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Folha Jundiaiense

Diretor premiado usa cinema para transformar e impactar realidades no Brasil.

O cineasta e ator João Pedro Oliveira, 24 anos, nascido e criado na comunidade de Vila Isabel, Rio de Janeiro, usa sua arte para redefinir a representação negra no audiovisual brasileiro. Após conquistar o país como Serginho na série Malhação, o artista carioca coleciona prêmios internacionais por sua estreia na direção, o curta-metragem No Fim do Déjà-Vu, eleito Melhor Diretor no Los Angeles Brazilian Film Festival.

Nascido em 1999, o carioca de Vila Isabel nunca escondeu as origens. Sua ascensão artística começou de forma inesperada. Desempregado, procurou uma agência de modelos, mas encontrou ali o caminho para a atuação.

Antes dos sets, uma experiência como jovem aprendiz em um banco abriu seus olhos para um Rio de Janeiro além dos limites da favela.

‘Tive acesso a uma outra realidade muito diferente’, declarou Oliveira. ‘Comecei a ir a palestras, exposições, teatro’.

Essa imersão concedeu-lhe um capital cultural. ‘Passei a perceber que também podia fazer aquelas coisas’, afirmou. A favela, completou, sonha em ‘ganhar o mundo’.

Sua arte reflete essa descoberta de um Rio de Janeiro dividido. Para o cineasta, ‘a lógica é uma’ no morro; ‘quando desce e vai para o asfalto, percebe que alguma coisa muda’.

Oliveira usa sua produção para romper com representações limitadas de personagens negros no audiovisual nacional.

Ele critica a figura subalternizada, historicamente comum: o empregado, o motorista, o traficante. Sua intenção é subverter essa imagem.

‘Quando começamos a contar as nossas próprias histórias, damos outro tom para isso’, disse. A mudança não se resume à presença de atores negros na tela, mas na construção de novas narrativas.

Ele defende que essas histórias revelam outras possibilidades: o rapper, o microempreendedor, o indivíduo que transita. ‘Isso constrói uma outra imagem na cabeça das pessoas sobre quem somos’.

A Consagração de “No Fim do Déjà-Vu”

A estreia de João Pedro Oliveira como diretor e roteirista solidificou seu nome fora do circuito de atuação. Sem formação acadêmica tradicional, ele aprimorou o ofício com cursos livres e estudo autodidata. Esse processo prático levou-o a retomar a graduação em Estética e Teoria do Teatro.

‘Precisei entender como escrever um roteiro, como trabalhar a narrativa’, explicou. ‘Fui fazendo cursos e aprendendo na prática’.

Dessa dedicação nasceu No Fim do Déjà-Vu, curta que acompanha Fabrício, artista plástico negro. O personagem deixa o tráfico para sustentar o filho pela arte, mas o desaparecimento da criança durante um festival de pipas o leva a uma busca guiada pela espiritualidade negra.

‘Eu queria contar uma história sobre espiritualidade e sobre a minha própria relação com isso’, declarou Oliveira. A ficção, ele afirma, oferece um caminho para ‘contar a sua história de outra forma’.

O filme teve lançamento internacional em Nova York, eleito Melhor Curta-Metragem, antes de chegar ao Brasil. Em Los Angeles, garantiu a João Pedro o prêmio de Melhor Diretor.

‘O filme foi exibido para um público que não conhecia aquela realidade. Eu me perguntava se eles entenderiam. E entenderam. Foi emocionante’, relatou o diretor.

Atuação e o Poder da Representação

Antes de dirigir, João Pedro Oliveira já havia se destacado como ator. Em 2024, ele recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília pelo curta E Seu Corpo é Belo, de Yuri Costa.

O filme se passa nos bailes black dos anos 1970, narrando uma história de amor entre dois homens negros. Um contexto raramente explorado pelo cinema brasileiro.

‘Foi mágico’, descreveu Oliveira. ‘Lembro de ver Rui Guerra assistindo ao filme e depois vindo conversar. Foi uma noite inesquecível’.

A experiência reforçou sua convicção sobre a arte como motor de transformação e a importância da representatividade. ‘Eu queria fazer um filme que pudesse chegar a pessoas que vivem essas mesmas realidades e mostrar que existem outros caminhos possíveis’, disse, reconhecendo o legado de iniciativas como o grupo teatral Nós do Morro e produções como Cidade de Deus.

‘A possibilidade de você se ver representado é o que permite sonhar’, afirmou. ‘Quando alguém parecido com você faz alguma coisa, você passa a acreditar que também pode fazer’.

O Cenário Atual do Cinema Brasileiro

Para João Pedro Oliveira, o cinema nacional vive um momento de oportunidades históricas para apresentar ao mundo um Brasil mais complexo e diverso, fugindo de estereótipos.

‘Fazer com que as pessoas descubram mais sobre a nossa cultura para além dos estereótipos é maravilhoso. O audiovisual tem sido essa ponta de lança’, declarou.

Ele avalia que a renovação criativa do cinema brasileiro desperta o interesse internacional. ‘O Brasil tem muito potencial para exportar não apenas a nossa cultura, mas também as nossas formas de realizar, nossas técnicas e nossos métodos’, disse. Há, segundo ele, uma ‘sede por histórias novas’ que o país pode suprir.

A aposta do cineasta é que essas narrativas continuarão a brotar dos territórios por muito tempo à margem das telas.

‘Acredito que a gente pode construir outras realidades através do cinema. E também ressignificar histórias que foram contadas de outra forma. Essa é a força do audiovisual’, concluiu.

Contexto

O audiovisual brasileiro, historicamente concentrado em eixos urbanos e narrativas por vezes distantes da maioria da população, tem testemunhado uma progressiva democratização. Movimentos artísticos e políticas de fomento impulsionaram a emergência de vozes e talentos de periferias e comunidades. A representatividade, tanto à frente quanto por trás das câmeras, tornou-se pauta central, desafiando estereótipos arraigados e promovendo a diversidade. Diretores, roteiristas e atores negros, indígenas e de outras minorias conquistam espaço e reconhecimento, redefinindo a identidade e a projeção internacional da produção nacional. Essa mudança não se limita à tela, impactando a percepção social e ampliando o capital cultural de comunidades antes invisibilizadas.

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