prova, narrativas inflamadas que substituem dados, diagnósticos e planejamento.
Na prática, isso se traduz em discursos maximalistas para problemas mínimos e em silêncio constrangedor diante dos desafios estruturais. Um atraso administrativo vira “perseguição política”. Uma crítica técnica vira “ataque pessoal”. Um debate legítimo é tratado como guerra. Em vez de priorizar a pavimentação que falta, a UBS sem médico ou a escola sem manutenção, parte da energia se perde combatendo fantasmas — likes, manchetes fáceis e bravatas performáticas.
A política local, por definição, é o espaço do concreto. É ali que o cidadão mede o poder público: na lâmpada que acende, no ônibus que passa, no posto que atende. Quando gestores e parlamentares trocam o chão da cidade por batalhas simbólicas, o prejuízo é imediato e mensurável. Dados oficiais reforçam esse ponto: diagnósticos municipais do IBGE mostram que gargalos urbanos persistem sobretudo onde há baixa capacidade de planejamento e execução; relatórios do Tribunal de Contas reiteram que falhas recorrentes estão menos ligadas à falta de discurso e mais à gestão deficiente de recursos e prioridades.
Há, ainda, um efeito colateral perigoso: o desgaste da confiança pública. Quando o eleitor percebe que o representante prefere enfrentar “gigantes” imaginários a resolver problemas reais, cresce o ceticismo. A política passa a parecer teatro. O debate se empobrece. E a democracia local — que depende de participação e fiscalização — perde vitalidade. Pesquisas do Tribunal Superior Eleitoral indicam que a desinformação e a retórica emocional extrema reduzem a qualidade do debate público e dificultam a tomada de decisões racionais no nível municipal.
Nada disso significa negar o papel da paixão e da visão na política. Elas são necessárias. O alerta quixotesco é outro: visão sem método vira devaneio. Paixão sem controle vira ruído. O antídoto é simples, embora trabalhoso: pés no chão, dados à mesa, diálogo institucional e foco no que muda a vida das pessoas agora. Planejar, executar, prestar contas. Ouvir críticas, ajustar rotas, cooperar.
Cervantes não ridicularizou Dom Quixote por sonhar, mas por confundir sonho com realidade. Na política local, sonhar é indispensável; confundir é imperdoável. Enquanto alguns insistirem em brandir lanças contra moinhos de vento, bairros seguirão no escuro e filas continuarão longas. A boa política começa quando se reconhece o tamanho do problema, o limite do orçamento e a urgência do cidadão. Todo o resto é literatura — bela, mas insuficiente para governar.
ADILSON ROSA – Coordenador Regional do PL e Presidente do PL em Jundiaí/SP